Çofar forjara aquela carta para assustar Soleimão Baxá e lograra o seu intento, porque o capado começara a preparar a sua retirada. Deste modo, a fortaleza que estava quase totalmente destruída, seria conquistada pelos seus homens, sem recurso ao exército de Alucão, um feito que lhe haveria de trazer de novo o favor d’el-rei de Cambaia e da rainha sua avó, que ele havia perdido quando se aliara aos portugueses, depois da morte de Bahadur, aceitando o governo da cidade de Diu.
As galés a remos da armada do capado passaram além do baluarte do mar e foram surgir com as proas viradas para terra, no lugar onde costumavam fazer aguada. A pequena frota de António da Silva, que aguardava uma ocasião de furar o cerco e entrar em Diu, descarregou as suas baterias sobre os primeiros navios. O alarme soou na fortaleza e os sitiados, como não podiam saber de quem eram os tiros, creram que os turcos se preparavam para desembarcar toda a sua gente, a fim de os virem acometer num decisivo combate. António da Silveira sentiu o desespero dos seus homens e, chegando-se ao baluarte onde havia maior ajuntamento, falou-lhes com alegria:
– Senhores, espanta-me ver-vos tristes, quando Deus nos mostra a Sua estima, porque, sendo nós tão poucos, numa fortaleza com tantas portas abertas, as temos defendido contra uma multidão de inimigos que a cada assalto vieram com forças dobradas e nós levámos cada vez menos tempo a malferi-los e desbaratá-los! Com que coração, pois, nos virão ora acometer? Se Nosso Senhor nos quiser levar para Si, morreremos mártires por sua santa fé, ganhando fama por combatermos pela nossa Lei e o nosso rei. Rogo-vos que não mostreis tristeza, mas alegria, cantando, gritando, apupando os nossos inimigos, para que cuidem no mal que os espera.
O capitão parecia inspirado por uma força misteriosa que não o deixava desanimar, nem mesmo nos momentos de maior perigo ou nas situações mais desesperadas, em que era sempre o primeiro a enfrentar os adversários, acorrendo a todos os combates, sem um momento de repouso. Foi com ânimo novo que os homens se prepararam para a batalha final e para a morte, pois não seria possível resistir ao poder dos rumes e dos mouros.
Envergaram os melhores trajos que tinham, ouviram missa na igreja em ruínas, confessaram-se, comungaram e fizeram voto de castidade. As mulheres vestiram as couraças e os capacetes dos soldados mortos, armaram-se de lanças e piques, indo juntar-se aos homens nos postos de batalha. António da Silveira mandou pôr muitas bandeiras por todas as estâncias e fez tanger uma grande matinada de trombetas, pífaros e tambores, como em dia de vitória.
Quando o eclipse lançou o seu negrume sobre a terra e o mar, rumes e mouros estremeceram de pavor, lembrando-se de uma antiga profecia: a fortaleza de Diu parecia erguer-se das suas ruínas, avantajando-se como um castelo de sombras pronto a engolir os que ousavam acometê-la.
64 Mercadores.
65 Diogo de Couto, Década Quinta da Ásia.
GOA
Carta de Afonso d’Albuquerque a el-Rei D. Manueclass="underline"
Na tomada de Goa e desbarato de suas estâncias e entrada da fortaleza Nosso Senhor fez muito por nós, porque quis que acabássemos um feito tão grande e melhor do que nós poderíamos pedir; ali faleceram passante de trezentos turcos
Depois queimei a cidade e trouxe tudo à espada, e por quatro dias continuadamente a vossa gente fez sangue neles; por onde quer que os podíamos achar, não se dava vida a nenhum mouro, e enchiam as mesquitas deles e punham-lhes fogo: aos lavradores da terra e brâmanes mandei que não matassem. Achámos por conta serem mortas seis mil almas, mouros e mouras, e dos seus peões archeiros, muitos deles faleceram: foi, Senhor, um feito mui grande, bem pelejado e bem acabado, e afora ser Goa uma tão grande cousa e tão principal, ainda se cá não tomou vingança da traição e maldade que os mouros fizessem a Vossa Alteza e a vossas gentes, senão este, o qual soará em toda a parte, e com este temor e espanto fará vir grandes cousas à vossa obediência, sem as conquistardes.
