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Ishido virou-se para ele de novo e chegou mais perto, gritando. Ele sentiu o aperto dos marrons se intensificar e soube que o golpe estava vindo, mas desta vez, ao invés de tentar se libertar, coisa que os samurais estavam esperando, começou a se deixar cair, depois imediatamente a se endireitar e tombar outra vez, rindo insanamente, para em seguida se pôr a dançar uma hornpipe corcoveante. Frei Domingo lhe dissera que todo mundo no Japão acreditava que a única causa da loucura era um kami, por isso os loucos, assim como todas as crianças bem novas e os homens muito velhos, não eram responsáveis e tinham privilégios especiais, às vezes. Então saltava em delírio, cantando no ritmo para Mariko:

- Ajude... preciso de ajuda, pelo amor de Deus... não vou agüentar isto muito tempo mais... ajude... - desesperadamente se comportando como um lunático, sabendo que era a única coisa que poderia salvá-los.

- Ele está louco... está possesso - gritou Mariko, imediatamente entendendo o ardil de Blackthorne.

- Sim - disse Yabu, ainda tentando se recuperar do choque de ter visto Toranaga, sem saber ainda se o Anjin-san estava fingindo ou se realmente enlouquecera.

Mariko estava fora de si. Não sabia o que fazer. O Anjin-san salvou a vida do Senhor Toranaga, mas como é que sabia? - não parava de repetir para si mesma, irracionalmente.

O rosto de Blackthorne estava exangue exceto no vergão escarlate deixado pela bofetada. Não parava de dançar, esperando freneticamente a ajuda que não vinha. Então silenciosamente amaldiçoou Yabu e Buntaro como covardes sem mãe, e Mariko, pela cadela estúpida que era. Parou repentinamente de dançar, curvou-se para Ishido como um fantoche convulsivo e, meio caminhando, meio bailando, dirigiu-se para o portão.

- Sigam-me, sigam-me! - gritou, a voz quase estrangulada, tentando indicar o caminho como um Pied Pipe{3}.

Os cinzentos barraram-lhe o caminho. Ele berrou com raiva fingida e imperiosamente ordenou-lhes que saíssem da frente, para logo em seguida cair numa gargalhada histérica.

Ishido agarrou um arco e uma flecha. Os cinzentos se afastaram. Blackthorne estava quase atravessando o portão. Voltou-se sabendo que não adiantava nada correr, que estava encurralado. Desamparado, recomeçou a dança furiosa.

- Ele é louco, um cachorro louco! Cachorros loucos têm que ser controlados! - A voz de Ishido soou áspera. Armou o arco e fez pontaria.

Imediatamente Mariko deu um pulo da sua posição protetora perto da liteira de Toranaga e começou a caminhar na direção de Blackthorne.

- Não se preocupe, Senhor Ishido - gritou.

- Não há por que se preocupar... é uma loucura momentãnea... peço permissão... - Aproximando-se ela pôde ver a exaustão de Blackthorne, o sorriso rígido de louco, e teve medo, malgrado seu. - Posso ajudar agora, Anjin-san - disse precipitadamente. - Temos que tentar s... sair daqui. Eu o seguirei. Não se preocupe, ele não vai atirar. Por favor, pare de dançar agora.

Blackthorne parou imediatamente, voltou-se e caminhou tranqüilamente para a ponte. Ela o seguiu, um passo atrás conforme o costume, esperando as setas, de ouvidos atentos.

Mil olhos observavam o gigante enlouquecido e a minúscula mulher sobre a ponte, que se afastavam.

Yabu recobrou-se.

- Se o quer morto, deixe-me fazê-lo, Ishido-sama. É inconveniente para o senhor tomar-lhe a vida. Um general não mata com as próprias mãos. Os outros devem fazer isso por ele. - Chegou bem perto e baixou a voz. - Deixe-o viver. A loucura foi conseqüência do seu tapa. Ele é um daimio em sua terra e o tapa... foi como Mariko-san disse, neh? Confie em mim, ele é valioso para nós vivo.

- O quê?

- Ele é mais valioso vivo. Confie em mim. O senhor pode matá-lo a qualquer momento. Precisamos dele vivo. Ishido leu desespero no rosto de Yabu, e verdade. Baixou o arco.

- Muito bem. Mas um dia eu vou querê-lo vivo. Vou pendurá-lo pelos calcanhares sobre o abismo.

