Há pouco, quando fazia as contas do tempo em que deverei ficar sozinho comigo mesmo, enganei-me, pois só considerei as horas. Foi um erro. Há momentos que precisam ser medidos por minutos. Por exemplo: é depois da distribuição do pão e do café que chega o momento do esvaziamento das bacias de detritos, mais ou menos uma hora após a comida. Quando me devolvem a bacia vazia, ela vem com o coquinho, os cinco cigarros e, às vezes, um bilhete fosforescente. Não é sempre mas é muito comum que, nessa ocasião, eu conte os minutos. É fácil, pois controlo o tempo de cada passo para um segundo e meu corpo serve de pêndulo. A cada meia volta, digo mentalmente: um. Doze idas e vindas perfazem um minuto. Não pensem que fico ansioso para saber se terei o coquinho que se tornou vital para mim, se receberei os cigarros, que me dão o prazer inefável de poder fumar dez vezes por dia no interior desse túmulo, pois fumo um cigarro em duas vezes. Não. Às vezes, uma espécie de angústia me invade na hora do café e tenho medo, sem qualquer razão particular, pelas pessoas que, arriscando sua tranqüilidade, me ajudam tão generosamente; temo que lhes aconteça alguma coisa. Fico na expectativa e só me sinto aliviado quando vejo o coquinho. Se ele veio, é sinal de que tudo vai bem para eles.
Lentamente, bem lentamente, vão passando as horas, os dias, as semanas, os meses. Há quase um ano que estou aqui. Há exatamente onze meses e vinte dias que não converso com ninguém, a não ser algumas palavras trocadas às pressas, mais murmuradas do que articuladas, em menos de quarenta segundos. Porém tive uma oportunidade de trocar palavras em voz alta. Eu tinha pegado um resfriado e tossia muito. Pensando que isso justificaria uma saída do cubículo para ir ao médico, solicitei a medida.
Chega o médico. Para meu grande espanto, abre-se a janelinha da porta e através dela aparece uma cabeça.
– Que é que você tem? Está doente? É uma bronquite? Vire-se. Tussa.
Essa, não! É uma piada? No entanto, é a pura verdade. Havia um médico da colônia disposto a me examinar através de um visor de porta, fazendo com que eu me virasse a 1 metro de distância, para que ele, com a orelha no visor, me auscultasse. Depois, ele me disse: “Ponha o braço para fora”. Maquinalmente, eu ia pôr, quando, por uma espécie de respeito próprio, digo a esse estranho médico: “Obrigado, doutor. Não precisa se incomodar tanto. Não vale a pena”. Pelo menos tive a força de caráter necessária para fazê-lo compreender que eu não levava seu exame a sério.
– Como quiser – teve o cinismo de me responder. E partiu. Felizmente, pois eu estava prestes a explodir de indignação.
Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Caminho, caminho, incansavelmente, sem parar, hoje caminho com raiva, minhas pernas estão tensas, não estão relaxadas como de hábito. Depois do que acaba de acontecer, dir-se-ia que eu tenho necessidade de chutar alguma coisa. Que posso chutar? Sob os meus pés só tem cimento. Mas» chuto muita coisa, enquanto faço a minha caminhada. Chuto a tibieza desse papalvo que, pelas boas graças da administração, se presta a fazer coisas tão deploráveis. Chuto a indiferença de uma classe de homens em face do sofrimento e da dor de outra classe de homens. Chuto a ignorância do povo francês, sua falta de interesse ou de curiosidade por saber para onde vão e como são tratados os homens que constituem a carga embarcada a cada dois anos em Saint-Martin-de-Ré. Chuto os jornalistas dos assuntos policiais que, ante determinado crime, escrevem artigos escandalosos sobre um homem e meses depois já nem sequer se lembram de que ele existe. Chuto os padres católicos que ouviram confissões, sabem o que se passa nas prisões francesas do exterior e se calam. Chuto o sistema processual que se transforma em competição oratória entre quem acusa e quem defende. Chuto a Liga dos Direitos do Homem e do Cidadão, cuja organização não ergue a voz para dizer: “Parem com essa guilhotina branca, suprimam o sadismo coletivo que existe nos empregados da administração”. Chuto todas as organizações ou associações que nunca interrogam os responsáveis por esse sistema para lhes perguntar como e por que, no caminho da podridão, desaparecem em cada dois anos 80 por cento dos que o povoam. Chuto os atestados de óbito da medicina oficiaclass="underline" suicídios, miséria psicológica, morte por subalimentação contínua, escorbuto, tuberculose, loucura furiosa, senilidade precoce. Que tenho, ainda, para chutar? De qualquer maneira, depois do que acaba de acontecer, não estou em condições de caminhar normalmente: a cada passo meu, parece que estou esmagando alguma coisa.
