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"Levante-se, Sir John!"

Sim, estava ao seu alcance tornar-se cavaleiro, e facilmente afinal. E talvez mais. Capitães e navegadores tornam-se almirantes, cavaleiros, lordes, até condes. O único caminho de um inglês plebeu para a segurança, a verdadeira segurança de posição dentro do reino, era através do favor da rainha. E o caminho para o seu favor era levar-lhe riqueza, ajudá-la a pagar a guerra contra a Espanha fedorenta, e contra aquele papa bastardo.

Três anos me darão três viagens, regozijava-se. Oh, sei dos ventos, monções e das grandes tempestades, mas o Erasmus estará cochado e transportaremos cargas menores. Espere um minuto! Por que não fazer o serviço adequadamente e esquecer as pequenas cargas? Por que não capturar o Navio Negro deste ano? Depois você terá tudo!

Como?

Facilmente: se ele não tiver escolta e nós o apanharmos desprevenido. Mas não tenho homens suficientes. Espere, há homens em Nagasaki! Não é lá que estão todos os portugueses? Domingo não disse que é quase como um porto português? Rodrigues disse o mesmo! Nos navios não há marujos que foram levados à força para bordo, não há sempre alguns que estarão prontos a escapar para conseguir lucro rápido, seja quem for o capitão e qual for a bandeira? Com o Erasmus e a nossa prata eu poderia contratar uma tripulação. Sei que poderia. Não preciso de três anos. Dois serão suficientes. Dois anos com o meu navio e uma tripulação, depois para casa. Serei rico e famoso. E finalmente nos separaremos, o mar e eu. Para sempre.

Toranaga é a chave. Como é que você vai lidar com ele?

Passaram por outro posto de controle e dobraram uma esquina. À frente estava o último rastrilho e o último portão do castelo; além dele, a última ponte levadiça e o último fosso. Uma infinidade de archotes transformava a noite em dia carmesim.

Foi quando Ishido avançou das sombras.

Os marrons o viram quase simultaneamente. A hostilidade os invadiu a todos. Buntaro quase saltou por cima de Blackthorne para chegar mais perto da vanguarda da coluna.

- Esse bastardo está louco por uma luta - disse Blackthorne.

- Senhor? Desculpe, senhor, mas o que disse?

- Apenas... disse que seu marido parece... Ishido parece deixar seu marido muito enfurecido, e muito rapidamente.

Ela não respondeu.

Yabu deteve a coluna. Despreocupado ele estendeu o salvo-conduto ao capitão do portão e dirigiu-se a Ishido.

- Não esperava vê-lo de novo. Seus guardas são muito eficientes.

- Obrigado. - Ishido observava Buntaro e a liteira fechada atrás dele.

- Uma vez seria suficiente para examinar nosso passe - disse Buntaro, as armas chocalhando agourentamente. - Duas vezes, no máximo. O que somos nós? Uma expedição de guerra? É insultante!

- Não há intenção de insulto, Buntaro-san. Por causa do assassino, ordenei que se reforçasse a segurança. - Ishido olhou Blackthorne rapidamente e se perguntou de novo se devia deixá-lo partir ou detê-lo, como queriam Onoshi e Kiyama. Depois olhou novamente para Buntaro. Lixo, pensou. Logo a sua cabeça estará na ponta de um chuço. Como é que um primor como Mariko pôde permanecer casada com um gorila como você?

O novo capitão verificou meticulosamente um por um, certificando-se de que batiam com a lista.

- Está tudo em ordem, Yabu-sama - disse ele ao voltar à vanguarda da coluna. - Não precisam mais do passe. Conservamo-lo aqui.

- Ótimo. - Yabu voltou-se para Ishido. - Logo nos encontraremos.

Ishido tirou um rolo de pergaminho da manga.

- Gostaria de perguntar à Senhora Kiritsubo se ela levaria isto para Yedo. Para a minha sobrinha. É pouco provável que eu vá a Yedo por algum tempo.

- Certamente. - Yabu estendeu a mão.

- Não se incomode, Yabu-san. Eu mesmo perguntarei. - Ishido dirigiu-se para a liteira. As criadas obsequiosamente interceptaram-no. Asa estendeu a mão. - Posso pegar a mensagem, senhor? Minha am...

- Não.

Para surpresa de Ishido e de todos os que estavam perto, as criadas não lhe saíram do caminho.

