Sentira (e ainda sente ao recordar a cena) o sangue subir-lhe ao rosto, de raiva e vergonha, quando vira ser hasteada no castelo do baluarte a bandeira turca, embora não pudesse saber, naquele momento, que quatrocentos janízaros, cobiçosos do saque, desrespeitando as tréguas, tinham subido por escadas de madeira e pelos escombros dos muros caídos, para tomarem posse do baluarte, derrubando logo as bandeiras portuguesas com a cruz de Cristo, para hastearem a vermelha com as insígnias do grão-turco.
Vira as lágrimas correrem pelos rostos dos defensores da fortaleza, homens e mulheres, que das trinchas dos muros observavam com ele o sinal da capitulação. Fora como se aquelas lágrimas, todavia invisíveis aos que se rendiam, houvessem dado rebate ao velho João Pires que, escandalizado de ver a bandeira lançada ao chão, ajudado por outros cinco homens, arreara a turca, lançando-a para fora do baluarte, e levantara de novo a portuguesa. Na fortaleza, embora não pudessem ver o que se passava, haviam saudado o subir do estandarte de Cristo com muitos gritos, aplausos e encorajamentos, que esmoreceram ao vê-lo de pronto substituído pelo do Crescente. Por três vezes se repetira aquele jogo, até que os portugueses foram mortos e os turcos, enraivecidos pelo confronto, cortaram-lhes as cabeças, lançando os corpos da torre para o mar.
No mesmo instante em que os corpos entraram na água, sendo maré cheia, por estranho acaso, o mar pareceu refrear o seu curso. Em vez de subir baixou, trazendo-os em contracorrente até à porta da couraça, na fortaleza, onde os mandara recolher e levar à igreja, em solene cortejo, como mártires. Por virem descabeçados, fizera-os expor em caixões, com guarda de honra, a fim de serem reconhecidos de amigos ou parentes por alguns sinais que tivessem. Toda a gente da fortaleza os viera ver, para lhes prestar homenagem.
Estava presente quando Bárbara Fernandes passara diante dos ataúdes. Ouvira o gemido, logo sufocado, que ela soltara ao ver o terceiro corpo. É o meu filho! Reconhecê-lo-ia entre mil!, bradara para os que estavam junto dela, A sua voz não tremera, antes soara vibrante como se o orgulho pela bravura do filho lhe sustivesse o ânimo, mitigando a dor da sua perda. Apesar de moço, Luís preferira morrer a render-se. António da Silveira acercara-se de Bárbara que se mantinha muito direita, sem lágrimas, mas de mãos enclavinhadas na borda do ataúde. Tomara-lhe a mão direita, enfarruscada e calejada pelo trabalho, beijando-lha com a mesma devoção e acatamento que faria à rainha de Portugal. A mulher soltara então o seu pranto e o capitão de Diu apertara-a nos braços, com a mesma ternura dos filhos que perdera.
Os seis mártires foram enterrados todos juntos na mesma sepultura diante do altar-mor. Naquela noite, Bárbara vira cinco estrelas a cintilar, como um clarão de fogo, sobre o baluarte em que o filho morrera com os seus companheiros de martírio, e dera rebate para que todos testemunhassem o sinal milagroso de que Deus os recebera no Paraíso.
61 Saudação.
62 Escorbuto.
63 Capacetes, cascos.
IX
Os homens são alcatruzes do mundo: pelos sãos vem a ordem e pelos quebrados se vai a virtude
(português)
Carta do Governador Nuno da Cunha ao Vizo-Rei D. Garcia de Noronha:
Senhor, ainda que [Vossa Senhoria] se faça prestes com tanta pressa quanto pode, vejo eu lançar mão de tantos navios, que serão causa de tardardes muito, e também de espalhardes a gente, artilharia e munições, donde ficareis mais fraco. E parece-me a mi, que se poderão escolher entre todas estas velas oitenta mui boas, que para cinco mil homens, que V. S. poderá levar, esta Armada bastava, porque iria ela mui cheia de gente e mui bem aparelhada para tudo o que cumprisse. E eu sei, segundo as novas dos que vêem a vossa Armada, de quão mal aparelhada ela está.
Se V. S. tão cedo não pode ir, por alguns negócios ou impedimentos que terá, pode tomar quinze ou vinte fustas e catures, com um homem principal que vá neles por Capitão e capitães para os outros navios, entre homens que saibam da guerra e valentes cavaleiros que aqui há, com muitas panelas de pólvora e espingardas, não duvido eu que, indo estes navios, que podem levar trezentos ou quatrocentos homens, que dando nas galés [dos Rumes] de noite ou antemanhã, que lhes não fiquem meia dúzia nas mãos, tomadas ou queimadas. E assi podem ir em companhia destes, três ou quatro fustas grandes de chatins64, carregadas de biscouto e pólvora, para que em estes dando, na volta possam estas passar, e entrar em Diu, e dar-lhes o que levarem. Esta gente e Armada não desfaz na vossa, porque lá a tem diante e estão prestes. Este, Senhor, é o meu parecer, que V. S. quis que lhe desse por escrito.
Goa, aos quinze dias de Outubro, do ano de mil quinhentos e trinta e oito
Tal como António da Silveira previra, rendido o baluarte, os rumes faltaram à palavra dada. Em vez de deixarem ir os portugueses em liberdade para a fortaleza, levaram-nos em almadias, desarmados e debaixo de escolta, a Soleimão Baxá que os dera aos seus capitães para escravos remeiros das galés. O capado não lhe perdoara a afronta da sua carta e vingara-se em Francisco Pacheco e nos sessenta cativos, cortando-lhes os narizes e as orelhas que mandou salgar para enviar ao grão-turco, como prova do seu bom desempenho naquela conquista. Assim lho fizera saber por mensageiro, para atemorizar os sitiados.
A partir daí fora o jogo do rato e do gato. Se os turcos davam bateria a um baluarte, ele mandava fazer outro por trás do antigo, de modo que, quando este ruía, já o novo estava de pé a impedir-lhes a entrada; os mouros de Coja Çofar vinham picar os muros ou cavar minas por baixo da fortaleza, Lopo de Sousa Coutinho ou Manuel de Vasconcelos, mal os sentiam, acudiam com os seus homens à cava, com contraminas, a rebatê-los com piques e espadas; se os rumes vinham de noite com escadas para escalar as fortificações, eram recebidos com panelas de pólvora e óleo a arder que os abrasavam.
Como os portugueses matavam muitos dos que vinham picar os muros, os turcos fizeram umas grandes balas de algodão – fardos forrados de couro – e uns cavalos de madeira com rodas, igualmente acobertados de couro, com seteiras dos lados, para se acercarem da cava da fortaleza e do baluarte de S. Tomé, a fim de derrubarem os muros. Iam assim tão protegidos que os sitiados nem os viam, no entanto, da fortaleza lançavam-lhes lenha a arder, ola acesa com manteiga e outras invenções de fogo e pólvora, que queimavam muitos cavalos sem, todavia, atingirem as grandes balas de couro que estavam junto do fosso da muralha, a servir-lhes de tranqueiras onde se recolhiam.
António da Silveira mandou então Gaspar de Sousa esconder-se na cava com oitenta homens durante a noite, para de manhã as destruírem com materiais que levavam. O que ele fez, pondo-lhes fogo e matando mais de cinquenta inimigos, antes de ser morto com outros cinco homens, durante a retirada, apesar da protecção dos que faziam fogo da fortaleza. Sousa mandara recolher os seus homens e voltara para trás a buscar três soldados gentios que se tinham atrasado. Rodeado por uma vaga de inimigos, recusara-se a fugir, fazendo grande destruição nos que o atacavam, até lhe jarretearem as pernas e cair morto, arrancando lágrimas de dor aos que na fortaleza tentavam ajudá-lo com tiros de mosquete e besta.
O capitão sentia-se responsável por cada morte, embora desse o exemplo, pondo-se sempre nos lugares de maior perigo ou de vela, dormindo apenas por breves intervalos de tempo, quando a artilharia se calava. Vira morrer demasiada gente de grande valor, como Tristão Gomes, o bombardeiro que fugira da armada do capado para lhe vir dar aviso da sua vinda, acabando por tombar numa tranqueira inimiga. Os feridos e queimados não cessavam de crescer, jazendo pelo chão entre os escombros, sendo os mais graves recolhidos na única casa que se mantinha de pé, a do físico Fernão Lourenço e de sua esposa Ana Fernandes que lhe servia de enfermeira.