O meirinho levava ordens para prender Rui Dias e enforcá-lo de imediato num mastro da Flor da Rosa. Bastante apreensivo com aquela incumbência, Fernão de Lis subiu a bordo com os alabardeiros e os quatro peões que levava por carrascos. Viu Rui Dias na tolda a jogar às távolas com o capitão Jorge Fogaça.
– Estai preso da parte d’el-rei! – ordenou-lhe, agarrando-o por um braço.
O peão cafre atou-lhe de imediato um palanco ao pescoço e os outros três guindaram-no ao mastro, onde morreu enforcado. O acto, de tão inesperado e rápido, deixou toda a gente petrificada de espanto, sem que ninguém esboçasse sequer um gesto para os deter. Porém, vendo Rui Dias a estrebuchar pendurado na verga, o capitão Fogaça desembainhou a espada e correu para lhe cortar o cabo. Foi o sinal para que os da nau acordassem do seu estupor e tomassem as armas.
– Bernardim, acode-me que enforcam a Rui Dias! – chamava o capitão, em altos brados para a nau de Bernardim Freire que emparelhava com a sua.
O amigo acudiu logo no esquife, com Francisco de Sá e os irmãos Simão e Fernão Peres de Andrada, todos armados e a gritarem:
– Não consintas em tal, Fogaça! Não lho consintas!
– Largai as armas, em nome d’el-rei! Cessai o tumulto, por el-rei e Jesus Cristo! – clamava Fernão de Lis, vendo-se acossado de todos os lados, temendo pela sua vida.
– O governador! Chamai o governador! – berravam a plenos pulmões os alabardeiros vendo-se em minoria face aos matalotes e soldados, que apertavam o cerco, de armas nas mãos, a fitarem-nos enraivecidos.
Albuquerque, empunhando o estandarte real, meteu-se no batel com os fidalgos e muita gente armada indo dar voz de prisão aos capitães revoltados. Tirou-lhes as capitânias das naus, que entregou a gente de sua confiança, pondo os cabecilhas a ferros, debaixo da coberta do seu navio para neles ter maior vigia68.
68 Lendas da Índia, tomo II, parte I, capítulo XVI, de Gaspar Correia.
XII
A sorte é como uma mulher, que quer quando não queremos e que não quer, quando queremos
(português)
Era a cidade de Goa situada neste rio de Goa Velha, em que entrou o Timoja, a qual cidade despovoou, e se tornou a povoar a cidade onde agora é, e isto porque o rio cá tinha melhor fundo e melhor varadeiro para as naus dos mercadores, que acrescentaram muito à nobreza da cidade, porque por toda a ilha de Goa em roda tinha muitos esteiros e várzeas alagadiças, que se cobriam com a maré, e em alguns lugares, que havia passagem da terra firme para Goa, tinham os mouros torres e muralhas que tolhiam a passagem, em que tinham piães e guardas; e porque não passassem a nado, as gentes que matavam as deitavam no rio, em que havia muitos lagartos que andavam encarniçados, que às vezes soçobravam as almadias por comer a gente, e tomavam os que se estavam lavando na borda do rio. E por caso do rio de Goa, a Velha, muito espraiar, e os mercadores não poderem varar as suas naus, por isso se passaram ao outro rio, que era bom, em que se fez a cidade, e ficou o nome de Goa Velha ao outro rio.
(Lendas da Índia, de Gaspar Correia)
Fernão Mendes Pinto ajeita a capa, sentindo com agrado o toque do bom pano e mergulha na animação da rua Direita, que divide a cidade em duas e é mostruário da riqueza e fausto da Goa Dourada, que finalmente pudera conhecer com algum ripanço. Indo de norte para sul, podem ver-se os belos edifícios da Santa Casa da Misericórdia, da igreja de Nossa Senhora da Serra e da Casa do Senado. Por trás das janelas das casas ricas, construídas ao modo de Portugal, assomam donas e donzelas de boas famílias até onde o recato lhes permite serem vistas; em outras, meio abertas ou escancaradas, mostram-se mulheres e moças muito louçãs, brancas, pardas e negras, lançando chistes e risos ou acenando aos que as cortejam.
A meio da compridíssima rua, ergue-se o vulto imponente da igreja de Santa Catarina, elevada nesse ano a catedral de Goa, no local onde Afonso de Albuquerque lhe dedicara a sua conquista. Mais abaixo, a praça do Pelourinho, no cruzamento de seis ruas, tem um grande bazar, em cujos claustros há quarenta e oito boticas, que de dia vendem toda a sorte de legumes e outros comeres e de noite se faz a baratilha, uma venda de objectos roubados.
