- Quem mais conhece os "perigos"?
- Meu marido e aquele que nos comanda.
- Tem certeza?
- Foi o que ambos deram a entender.
O capitão dos cinzentos agitou-se, impaciente, e disse alguma coisa a Mariko.
- Ele perguntou se o senhor ainda está perigoso, se suas mãos e pés devem ser amarrados. Respondi que não. O senhor está curado do seu acesso agora.
- Sim - disse ele, passando de novo para o português.
- Tenho ataques com freqüência. Se alguém me bate no rosto, fico louco. Sinto muito. Nunca consigo me lembrar do que acontece nessas ocasiões. E o dedo de Deus. - Viu que o capitão se concentrava nos seus lábios e pensou: apanhei-o, seu bastardo, aposto como você compreende português.Sono, a criada, estava com a cabeça curvada ao lado das cortinas da liteira. Ouviu e voltou até Mariko.
- Desculpe, Mariko-sama, mas minha ama pergunta se o louco já está bem para continuarmos. Ela pergunta se a senhora lhe cederia sua liteira, porque minha ama acha que devemos nos apressar por causa da maré. Todo o transtorno que o louco causou deixou-a ainda mais perturbada. Mas, sabendo que o louco é apenas afligido pelos deuses, ela fará preces para que ele recobre a saúde, e lhe dará pessoalmente alguns remédios assim que estivermos a bordo.
Mariko traduziu.
- Sim. Estou bem agora. - Blackthorne levantou-se mas oscilou sobre os pés.
Yabu vociferou uma ordem.
- Yabu-san diz que o senhor viaja na liteira, Anjin-san. - Mariko sorriu quando ele começou a protestar. - Sou realmente muito forte e o senhor não precisa se preocupar. Caminharei ao seu lado e o senhor poderá conversar, se quiser.
Ele se permitiu ser ajudado até a liteira. Imediatamente se puseram em movimento de novo. O passo bamboleante era calmante e ele se reclinou, exaurido. Esperou até que o capitão dos cinzentos se afastasse em direção à vanguarda da coluna, e sussurrou em latim, prevenindo Mariko:
- Aquele centurião compreende a outra língua.
- Sim. E acho que compreende um pouco de latim também. - Respondeu-lhe ela, igualmente num sussurro quase inaudível. Caminhou um momento. - Sinceramente o senhor é um homem corajoso. Agradeço-lhe por tê-lo salvado.
- A senhora tem mais coragem do que eu.
- Não, o Senhor Deus colocou meus pés no caminho e tornou-me um pouco útil. Agradeço-lhe novamente.
A cidade à noite era um reino encantado. As casas ricas tinham muitas lanternas coloridas, a óleo e a vela, pendendo dos portões e nos jardins, as telas shoji difundindo uma deliciosa transparência. Até as casas pobres eram alegradas pelas shojis. Havia lanternas iluminando o caminho de pedestres e kagas, e dos samurais, que andavam a cavalo.
- A iluminação das casas são lâmpadas de óleo, e também usamos velas, mas com a chegada da noite muita gente vai para a cama - explicou Mariko enquanto continuavam pelas ruas da cidade, dando voltas e mais voltas, os pedestres curvando-se e os muito pobres permanecendo de joelhos até que eles passassem. O mar cintilava ao luar.
- Conosco acontece o mesmo. Como vocês cozinham? Num fogão de madeira? - As forças de Blackthorne voltaram rapidamente e suas pernas já não pareciam de gelatina. Ela recusara a liteira de volta, de modo que ele continuava sentado apreciando o ar e a conversa.
- Usamos um braseiro de carvão. Não comemos alimentos como os seus, de modo que nossa cozinha é mais simples. Só arroz e um pouco de peixe, cru na maior parte, ou cozido sobre brasas com um molho picante e vegetais em conserva. Um pouco de sopa talvez. Nada de carne... nunca comemos carne. Somos um povo frugal, temos que ser, já que apenas parte da nossa terra, talvez um quinto do solo, pode ser cultivado... e somos muitos. Entre nós é uma virtude ser frugal, mesmo considerando a quantidade de comida que comemos.
- A senhora é corajosa. Agradeço-lhe. As flechas não foram disparadas por causa do escudo das suas costas - disse ele em latim.