Yabu engoliu em seco e fez meia mesura. Nervosamente fez um gesto para que o cortejo prosseguisse, receoso de que Ishido se lembrasse da liteira e de "Kiritsubo".

Buntaro, fingindo deferência, tomou a iniciativa e pos os marrons em marcha. Não questionou o fato de Toranaga ter magicamente aparecido como um kami no meio deles, apenas que o amo estava em perigo e quase indefeso. Viu que Ishido não tirava os olhos de Mariko e do Anjin-san, mas ainda assim se curvou polidamente para ele e se postou atrás da liteira de Toranaga para proteger o amo das flechas, caso a luta começasse ali.

A coluna aproximava-se do portão agora. Yabu tomou posição como solitária defesa de retaguarda. Esperava que o cortejo fosse detido a qualquer momento. Com certeza alguns cinzentos deviam ter visto Toranaga, pensou ele. Quanto tempo vai levar até que contem a Ishido?

Ele não vai pensar que eu fazia parte da tentativa de fuga? E isso não vai me arruinar para sempre?

A meio caminho sobre a ponte, Mariko olhou para trás um instante. - Eles vêm vindo, Anjin-san, as duas liteiras estão atravessando o portão, estão na ponte agora!

Blackthorne não respondeu nem se voltou. Permanecer ereto exigia-lhe toda a força de vontade remanescente. Perdera as sandálias, o rosto queimava do tapa, e a cabeça martelava de dor. Os últimos guardas deixaram-no atravessar o rastrilho. Também deixaram Mariko passar sem detê-la. E depois as liteiras.

Blackthorne liderou a marcha descendo a suave colina, passando pelo pátio aberto, cruzando a última ponte. Foi só quando se viu na área coberta de mato, totalmente fora da vista do castelo, que desfaleceu.

CAPÍTULO 23

- Anjin-san... Anjin-san!

Semiconsciente, ele deixou que Mariko o ajudasse a tomar um pouco de saquê. A coluna parara, os marrons cerradamente dispostos em torno da liteira com cortinas, os cinzentos da escolta à frente e atrás. Buntaro gritara para uma das criadas, que imediatamente providenciara o frasco numa das kagas de bagagem, dissera aos seus guardas pessoais que mantivessem todos longe da liteira de "Kiritsubo-san", depois correra para Mariko.

- O Anjin-san está bem?

- Sim. Sim, acho que sim - respondeu Mariko. Yabu

juntou-se a eles. Tentando desviar a atenção do capitão dos cinzentos, Yabu disse com negligência: - Podemos prosseguir, capitão. Deixaremos alguns homens e Mariko-san. Quando o bárbaro

se recuperar, ela e os homens seguirão.

- Com todo o respeito, Yabu-san, esperaremos. Estou encarregado de entregá-los todos a salvo na galera. Como um grupo

- disse o capitão.

Todos olharam quando Blackthorne engasgou ligeiramente

com o vinho.

- Obrigado - murmurou ele. - Estamos seguros agora?

Quem mais sabe que...

- O senhor está seguro agora! - interrompeu-o ela deliberadamente.

Estava de costas para o capitão e recomendou-lhe cautela

com os olhos. - Anjin-san, o senhor está seguro e não há motivo

de preocupação. Compreende? O senhor teve algum tipo de ataque. Olhe ao seu redor - está em segurança agora!

Blackthorne fez conforme ela lhe ordenou. Viu o capitão e os

cinzentos, e compreendeu. Suas forças estavam voltando rapidamente agora, ajudadas pelo vinho. - Desculpe, senhora. Foi

apenas pânico, acho. Devo estar ficando velho. Fico fora de mim

com freqüência e depois nunca consigo me lembrar do que aconteceu. Falar português é exaustivo, não? — Passou para o latim.

- A senhora compreende?

- Certamente.

- Esta língua é "mais fácil"?

- Talvez - disse ela, aliviada por ele ter compreendido a necessidade de cautela, mesmo usando o latim, que para os japoneses era uma língua quase incompreensível e impossível de ser aprendida, exceto para um punhado de homens do império, todos treinados pelos jesuítas e na maioria comprometidos com o sacerdócio. Ela era a única mulher em todo o seu mundo que sabia falar, ler e escrever latim e português. - Ambas as línguas são difíceis, cada uma tem perigos.