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– Saímo-nos pior aqui do que no Mercado dos Cavalos Magros! – exclama Zeimoto. – Ficámos a ver navios e sem um real no bolso!

– Consola-te, homem, que estas putas eram feias – desdenha Borralho, despindo a veste molhada que se lhe colava ao corpo, acrescentando mais bizarria às suas figuras desgrenhadas que fazem os chins pararem a mirá-los.

– Corremos um grande risco de vida – acrescenta o prudente Fernão, imitando-o e ficando de tronco nu, como os mariolas que carregam os barcos –, maior do que no mercado das concubinas, pois aqui podiam cortar-nos as goelas e desfazer-se dos nossos corpos sem ninguém o saber. Tivemos muita sorte em só nos tirarem o dinheiro e os punhais aos que iam armados.

Foram os primeiros a entregar as bolsas e saíram antes dos outros, embrenhando-se nas ruas dos barcos, a fim de os despistarem e poderem regressar a casa sozinhos, jurando que não mais volveriam a andar com aquele bando de arruaceiros.

– Cães preados, má gafeira que lhes dê! – amaldiçoa-os Fernão, embora sem raiva, começando a achar graça ao entremez. – Uma boa história dos folangji para fazer rir o monteo e os seus ilustres convidados! Em cousa que meta mulheres, o azar persegue-me.

Cristóvão sorri, julgando que ele se refere à Noiva Roubada:

– Razão têm os matalotes quando dizem que a mulher, o fogo e os mares são três males que causam a perdição.

– E o pobre de mim que o diga! Desde muito cedo, na primeira casa em que servi, me vi enrolado em histórias de amores ardentes que me puseram a vida em risco.

– Conta lá essa, Fernão – roga Zeimoto. – Assim talvez nos salves o serão.

– Tinha eu uns doze ou treze anos e tive de fugir para salvar a vida. Ouvistes decerto falar de D. Joana da Silva, de Francisco Faria e de Manuel Freire?

– A que fez adultério? Estavas ao seu serviço?

– Aos doze anos já lhe fazias o serviço? Começaste cedo!

– Apesar de não ser eu o amante, amava-a como gente grande e por pouco não perdi a vida. Tive de fugir.

– Esse caso foi abafado. Era gente de qualidade.

– Que fizeste, inda tão cachopinho, pra te quererem matar?

– Podes contar-nos o teu segredo, descansado, que ele irá connosco para o túmulo!

Cede, contente por se libertar de um segredo que carrega há quase vinte anos:

– D. Joana era filha de Aires da Silva, o regedor das Justiças da Casa da Suplicação, senhor de Vagos e alcaide de Montemor-o-Velho, de onde eu sou natural, portanto não foi difícil a um dos meus tios, que era influente na terra, pôr-me ao serviço da sua nobre casa.

Agradada dos meus modos de gentil-homem de palmo e meio e da minha esperteza, D. Joana fez de mim o seu fiel pajem. Eu pagava-lhe o privilégio com cega devoção, enamorado da sua beleza, do bondoso sorriso, que não lograva esconder a melancolia dos seus olhos, sobretudo quando se achava só. Apenas na presença dos três filhos parecia esquecer essa paixão que a consumia.

Escutando os mexericos das aias e servas, fiquei a conhecer a história dos seus amores contrariados, do casamento arranjado pelo pai, que a oferecera a Francisco Faria, um homem abaixo da sua condição, em vez de a dar a Manuel Freire, cavaleiro da casa d’el-rei, o eleito do seu coração. Diziam ainda as alcoviteiras que o sogro, Antão de Faria, tratara de mover influências e conseguira afastar o rival do filho para as praças de África, a ver se, com sorte, os mouros o matavam.

Apesar da minha pouca idade, apercebi-me cedo da frieza entre D. Joana e o marido, ressentindo-me da maneira brusca como ele a tratava, deixando-a muitas vezes em lágrimas, que ela procurava disfarçar diante dos criados, mas não na minha presença. Nesses momentos, servia-a com maior diligência, tentando adivinhar-lhe os pensamentos, contando-lhe alguns mexericos e chistes, como se fora um bobo do paço, até a fazer rir. Durante as prolongadas ausências do marido em Palmela, de cujo castelo era alcaide-mor, D. Joana transformava-se em outra mulher, mais parecendo irmã do que mãe dos seus filhos, abarcando-me nessa auréola de carinho. Eu adorava-a a ponto de jurar que daria a vida por ela, o que, por pouco, não aconteceu.