- Não, capitão dos navios. Foi pela vontade de Deus.
- A senhora é corajosa e é linda.
Ela caminhou em silêncio por um instante. Ninguém me havia chamado de linda antes... ninguém, pensou ela.
- Nãosou corajosa e não sou linda. As espadas são lindas. A hora é linda.
- A coragem é linda e a senhora a tem em abundância.
Mariko não respondeu. Estava se lembrando daquela manhã, de todas as más palavras e maus pensamentos. Como pode um homem ser tão corajoso e tão estúpido, tão gentil e tão cruel, tão caloroso e tão detestável - tudo ao mesmo tempo? O Anjin-san foi de uma coragem sem limites ao desviar a atenção de Ishido da liteira, e totalmente esperto ao fingir loucura e assim tirar Toranaga da armadilha. Como Toranaga foi sábio escapando desse modo! Mas seja prudente, Mariko. Pense em Toranaga e não nesse estrangeiro. Lembre-se do mal que ele representa e pare de sentir essa tepidez úmida nos quadris, que você nunca teve antes, a tepidez de que as cortesãs falam e os livros de histórias de "travesseiro" descrevem.
- Sim - disse ela. - A coragem é linda e o senhor a tem em abundância. - Depois voltou ao português. - Latim é uma língua tão fatigante!
- A senhora aprendeu na escola?
- Não, Anjin-san, foi mais tarde. Depois de me casar, vivi no extremo-norte por muito, muito tempo. Estava sozinha, com exceção de criados e aldeãs, e os únicos livros que tinha eram em português e latim - algumas gramáticas, livros religiosos e uma Bíblia. Aprender as línguas ajudou muitíssimo a passar o tempo e ocupou-me a mente. Tive muita sorte.
- Onde estava seu marido?
- Na guerra.
- Quanto tempo a senhora esteve sozinha?
- Temos um ditado que diz que o tempo não tem uma medida única, que o tempo pode ser como a geada, a luz, uma lágrima, ou cerco, tempestade, crepúsculo, ou até como uma rocha.
- É um ditado sábio - disse Blackthorne. E acrescentou: - O seu português é muito bom, senhora. E o latim. Melhor do que o meu.
- O senhor tem mel na língua, Anjin-san!
- É honto!
- "Honto" é uma boa palavra. A honro é que um dia um padre cristão chegou à aldeia. Éramos como duas almas perdidas. Ficou quatro anos e ajudou-me imensamente. Fico contente por saber falar bem - disse ela, sem vaidade. - Meu pai queria que eu aprendesse línguas.
- Por quê?
- Achava que devemos conhcer o demônio com que temos que lidar.
- Era um homem sábio.
- Por quê?
- Um dia lhe contarei a história, é muita tristeza.
- Por que a senhora ficou sozinha por uma rocha de tempo?
- Por que não descansa? Ainda temos um longo caminho pela frente?
- A senhora quer sentar? – Novamente ele começou a se levantar mas ela balanou a cabela.
- Não, obrigada. Por favor, fique onde está. Gosto de caminhar.
- Muito bem. Mas a senhora não quer mais conversar?
- Se lhe agrada, podemos conversar. O que quer saber?
- Por que ficou sozinha uma rocha de tempo?
- Meu marido me mandou embora. Minha presença o ofendera. Foi perfeitamente correto ao fazer isso. Honrou-me não se divorciando de mim. Depois honrou-me ainda mais aceitando-me, e ao nosso filho, de volta. - Mariko olhou para ele. - Meu filho tem quinze anos agora. Na realidade sou uma velha senhora.
- Não acredito, senhora.
- É honto.
- Que idade tinha quando se casou?
- Muita, Anjin-san. Muita idade.
- Temos um ditado. A idade é como geada ou cerco ou crepúsculo, e às vezes até como uma rocha. - Ela riu. Tudo nela é tão gracioso, pensou ele, hipnotizado. - Na senhora, venerável dama, a idade assenta lindamente.
- Para uma mulher, Anjin-san, a idade nunca é linda.
- A senhora é sábia e linda - disse ele em latim, que veio facilmente e, embora soasse mais formal e imponente, era mais íntimo. Vigie-se, pensou ele.