A cidade é um caldo de desvairadas raças, que lhe trazem à memória imagens de Lisboa, dos seus passeios pelo Rossio, Terreiro do Paço ou Ribeira, em que se cruzava com bandos de mercadores, séquitos de embaixadores e visitantes de muitos mundos. Aqui, são os portugueses a gente mais estranha entre gentios oriundos de vários reinos da Índia, assim como negros de remotos lugares de África, mouros, judeus, arménios, chins, jaus e muitos outros de que não saberia dizer a proveniência, quanto mais a religião, a seita ou o credo que professam aqui com toda a liberdade.
Hoje a azáfama parece maior, com magotes de povo a confluirem para o rio e, sem todavia lhe entender a causa, sente uma agitação no ar, como em ocasião de festa. Apesar da sua curiosidade, teme meter-se em grandes ajuntamentos, pois saíra há dois dias do hospital e, embora estivesse curado dos ferimentos que o tinham deixado às portas da morte, sofria ainda de vagados e fraqueza no corpo.
Ao cabo de mais de ano e meio no Oriente – e de algumas viagens em que sofrera perigos terríveis, duros trabalhos, ferimentos graves e até a escravidão –, achava-se pior do que quando chegara, feito um desgraçado sem eira nem beira, de bolsa vazia, igual a tantos outros enjeitados da sorte que enxameavam a Índia, vivendo da caridade alheia. Até parecia uma maldição, como se os Fados gostassem de se divertir à sua custa, alimentando-lhe os sonhos e a ambição com miragens de fortuna, para de seguida lhe encherem o caminho de obstáculos, empurrando-o para novos perigos ou desgraças. Tão cedo não poderia chamar para junto de si os irmãos Álvaro e António, conforme lhes prometera, a fim de criarem um negócio de família.
Brados e correrias do rapazio que enxameia o porto fazem-no virar a cabeça para ver a causa do reboliço. É o cortejo de um criminoso que vai ser justiçado e Fernão estranha que o castigo lhe seja dado no rio em vez de no pelourinho da cidade, a menos que a pena seja de morte por afogamento ou estraçalhado pelos crocodilos que infestam o rio.
O meirinho, seguido pelo escrivão, traz uma escolta de oito homens de chuças e quatro de espadas, como se receasse algum tumulto. Avançam, abrindo alas por entre a multidão que os rodeia, movida pela curiosidade, apertando-os e dificultando-lhes o passo, por isso, Fernão, de onde está, não consegue ver o criminoso. Fecha o cortejo uma pequena carroça coberta, seguida por um magote de mulheres gentias, umas trajadas à portuguesa, outras ao modo das suas terras, servas, escravas, mas também vendedeiras, aguadeiras e obreiras de vários mesteres. Os mariolas67 e o rapazio do porto juntam-se-lhes, numa grande surriada ao preso.
– Caso novo, nunca acontecido depois que se descobriu a Índia!
– Merece castigo exemplar, para meter medo a quem quiser fazer o mesmo. Não ides ver?
São dois portugueses, oficiais do porto e Fernão reconhece o que o interpela, por já o ter visto no hospital a tratar-se do mal de Vénus.
– Sim, se permitis que vos acompanhe – diz, levantando-se do caixote para os seguir. – O condenado é português? Que crime cometeu?
O cortejo acerca-se, fazendo afastar a multidão para ambos os lados, no movimento da onda que faz um navio impelido pelo vento. Os gritos e apupos impedem-no de ouvir a resposta do seu interlocutor, por isso solta uma exclamação de espanto ao ver que o criminoso é uma mulher gentia, de idade madura, conquanto formosa e de bom corpo. Trajada ao modo de Portugal, avança entre dois guardas, com algum esforço devido ao colar e corrente de ferro que lhe tolhe os passos, sem todavia parecer assustada nem arrependida, antes vai de cabeça erguida com um sorriso nos lábios, desafiador, sem se desviar das pedras nem das pancadas com que os mais atrevidos, furando por entre os guardas, logram atingi-la.
