– Entreguei-as aos mestres, aos pilotos e a outros homens, como alvíssaras pela conquista, dado que não lhes permitimos o saque da cidade. Muitas delas já são cristãs.
– Vai buscá-las a todas e traz-mas aqui – ordenara-lhe.
De seguida fora queixar-se aos fidalgos e aos clérigos, recriminando-os por nada lhe terem dito sobre a presença das mouras nas naus.
– Senhor governador – respondera-lhe frei Domingos de Sousa, vigário da sua capitânia, em tom prazenteiro –, asseguro-vos que nesta armada nunca um cristão se tornou mouro por querer bem a uma moura, mas elas que se fizeram cristãs por amor aos portugueses, que as tratam muito melhor que os da sua Lei. Se os homens pecaram com elas, ao fazê-las cristãs, ficaram com os pecados perdoados, por ganharem uma alma para Deus.
Quase se arrependera da ordem que dera a Timoja, quando ele lhe trouxe um enxame de mulheres, das quais só uma centena das mais formosas, por serem mais honradas ou principais, se havia recusado a renegar a sua religião. Resolvera parte da delicada situação, dando alforria a todas as cativas que se tinham tornado cristãs, a quem mandara escrever os seus nomes e os dos homens com quem viviam, para se saber que não eram escravas, mas suas protegidas, seguras de que ele pediria contas aos seus companheiros, se fossem maltratadas.
Muitos dos matalotes e soldados que amavam verdadeiramente estas mulheres, mal ouviram dizer que tinham de as entregar ao governador, temendo perdê-las, apressaram-se a casar com elas, vindo pedir-lhe as esposas, com muitas lágrimas. Certificara-se de que não se tratava de manhas para terem uma escrava, fazendo com que, diante dele, as recebessem de novo por esposas.
– Ora, senhor governador, receberem por duas vezes o sacramento?! – escandalizara-se o vigário. – Um tal matrimónio não é mandamento da Igreja.
– Serão então casados segundo o mandamento d’Afonso de Albuquerque – atalhara risonho, mas num tom que não admitia qualquer recusa.
Quanto às mouras que recusaram a conversão, mandara levá-las à sua nau, alojando-as na câmara do leme, que à pressa fizera alargar e fechar de todos os lados, onde dispunham de uma varanda de mar para poderem tomar ar e fazerem as suas necessidades. Por temer abusos e desobediências daqueles a quem estas mulheres tinha sido tomadas, metera dentro do indesejado harém, para sua guarda, o eunuco Cojambar que ele cativara em Ormuz e lhe era muito fiel. Era ele que vinha receber a comida para as mulheres, entregue por um pequeno postigo feito para esse propósito.
Pelos seus espias soubera que, em todos os navios da armada, estes homens ressabiados o maldiziam, levantando-lhe falsos testemunhos e acusando-o de lhes ter tomado as mouras às revoadas, não para as casar como dizia, mas para dormir e pecar com elas. Os piores eram o cavaleiro Rui Dias, que morria de amores pela sua cativa, e os seus amigos Francisco de Sá , Simão de Andrade e Jorge Fogaça, contudo, não julgara possível que se atrevessem a desrespeitá-lo na sua própria nau.
– Não foi esta a primeira noite, meu senhor – dissera-lhe o capado, em segredo. – São quatro homens que vêm dormir com as mulheres.
– Quem são eles?
– Não os conheço, meu senhor, não são desta tua nau.
Do mal o menos, que não eram os seus homens! Seriam seguramente os que lhe mordiam a honra e lhe lançavam lama. Embora fremindo de ira, não se precipitara a anunciar castigo aos rufiões, pois queria apanhá-los com a boca na botija e fazer deles um exemplo de justiça.
– Se os sentires de novo, não deixes que se apercebam de que os vistes, nem faças nada. Não fales disto a ninguém e, se vierem, só a mim o dirás.
Vieram, e ele mandara o seu contramestre pôr-se num batel com oito grumetes de vigia à popa da nau, com o pretexto de impedir que os homens, pelos trabalhos e fome que passavam na armada, desertassem para os mouros.
– Ora, se algum homem entrar ou sair da varanda das mulheres, deveis fingir que dormis, porque não quero escândalo público, mas procurai vê-lo bem, para o poderdes reconhecer mais tarde.