Escuta os chamamentos dos barbeiros sangradores, sentados às portas das suas casas ou das tendas, à espera dos fregueses, os pregões das doceiras e aguadeiras que percorrem as ruas, umas com bacias ou cestas de doces cobertos com panos mimosamente bordados, outras com os cântaros de água fresca da fonte. Nas lojas dos ourives, os tabuleiros refulgem com o ouro e as pedras preciosas de jóias magníficas, rivalizando com o brilho das sedas, dos cetins, dos brocados bordados a fio de ouro, prata e aljofre. Por trás da igreja de Nossa Senhora da Luz ergue-se ameaçadora a forca de pedra.
O leilão, que é o acontecimento mais importante da cidade, tem lugar na rua Direita todas as manhãs, das sete às nove horas por causa do calor, durante o ano inteiro, excepto aos domingos e dias santos. Um ajuntamento só ultrapassado pelos recebimentos dos vizo-reis e governadores da Índia, segundo lhe asseguraram e ele não duvida quando acotovela a imensa multidão de portugueses, de naturais da terra e de gente não só dos reinos vizinhos como de todas as nações do Oriente, que o engolem como uma impetuosa onda.
A rua Direita é, por isso, o local escolhido pelos moradores da cidade para se fazer alarde da riqueza e do poder, reais ou fingidos. Fidalgos, gente nobre ou baixa, mercadores ricos ou aventureiros sem eira nem beira, vêm cortejar as barregãs, as mestiças amancebadas com homens ricos, as escravas forras, muito fogosas, que fazem gala em ter o maior número de amantes. Aqui merca-se toda a sorte de produtos: especiarias, drogas, cavalos árabes e persas, escravos de trabalho e de prazer; também se compram os serviços das cativas que os seus senhores põem a render, vendendo além dos doces os seus corpos de mais apetitosos e exóticos sabores.
Tanto os homens como as mulheres exibem as suas melhores galas, arrastando o passo com muita pompa, acompanhados por um séquito de escravos, comprados ou alugados, tantos quanto lhes permitem as bolsas: um moço na frente, empunhando um grande sombreiro ou toldo por cima da cabeça do amo ou ama, outros para lhes levarem a espada, o leque, o jarro de água, o missal, a almofada para os pés e o banco para se sentarem.
Parece uma dança de galos, a troca de infinitas cortesias e reverências entre os homens ou destes para as damas, cada vez que se cruzam com conhecidos, inclinando o corpo, com a perna estendida, o chapéu a roçar o chão, balbuciando um Beijo-vos as mãos, cheio de presunção. Não se vêem donas, muito menos donzelas, portuguesas de boas famílias, que essas só saem para ir à igreja ou para visitar uma amiga, sempre embiocadas, metidas em cadeirinhas ou liteiras tapadas; o resto do tempo permanecem, como em Portugal, fechadas em casa a sete chaves, por estes maridos, pais ou irmãos zelosos que se pavoneiam na rua Direita, em busca de conversação com escravas, mulheres públicas ou adúlteras.
Os gritos dos pregoeiros a anunciarem as mercadorias de Cambaia, Bengala, Pérsia, China e outros infindos reinos, sobrepõem-se à vozearia da multidão dos compradores ou dos que, como ele, apenas vêm passear e mirar. Adornados como ricas cortesãs, com cadeias de ouro, anéis e outras jóias, atraem todas as atenções os pregoeiros dos produtos de luxo, como sedas, perfumes, pedras preciosas, tapeçarias, porcelanas, enfim, tudo o que o desejo cobice e o dinheiro, a prata ou o ouro possam comprar.
Pára a ver a almoeda da Provedoria dos Defuntos e Ausentes que licita os bens dos que morreram ou desapareceram no mar, cujos proventos ajudarão as suas viúvas e órfãos a regressarem ao reino. Acha tudo muito caro e, embora sinta que a sua má sorte está a mudar, prefere poupar o dinheiro do soldo que lhe adiantou o capitão Pêro de Faria.
O mercado dos escravos está ainda muito concorrido e ele retarda o passo, sem se dar conta, a ver a moça java de corpo esbelto, quase nua, que está a ser leiloada. A lembrança da sua própria venda e servidão no mar Roxo causam-lhe uma dor pungente, fazendo-o acelerar o passo rua abaixo, a caminho do cais, perseguido pelas penosas recordações que procurava em vão esquecer. Quando se vira livre da escravatura em Ormuz, embarcara na nau de Jorge Fernandes Taborda a caminho de Goa, crendo que a Fortuna por fim lhe sorria permitindo-lhe recomeçar a vida; em vez disso, navegara novamente direito ao perigo, escapando por um triz de ser morto ou cativado pelos rumes que cercavam Diu.