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A sua má sorte não ficara por aí. Pouco depois de terem saído de Chaul, onde se haviam acolhido, fora arrastado para novas desventuras, quando a nau de Taborda se cruzara com as três fustas de Fernão de Morais – outro que não quisera ficar em Diu a socorrer António da Silveira no cerco –, enviado a Dabul pelo vizo-rei com a missão de queimar uma galé turca que estava a carregar mantimentos por mandado de Soleimão Baxá. Morais, que não obedecera a António da Silveira, forçara Taborda a ceder-lhe doze homens para o ajudarem no assalto e ele, que era sempre o mais enjeitado, fizera parte do lote.

Por fortuna, Morais já não achara o navio inimigo em Dabul e regressara a Goa, em cujo porto Gonçalo Vaz Coutinho, o capitão da cidade, estava prestes a partir com cinco fustas para Onor, com a missão de exigir à rainha a entrega de uma outra galé turca da armada do capado, que arribara às suas costas desgarrada pela tempestade. Fernão, que vestia ainda as roupas dadas por esmola em Ormuz e continuava sem um real no bolso, aceitara sem hesitação o convite para embarcar na dita frota, que lhe fizera o capitão de uma das fustas, seu amigo, pagando-lhe logo cinco cruzados de soldo, para o ajudar. Os soldados da sua equipagem apetrecharam-no com sobras das suas couraças e armas, de tal modo que Fernão se parecia a um estafermo feito de bocados, como os que eram usados para treino dos cavaleiros nos exércitos e armadas.

Partira antes mesmo de poder ver a cidade, tal como lhe sucedera com Diu, e dois dias mais tarde, ainda mal refeito da viagem a Dabul, entravam no porto de Onor com grande estrondo de artilharia e fanfarra de guerra, para espantar e atemorizar os naturais, assim como aos turcos se ainda lá estivessem. Onor era a terra do corsário Timoja, que se fizera amigo dos portugueses no tempo de D. Francisco de Almeida, ajudando D. Afonso de Albuquerque a conquistar Goa. Todavia, como aquele momento era de conflito não tivera ocasião de colher informações dessas histórias passadas. E a desgraça não se fizera esperar.

Vendo que a rainha se escusava a queimar a galé porque, segundo lhes mandara dizer, vinha armada com grossa artilharia contra a qual ela não tinha poder de fogo, Gonçalo Coutinho decidira acometer e conquistar o dito navio em vez de o abrasar, para o levar como troféu a D. Garcia de Noronha. Fora imprudente em não ter tomado em conta os avisos da soberana, de que os rumes estavam muito bem armados, entrincheirados no rio onde tinham a galé, e saíra-se mal. Na feroz batalha que travaram, embora tivessem matado muitos inimigos, os cem portugueses foram desbaratados e obrigados a fugir para as fustas, debaixo de pesado fogo, transportando em braços os quinze mortos, entre os quais o filho do capitão, mais os cinquenta e quatro homens feridos e queimados com gravidade.

Cheio de paixão pela perda do filho e dos seus homens, o capitão quisera castigar a rainha, contudo, persuadido pelas suas súplicas e protestos de amizade, assinara novo concerto de paz, regressando a Goa. Em Onor ficara Jorge Nogueira para se certificar de que Sua Alteza cumpriria a promessa de queimar a maldita galé e expulsar os turcos do seu reino.

Absorto nos seus pensamentos, Fernão choca com um fanchono todo taful, que franze o sobrolho, levando a mão à espada escandalizado pelo desrespeito, por fim se apazigua com as suas juras e desculpas pela distração e ofensa involuntária. Suspira de alívio e segue a caminho do porto, retomando o fio à meada das suas memórias.

Escapara à morte, no confronto com os rumes em Onor, mas ficara muito ferido e continuava sem um real de ganho, visto que não tinham tomado a galé, portanto, não houvera saque para recompensar as tripulações e os soldados. À chegada a Goa, enviaram-no com outros feridos graves para o Hospital Real, fundado no ano de mil quinhentos e vinte e considerado por todos os estrangeiros que o visitavam como o maior e mais importante hospital do Oriente, um dos melhores do mundo. Ali jazera entre a vida e a morte, sendo salvo in extremis, nada mais, nada menos do que pelo doutor Garcia de Orta, o físico do capitão-mor Martim Afonso de Sousa, que ali prestava cuidados aos soldados e matalotes pobres.