Nessa noite a lua parecia uma luminária redonda pendurada no céu, contudo o perigo acirrava os ardores de Rui Dias, dando-lhe ainda maiores ganas de desafiar o tirânico governador, que se arrogara o direito de lhe roubar os despojos da conquista, ganhos com tanto esforço pela sua espada. Não podia casar-se com uma moura, por não lho permitirem os deveres para com a sua família, e Afonso de Albuquerque não lha entregaria de outro modo. Nem todos os esquifes da armada, porém, lograriam impedi-lo de ver Nazima, de lhe beijar os lábios macios que se lhe entregavam com o prazer da saudade, de lhe acariciar o corpo voluptuoso e esbelto de ânfora, arrancando-lhe suspiros e gemidos que ela afogava na garganta, premindo a sua boca contra o peito dele, para não serem ouvidos pelo capado. Moura encantada, que o enfeitiçara, a ponto de já nenhuma coisa fazer sentido ou ter sabor, além do gosto da sua boca, do aroma do seu corpo, do brilho dos seus olhos cujo negrume era apenas igualado ao da longa cabeleira acetinada. Tinha-a encastoada na sua pele, como o rubi sangrento no punho da sua espada.
– És louco! – bradou-lhe Jorge Fogaça, capitão da nau Flor da Rosa, a mais próxima da capitânia. – Com esta lua, os que estão à espreita no esquife de certeza te hão-de ver. Se fores apanhado ou tão-só reconhecido, Albuquerque não deixará a tua desobediência sem castigo, desejoso como anda de se vingar de nós.
O batel vigilante mostrara aos quatro amantes que o governador já tinha conhecimento das suas visitas ao harém das mouras, o que, sem lhes esfriar a paixão, lhes refreara os ânimos de arrostarem com a ira do Terríbil, levando-os a desistir das visitas ao ninho das suas amadas. Menos Rui Dias que, pelo contrário, redobrara de ardume e impetuosidade.
– Irei a nado, ninguém me verá – retorquiu teimoso. – Desta tua nau até à capitaina é um passeio. – Acrescentou, a modo de desculpa: – Morro de saudade de Nazima, Jorge, não vou passar outra noite sem a ver. Ela está à minha espera.
– Ainda me metes em trabalhos. – disse-lhe o capitão, resignado.
Lançou-se à água e nadou silenciosamente em direcção à proa do navio do governador. Da banda da popa, podia ver com toda a clareza o esquife com os seus oito remadores e o timoneiro, iluminados pelo luar. Os homens permaneciam imóveis, dormindo.
Tocou no casco, colando-se ao madeirame, seguiu lentamente até ao leme, por onde subiu, furtivo como um ladrão; chegado ao cimo, ergueu a tábua levadiça muito sua conhecida por onde passou e, saltando para dentro da varanda, penetrou na câmara seguro de encontrar Nazima à sua espera. Se aquele amor era pecaminoso, ele era sem dúvida um pecador impenitente, disposto a pagar com o inferno na outra vida o paraíso que achara na terra.
Afonso de Albuquerque viu que todos os que havia sido convocados estavam a postos, esperando as suas ordens: na água o batel com o mestre e os marinheiros, na tolda Duarte de Sousa com os principais fidalgos da sua companhia, armados para o combate, se necessário fosse. Do chapitéu da nau, podia ver tudo o que se passava na Flor da Rosa, onde o esquife com o meirinho Fernão de Lis e os seus oito alabardeiros acabava de acostar.
Na devassa que fizera com o secretário Lourenço de Paiva, o ouvidor Pêro de Alpoim apurara que o visitante nocturno das mouras, denunciado pelo contramestre, fora Rui Dias. Albuquerque ficara muito anojado por não poder castigar também os seus companheiros de aventuras, mas, como ninguém os vira entrar na câmara, os três rufiões tinham sido ilibados. A sentença fora lavrada nos autos, com o seguinte pregão:
Justiça que manda fazer el-rei nosso senhor, por sentença do governador, em Rui Dias, por delito de pecado de dormir com moura, cometido na nau capitânia, com atrevimento atraiçoado, manda que morra na forca de morte natural para sempre.