Alguns gentios, homens principais, a que os turcos têm tomado suas terras, sabendo a destruição de Goa, desceram da serra onde estão recolhidos, e vieram em minha ajuda e tomaram os passos e caminhos, e todos os mouros que escaparam de Goa trouxeram à espada, e não deram vida a nenhuma criatura. Roubaram grande haver, porque tomaram todo o dinheiro do pagamento dos soldos que escapou de Goa; nenhuma sepultura nem edifício de mouros não deixo em pé; os que agora tomo vivos mando-os assar: tomaram aqui um arrenegado, e mandei-o queimar.
Goa aos 22 dias de Dezembro de 1510
X
Três coisas são inconstantes: a mulher, o vento e a riqueza
(hindu)
Artigo XXXV, que fala da gente deste reino e de seu sofrimento.
As gentes deste reino de Goa por nenhum tormento não confessarão cousa que façam. Sofrem grandemente e soem ser atormentados de diversos tormentos. Antes morrem que confessar o que determinam calar. E as mulheres de Goa são generosas no vestir, as que dançam e volteiam o fazem com melhor maneira que todalas destas partes. E costuma-se neste reino toda mulher de gentio queimar-se por morte de seu marido. Entre si têm todos isto em preço; os parentes dela ficam desonrados quando se não querem queimar. As que de má mente recebem o sacrifício ou se não querem queimar ficam públicas fornicárias e ganham para as despesas e fábricas dos templos donde são freguesas, no qual ofício morrem. Estes gentios têm uma só mulher por ordenança, e muitos brâmanes prometem castidade e sustêm-na sempre. Nos outros portos de Goa se carrega muito arroz, sal, bétele, areca. E todolos rios têm povoações arredadas d’água, com temor, e os que desta são seguros navegam e os que não, perdem-se e estão da mão do Sabaio, com capitães que recolhem as rendas da terra. E deles põem gente de guarnição de cavalo, porque têm continuamente guerra com as terras de Narsinga66.
(Suma Oriental, de Tomé Pires)
Foi no dia vinte e cinco de Novembro, do ano de mil quinhentos e dez, dia de Santa Catarina, que Afonso de Albuquerque, com a ajuda do corsário Timoja, tomou Goa pela segunda vez às forças de Hidalcão. Cobiçara-a desde o momento em que a vira, por ser bem construída, fortificada e se achar em lugar privilegiado das derrotas comerciais. As muralhas antigas não são muito altas, mas estão rodeadas por uma profunda cava e a ilha tem outros lugares fortes, como um castelo em Bardês, junto da embocadura do rio, que a protege dos inimigos de terra firme.
A cidade e os seus populosos arrabaldes ocupam a ilha de Goa, separada de terra firme apenas por um braço de mar; o rio Mandovi, com mais de três léguas de extensão, entra do lado norte da cidade, contorna a ilha, em forma de meia-lua, indo desaguar no braço de mar a sul. Na posse dos portugueses, depressa substituiu Cochim, enquanto entreposto de todas as mercadorias e produtos do Oriente, tornando-se numa grandiosa metrópole, capital do Senhorio da Índia portuguesa, residência dos vizo-reis, governadores, arcebispos e conselheiros, assento da chancelaria régia, o coração do seu império.
Dos arrabaldes acede-se à cidade pela porta dupla da muralha, chamada dos Bacais ou negociantes de cereais, no lugar da igreja de Nossa Senhora da Serra; outro dos acessos principais é o portão que leva à grandiosa praça com o seu tanque de cantaria e ao palácio do Sabaio Adil Sh-ah, com os seus magníficos salões e largos alpendres com colunas de madeira lavrada. Fernão gosta desta Goa Dourada, de ruas alinhadas com graciosas casas ao modo português – de um só sobrado por causa do calor, com jardins e pomares nas traseiras –, edifícios majestosos, formosas praças, belas tapadas de palmares, cobrindo várias colinas e vales. O porto é excelente, com o mercado, os edifícios da alfândega e do arsenal a darem os nomes às duas principais portas da muralha. É aqui que ele mais gosta de estar, a ver o movimento dos barcos e das gentes que chegam ou partem à aventura.