Um, dois três, quatro, cinco… Transcorrendo lentamente, as horas aplacam pela fadiga minha revolta muda.
Mais dez dias e terei cumprido exatamente a metade da minha pena de reclusão. Na verdade, é um belo aniversário a ser festejado, pois, descontada essa gripe forte, estou com boa saúde. Não estou maluco e nem em vias de enlouquecer. Estou seguro, cem por cento seguro de que sairei vivo e equilibrado do ano que vai começar agora.
Acordo ouvindo vozes abafadas. Escuto:
– Ele está inteiramente duro, Sr. Durand. Como foi que o senhor não percebeu antes?
– Não sei, chefe. Como ele ficou pendurado no canto da barra da janelinha que dá para a passarela, passei por ali várias vezes sem ver a coisa.
– Não tem importância. Mas o senhor deve reconhecer que é ilógico o fato de não ter notado.
Meu vizinho da esquerda se suicidou, é o que eu percebo. Retiram-no. A porta se fecha. Cumpriram o regulamento com todo o rigor, pois a porta se abriu a se fechou na presença de uma “autoridade superior”, o comandante da reclusão, cuja voz pude reconhecer. É o quinto que desaparece à minha volta nestas últimas dez semanas.
Chega o dia do aniversário. Na bacia vem uma lata de leite condensado Nestlé. É uma loucura dos meus amigos. Deve ter custado caríssimo e há de ter acarretado riscos graves para me chegar às mãos. Tive um dia de vitória sobre a adversidade. Prometi então a mim mesmo que não decolaria para outras paragens. Estou aqui, na reclusão. Já passou um ano desde que cheguei e me sinto capaz de empreender a fuga amanhã mesmo, se tiver oportunidade. É uma constatação positiva e me sinto orgulhoso de fazê-la.
Pelo varredor da tarde – coisa inusitada – chega um bilhete dos meus amigos: “Coragem. Só te resta um ano por cumprir. Sabemos que estás bem de saúde. Nós estamos bem, normalmente, e te abraçamos. Louis – Ignace. Se puderes, manda imediatamente algumas palavras pelo portador de agora”.
No pequeno papel branco que veio junto com o bilhete, escrevo: “Obrigado por tudo. Estou forte e espero continuar bem graças a vocês, dentro de um ano. Podem me mandar notícias de Clousiot e Maturette?” De fato, o varredor volta e arranha a minha porta. Passo-lhe o papel, que desaparece logo. Durante todo esse dia e parte da noite, permaneço com os pés em terra firme, na situação em que várias vezes já tinha prometido a mim mesmo que iria permanecer. Dentro de um ano, serei mandado para uma das ilhas. Royale ou Saint-Joseph? Vou me embriagar de fumo e de conversa e logo tratar de combinar a próxima fuga.
Com confiança no meu destino, enfrento a manhã do primeiro desses 365 dias que me restam por fazer. Tinha razão de estar confiante, no que se refere aos oito meses que se seguiram. No nono mês, entretanto, as coisas se estragaram. De manhã, na hora da limpeza das bacias, o entregador foi surpreendido com a mão na massa, no momento em que me passava a bacia na qual pusera o coquinho e os cinco cigarros.