Durante a convalescença, Fernão contara-lhe as suas desventuras e o doutor, apercebendo-se da sua curiosidade por mezinhas e curas, fizera-se seu amigo, permitindo que ele o acompanhasse nas rondas pelas enfermarias, ensinando-lhe os usos de muitas drogas e ervas, à mistura com gostosas histórias.

– Quando, depois de lhe dar a fortaleza de Diu, o sultão Bahadur pediu ao governador D. Nuno da Cunha que lhe desse ajuda contra os mogores seus inimigos – confiara-lhe, um dia, com um sorriso divertido –, o senhor Martim Afonso de Sousa ofereceu-se para comandar quinhentos homens de cavalo, que o quisessem acompanhar, assegurando que esses bastariam para o socorrer. Todos os fidalgos da armada se ofereceram para o acompanhar, de modo que o capitão pôde escolher os melhores e eu fui com eles, para cuidar dos feridos, que sempre os há nas guerras.

Cavalgámos por terra firme, atravessando toda a península do Guzarate, em constantes brigas com os bandos de mogores, que se retiravam para Deli e andavam a roubar os camponeses e a violar as mulheres. Então Martim Afonso adoeceu e el-rei, que o estimava muito, chamou-me e perguntou-me como havia de curar o capitão daquelas febres69.

– Primeiro sangrá-lo-ei, meu Senhor – disse-lhe com muito acatamento –, e logo lhe darei xarope de sumo de limões, romãs e açúcar. E tomará também uma purga com maná e ruibarbo.

Eram as mezinhas que trazia comigo, porque não havia outras no seu arraial que eu conhecesse. Bahadur, porém, abanou a cabeça, reprovador:

– Os portugueses não sabem curar febres tão bem como os guzarates, que não as curam com outra cousa, senão com não comer.

Longe de mim porfiar com el-rei que, embora não fosse letrado, era muito voluntarioso e o maior rei que havia naquela terra.

– Vossa Alteza diz bem! – retorqui, mostrando admiração pelo seu saber. – Há três dias que não dou de comer ao capitão. Por isso o quero xaropar e dar-lhe a comer uma dieta subtil.

– Quatro dias é muito pouco – insistiu o casmurro –, há mester estar ao menos vinte dias sem comer cousa alguma. Reconheço que os portugueses são muito bons físicos nas outras enfermidades, mas nas febres, os guzarates são melhores.

Eu calei-me, que outra cousa não podia fazer, e fingi obedecer, mas às escondidas sangrei Martim Afonso de Sousa e dei-lhe a comer galinhas, não sendo necessário purgá-lo, pois depressa ficou curado.

Fernão rira-se da história, jurara-lhe que folgara muito mais em ser tratado com a sua dieta de galinha e os seus xaropes do que com a receita de Bahadur, que por certo o mataria. O ilustre físico mostrava desejos de fazer dele aprendiz de boticário, porém, o padre Manuel, que assistia aos doentes e lhe quisera dar a extrema-unção quando o vira no pico da febre, aconselhara-o a ir sem demora oferecer-se ao fidalgo Pêro de Faria, que estava provido da capitania de Malaca e dava mesa a todos os que quisessem entrar para o seu serviço e acompanhá-lo, quando fosse ocupar o seu posto. Fernão agradecera o conselho, agarrando a oportunidade com ambas as mãos.

Malaca era agora melhor do que qualquer outro lugar da Índia para se buscar fortuna, quer em viagens de trato – desde que a Coroa portuguesa abdicara do monopólio das especiarias e concedia licenças a particulares –, quer no corso, a andar às presas. Se o capitão o aceitasse, ele seria o homem mais afortunado do mundo! Para se enriquecer no Oriente, era necessário pertencer a uma dessas redes de parentesco e amizade dos principais servidores da Coroa, em particular, dos capitães das fortalezas.