- Mas minha am...

- Afastem-se! - rosnou Buntaro.

As duas recuaram com humildade, assustadas agora.Ishido curvou-se para a cortina.

- Kiritsubo-san, gostaria de saber se a senhora teria a gentileza de levar esta mensagem minha para Yedo. Para minha sobrinha.

Houve uma ligeira hesitação em meio aos soluços e a figura curvou-se em assentimento.

- Obrigado. - Ishido estendeu o delgado rolo de pergaminho a uma polegada da cortina.

Os soluços pararam. Blackthorne percebeu que Toranaga estava encurralado. A polidez exigia que pegasse o rolo e sua mão o trairia.

Todos esperavam que a mão aparecesse.

- Kiritsubo-san?

Ainda nenhum movimento. Então Ishido rapidamente deu uma passo à frente, abriu as cortinas com um puxão e no mesmo instante Blackthorne soltou um berro e começou a dançar, pulando como um louco. Ishido e os outros volveram-se rapidamente para ele, aturdidos.

Por um instante Toranaga ficou totalmente à vista atrás de Ishido.

Blackthorne pensou que Toranaga talvez pudesse passar por Kiritsubo a vinte passos, mas aqui, a cinco, era impossível, apesar do véu que lhe cobria o rosto. E no interminável segundo que antecedeu o gesto de Toranaga cerrando as cortinas com força, Blackthorne percebeu que Yabu o reconhecera, Mariko com certeza, Buntaro provavelmente, e alguns samurais também provavelmente. Ele deu um bote e agarrou o rolo de pergaminho, atirou-o por uma fenda nas cortinas e voltou-se, falando de modo ininteligíveclass="underline"

- É má sorte, no meu país, um príncipe entregar uma mensagem pessoalmente, como um bastardo comum... má sorte...

Tudo acontecera tão inesperadamente e tão depressa, que a espada de Ishido não deixou a bainha até Blackthorne estar ajoelhado e delirando diante dele como um insano boneco de mola, quando os reflexos do regente agiram e arremessaram a espada com ímpeto contra a garganta do inglês.

Os olhos desesperados de Blackthorne encontraram Mariko.

- Pelo amor de Cristo, ajude... má sorte... má sorte!

Ela gritou. A lâmina parou a um fio de cabelo do pescoço dele. Mariko, aflita, deu uma explicação do que Blackthorne dissera. Ishido baixou a espada, ouviu um instante, arrasou-a com um palavrório furioso, depois gritou com veemência crescente e esbofeteou Blackthorne com as costas da mão.

Blackthorne ficou fora dê si. Cerrou as manoplas e se atirou contra Ishido.

Se Yabu não tivesse sido rápido o bastante para agarrar o braço de Ishido que levantava a espada, a cabeça de Blackthorne teria rolado sobre o pó. Buntaro, uma fração de segundo depois, agarrou Blackthorne, que já estava com as mãos em torno do pescoço de Ishido. Foram necessários quatro marrons para arrancá-lo de cima de Ishido, depois Buntaro atingiu-o na nuca, deixando-o atordoado. Alguns cinzentos acorreram em defesa do amo, mas os marrons rodearam Blackthorne e a liteiras e por um momento a situação se equilibrou, com Mariko e as criadas deliberadamente gemendo e gritando, ajudando a criar mais caos e a desviar as atenções.

Yabu começou a aplacar a fúria de Ishido, Mariko, em lágrimas, repetia interminavelmente numa forçada semi-histeria que o bárbaro enlouquecido acreditava estar apenas salvando Ishido, o grande comandante - que ele pensou que fosse um príncipe - de um mau kami. - E tocar-lhes o rosto é o pior dos insultos, exatamente como conosco, foi isso o que o deixou momentaneamente louco. Ele é um bárbaro insensato, mas é um daimio em sua terra, e só estava tentando ajudá-lo, senhor!

Ishido cobriu Blackthorne de imprecações e deu-lhe um pontapé. Blackthorne estava voltando a si e ouvia o tumulto com grande tranqüilidade. Aos poucos seus olhos se desanuviaram. Havia cinzentos à sua volta, vinte para um, espadas desembainhadas, mas por enquanto ninguém estava morto e todos esperavam disciplinadamente.

Blackthorne viu que todas as atenções se concentravam nele. Mas agora sabia que tinha aliados.