No ano de vinte e três, estava eu há quase um e meio ao seu serviço, a minha ama chamou-me, estando só, para me dizer num sussurro:

– Fernão, sabes que te estimo muito, não sabes?

Senti o rosto a arder e tentei responder-lhe como um gentil-homem:

– Bondade vossa, Senhora. Estarei sempre ao vosso serviço enquanto me quiserdes e para tudo o que desejardes.

– Tudo? – sorriu com agrado e procurou os meus olhos que não se desviaram: – Sabes guardar um segredo?

– Senhora, sim!

– Preciso que me faças um serviço. – deixou de sorrir e hesitou, antes de concluir – arriscado.

Arrepiaram-se-me as carnes, mas volvi-lhe sem hesitar:

– Tudo farei, Senhora, para bem vos servir.

D. Joana afagou-me o rosto com as pontas dos dedos e eu corei de novo como uma donzela.

– Vai ao pavilhão de caça e entrega esta carta a um homem que lá está, mas antes pergunta-lhe como se chama. Só lha darás se o seu nome for Manuel Freire.

O amado da sua mocidade! O cavaleiro d’el-rei não morrera em Arzila, pelo contrário, fizera serviços de monta, casara por sua vez e tinha também três filhos. Que queria ele dela, surgindo assim ao fim de dez anos, perdidos os primores da juventude, casados ambos e com filhos? Nesse tempo, eu era tão moço que não sabia ainda como o amor pode ser insano e maravilhoso, capaz de fazer os amantes renascerem, como a Fénix das cinzas. Isso só haveria de aprender mais tarde.

Cala-se, de voz embargada e os companheiros sabem que ele se refere aos seus amores infelizes com a Noiva Roubada. Esperam em silêncio que ele se recomponha e recomece:

– Enfim, dei conta do recado e, desde esse dia, fiquei refém dos dois amantes, levando e trazendo mensagens como um alcoviteiro, ajudando aos encontros furtivos no pavilhão de caça, encobrindo a ausência da senhora, enganando aias e criadas com manhas que ia aperfeiçoando até me tornar mestre nelas. Contudo, não bastaram para o encobrimento da história.

Nunca cheguei a saber quem nos atraiçoou, porque, conhecendo o meu papel na aventura, todos se calavam mal me viam por perto e ninguém se descosia com chistes ou perguntas, agindo como se de nada desconfiassem.

Nessa noite, D. Joana chegou primeiro ao pavilhão e eu, como sempre, montei guarda do lado de fora, protegido pelas sombras, esquadrinhei a quinta com o olhar, não vendo qualquer movimento suspeito nos jardins, entre as casas dos caseiros ou dos serviçais. Quando Francisco de Faria estava ausente, o paço parecia deserto, sobretudo àquela hora nocturna.

Manuel Freire abriu o portão com a chave que D. Joana lhe enviara com a primeira carta e entrou tranquilo no parque, acolitado pelo primo, Fernão Peres de Andrada, pois não era seguro andar sozinho àquela hora perto da Porta de Alfofa. Ao chegarem às primeiras árvores da quinta, cinco vultos embuçados – ou antes quatro, porque o mandante manteve-se imóvel, à distância – saltaram-lhes em cima, derrubando Peres de Andrada com uma cacetada e ferindo Manuel Freire às cutiladas.

Escondi-me, quase desacordado de terror, vendo fugir o amante malferido, com os quatro meliantes a morder-lhe os calcanhares, porém o amo deu um brado, fazendo o seu fiel mouro deixar a perseguição e voltar para trás, talvez para acabar com o cúmplice do adúltero. Andrada recuperara entretanto os sentidos e, aproveitando-se da distracção do bando que se encarniçava contra o primo, escapara por entre as árvores.

Quanto a mim, não ousava bulir do buraco onde me refugiara, mal vira o ataque traiçoeiro. Então, Francisco de Faria entrou no pavilhão seguido do mouro. Ouvi o choro de D. Joana, cada vez mais forte, que me cortava a alma e o som abafado da voz do marido. Por fim, soou o grito irado: