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– O malparido esteve dias a fio em Chaul e em Baçaim, sem sequer desembarcar, somente a tratar do seu proveito. Má gafeira que lhe dê! Todo o seu feito é sacar dinheiro aos moradores, assim como aos estrangeiros, tirando a uns para entregar a outros que lhe dão peitas.

– Rogo eu a Deus que má dor lhe venha! Fez com que se perdesse a galé bastarda do seu próprio filho, D. Álvaro, de que por milagre os homens se salvaram em camisa que tudo o mais se afundou. E a galé Espinheiro, do capitão João de Sousa, o Rates, também se perdeu e nela só não se afogou mais gente, além dos escravos que estavam presos aos bancos, porque o moço D. Cristóvão da Gama, o filho do almirante descobridor da Índia, os salvou com a sua nau a muito custo.

– Só as perdas desses dois navios, com os seus escravos e bombardas, mais a artilharia alijada ao mar pelos outros navios, passam de trinta mil cruzados. O demo parece que se chantou no vizo-rei, que já ninguém o pode sofrer! Traz muito pouca gente nestes cinquenta navios, porque sempre que se chegou com a armada perto de terra, os homens desembarcaram aos magotes e já não volveram aos navios.

Fazendo-se desentendido das murmurações e ódios, quer dos fidalgos quer da gente baixa, D. Garcia de Noronha reinava em Diu como lhe dava na vontade, segundo os seus interesses, distribuindo cargos, postos e benefícios de acordo com as suas inclinações ou amizades, amealhando favores e riquezas. Como António da Silveira lhe disse que el-rei de Cambaia sondara o terreno para o concerto de paz, o vizo-rei, ansioso por alcançar maior proveito para si, expedira sem demora embaixadores a Alucão, com recado de que esperava os enviados d’el-rei para se assinar o tratado. Mandou lançar pregões da outra banda do rio, concedendo seguros com muitos privilégios a todos os mercadores e moradores da cidade que quisessem voltar para as suas casas, a fim de povoar de novo a cidade que estava deserta.

António da Silveira partira para o reino, não sem antes ter sofrido em Goa mais uma humilhação dos invejosos oficiais da Coroa, que procuraram manchar a honra do capitão, que gastara na Índia muito mais da sua fortuna pessoal do que o que recebera em pagamento pelos seus serviços, para poder prover os homens que tinha sob as suas ordens.

Para que os homens de sua obrigação não chegassem ao reino de mãos a abanar, mais pobres do que haviam partido, Silveira mandara carregar um paiol da nau Santo António com as arcas deles que, em segredo, enchera de mercadorias para cada um vender em Lisboa com muito proveito. O vedor da Fazenda denunciara-o a Pêro Lopes de Sousa, e foram ambos fazer uma devassa à nau. Ao verem o paiol atravancado com as arcas dos soldados, deram ordens para que as deitassem logo fora e, em seu lugar, metessem fardos de pimenta. O capitão sentira muito a afronta, dizendo com ironia, para quem o quisera ouvir:

– O vedor da Fazenda e Pêro Lopes de Sousa não fazem el-rei mais rico com esta pimenta, o que fizeram foi mostrar-se bons servidores! Folgo porque no paiol não acharam mercadorias defesas70, senão as arcas de muita pobreza dos homens que ganharam a fortaleza de Diu às lançadas, aos quais eu quero bem como a meus próprios irmãos, pelo que lhes vi fazer, pelejando com os rumes. Se Pêro Lopes o vira, ele os estimara como eu, mas esta maldição há-de morrer com a Índia: enquanto o povo e os pobres homens trabalham, os grandes levam o proveito e o seu suor, de que Deus ouvirá os seus gemidos.

Escrevera a el-rei, fazendo-lhe muitas queixas pelo modo injusto como eram tratados os homens que mais serviços prestavam a Sua Alteza, com risco das próprias vidas.

No rescaldo da vitória de Diu, pelo contrário, as liberalidades concedidas pelo vizo-rei aos mouros inimigos depressa deram fruto e a cidade recuperou a sua anterior animação e prosperidade, com o porto a receber as naus de trato como outrora. Sabendo que as pazes assinadas entre D. Garcia de Noronha e el-rei de Cambaia haviam sido muito mais proveitosas para os vencidos do que para os portugueses (o que causara grande paixão e escândalo a António da Silveira e aos que tão caro haviam pago a vitória), os rumes que tinham andado a monte no sertão depois da fuga do capado, aproveitando o seguro concedido pelo vizo-rei, regressaram com os moradores. Tomando tal concerto de paz como sinal de fraqueza dos cristãos, recomeçaram com as provocações, os conflitos e confrontos, sempre que se cruzavam com qualquer português que fosse passear ou fazer tratos à cidade, causando frequentemente brigas com feridos ou mortos de parte a parte.

Todos trabalhavam na reedificação da fortaleza, estando os baluartes e troços de muralhas repartidos pelos capitães da armada com os seus soldados, matalotes e escravos. Por Pêro de Faria ter muita gente na sua nau, porque ninguém tinha desertado com o desejo de ir no seu serviço para Malaca, destinaram-lhe a reconstrução do baluarte do mar com a couraça da banda da terra, na parte mais difícil de trabalhar, o qual, apesar de ser o mais danificado, foi refeito e melhorado em apenas vinte e seis dias pelos seus trezentos homens, com o contributo de todos os seus oficiais, dos fidalgos seus parentes.

Terminado o trabalho, aprestavam-se para a partida, tendo Faria recebido ordens do vizo-rei para se prover em Goa de mais navios, gente e provisões que necessitasse de levar para Malaca, a tempo da monção. Fernão despedia-se de Diu, revisitando os lugares que vira antes e, depois do cerco, ajudara a erguer das cinzas, sentindo-se orgulhoso da obra feita, mas também ansioso por partir, pois ali nada mais ganhara do que o soldo.

A estadia valera pelo convívio, a fraternidade criada entre os recém-chegados e os cercados, que não lhes censuravam a demora do socorro, sabendo que a culpa não era deles mas de quem mandava. Fernão fizera amigos, como António de Azevedo, o capitão do baluarte do mar.

Querendo dar-lhe uma mostra da sua estima e um presente de despedida, o capitão convidara-o com outros dois companheiros para uma montaria ao javali, organizada por alguns mouros da cidade seus amigos, na quinta de Meliquiaz onde outrora pousara o sultão Bahadur. Conseguida a licença do capitão da fortaleza, tinham partido ao nascer do sol, levando um bom número de escravos carregados com muita comida e bebida, a fim de passarem umas horas de desenfadamento, em boa companhia.

Chegados à coutada, os criados armaram o acampamento num formoso arvoredo onde, depois de algumas horas de montaria, terminada com a morte de um porco selvagem, os caçadores se vieram deitar à sombra das árvores para comer, conversar e repousar. Os cinco mouros amigos de Azevedo eram gente nobre e de muita polícia71, todos bons caçadores. Falavam a língua franca, uma mistura do guzarate com o português, usada na terra tanto pelos moradores e mercadores da cidade, como pelos portugueses da fortaleza, sem necessidade de intérpretes.

Só deram por eles quando já estavam cercados pelo bando de quinze rumes, armados de terçados, machadinhas, arcos e flechas. Os olhares e sorrisos de mofa que lhes deitam não deixam dúvida quanto às suas intenções: provocar uma briga para matar os cristãos com os mouros que sejam tão loucos que ousem tomar o partido dos inimigos da sua lei. Longe da fortaleza e da cidade, os portugueses eram mais vulneráveis e os crimes ficavam quase sempre impunes.

Sem aguardarem por saudação ou convite, começam a servir-se, comendo do que lhes apetecia, insultando-os, por entre risos, com palavrões em português decerto aprendidos durante o cerco:

– Capados! Cornudos!

– Judeus! Infiéis!

Os mouros amigos repreendem-nos, dizendo-lhes para não importunarem os estrangeiros, que as pazes estavam concertadas, mas eles mandam-nos calar, chamando-lhes traidores e renegados, por terem conversação com cristãos infiéis. Com mãos nervosas agarram os punhos dos machados e das espadas, à espera de um pretexto para os acometer. Agastados por não terem a resposta desejada aos insultos, os arruaceiros recrudescem em violência, entornando o vinho e a comida, quebrando bacias e jarros.