– Puta assassina, vais morrer como perra infiel que és.
– À fogueira! Queimai a renegada!
– Adúltera. Barregã do demo.
– Em Goa, os gentios são julgados e condenados pela nossa justiça e não pela do seu povo? – estranha Fernão, ofegante, estugando o passo para acompanhar os dois homens que se juntam à cauda da procissão que engrossa, à medida que se aproximam do cais. Insiste: – Sabeis que crime cometeu a mulher?
Sabem e contam-lhe a história.
A mulher era uma canarim cristã, casada com um português estabelecido em Goa. Contudo, nem o baptismo nem os ensinamentos da Santa Madre Igreja têm poder para contrariar a natureza das filhas destas terras, que são luxuriosas, salazes em extremo, devido à quentura do clima, aos comeres adubados com muitas especiarias quentes como as pimentas, além do bétele que mascam continuamente com uma calda de areca e cal, que lhes faz a língua vermelha e os dentes pretos, mas lhes acrescenta de sobremaneira a volúpia.
Portanto, muitas destas casadas cristãs continuam a praticar os costumes gentios, embora em segredo, mantendo além do marido um ou dois amantes para se satisfazerem. Nem a certeza de que, se cometerem adultério, os maridos as podem matar impunemente, para vingarem a desonra, lhes causa temor ou as tolhe de o fazerem, pois juram que não há melhor, nem mais honrada morte do que morrer sacrificada ao amor. Assim pensava esta canarim, cuja luxúria a levou ao crime, causando a sua perda.
Na Relação nem fora preciso dar-lhe tratos para lhe arrancar a confissão, respondera de bom grado às perguntas, contando todo o malefício que urdira, com tamanha desfaçatez e sem-remorso que escandalizara os inquiridores do processo. O marido não a tratava mal, afirmara, disso não havia que reclamar, mas há muito que fornicava as escravas, o que de início não lhe causara desgosto, por ser a conversação com mais de um parceiro coisa natural e sã, desde que continuasse a folgar e dormir com a esposa, porém, ele deixara de fazer caso dela.
À mingua de carinho, sendo de natureza ardente, buscara consolação no moço canarim que prestava serviço em sua casa. Temendo que as escravas a denunciassem e o marido matasse o amante tão caro ao seu coração (a própria morte não lhe metia medo, o perigo tornava-a ainda mais ardente, fazendo do adultério uma paixão mais nobre), decidira livrar-se do esposo. Acrescentara, para maior escândalo do juiz, que as leis portuguesas foram uma das razões que a levaram ao crime, por serem muito mais benéficas para as mulheres viúvas do que as leis gentias, pois não só lhes permitiam herdar os bens do marido como as deixavam livres para se casarem de novo, em vez de serem queimadas vivas juntamente com o morto.
Induzira o esposo a ir com o canarim, à terra firme, cortar lenha para vender. Dera instruções ao amante de como haveria de matar o amo, no mato, para que o corpo não fosse encontrado, prometendo casar com ele se lhe trouxesse uma prova da sua morte. Sem suspeitar da cilada, o marido fora sozinho com ele para os bosques, onde trabalhara toda a manhã no corte das árvores e, depois de comerem, deitara-se numa manta a fazer a sesta. Quando o vira ferrado no sono, o criado desferira-lhe um grande golpe na cabeça com o machado e vários no corpo, matando-o. Seguindo as instruções que a amante lhe dera, despira-o e queimara as roupas na fogueira em que fizera a comida, para que não o reconhecessem, guardando apenas a camisa ensanguentada como prova do seu feito.
O canarim confessara ao juiz que, quando a mulher vira a camisa, se alegrara muito com a certeza da morte do esposo e, depois de a queimar, fizera uma ceia ao modo de festa, levara-o para o natatório onde o lavara e perfumara, como se fora a primeira noite do seu casamento. Cearam ambos, folgando com muitos prazeres, em que ela era muito imaginosa; ardente de paixão, fizera-o repetir os pormenores da matança, beijando-o muito, dizendo-lhe que ele tinha vingado o seu coração.