Ninguém nunca me chamou de linda antes, repetiu ela para si mesma. Gostaria que fosse verdade.
- Aqui não é prudente notar a mulher de outro homem - disse em voz alta. - Nossos costumes são muito severos. Por exemplo, se uma mulher casada é encontrada sozinha com um homem numa sala com a porta fechada, simplesmente sozinhos e conversando em particular, por lei o marido dela, ou o irmão, ou o pai, tem o direito de matá-la instantaneamente. Se a garota não for casada, o pai pode, naturalmente, sempre fazer com ela o que lhe aprouver.
- Isso não é justo nem civilizado. - Ele lamentou o deslize imediatamente.
- Consideramo-nos muito civilizados, Anjin-san. - Mariko ficou contente por ser insultada de novo, pois isso quebrou o encanto e afastou a tepidez que estava sentindo. - Nossas leis são muito sábias. Há mulheres demais, livres e sem compromissos, para que um homem tome uma que já pertence a outro. Na verdade é uma proteção para as mulheres. O dever de uma esposa é unicamente para com o marido. Seja paciente. Verá como somos civilizados, como somos avançados. As mulheres têm um lugar, os homens têm outro. Um homem pode ter apenas uma esposa oficial de cada vez - mas, naturalmente, muitas consortes -, mas as mulheres aqui têm muito mais liberdade do que as senhoras espanholas e portuguesas, pelo que me disseram. Podemos ir livremente aonde quisermos, quando quisermos. Podemos abandonar nossos maridos, se desejarmos, divorciarmo-nos deles. Podemos nos recusar a casar, se quisermos. Somos donas de nossa própria fortuna e propriedade, do nosso corpo e espírito. Temos poderes tremendos, se desejarmos. Quem cuida de todos os seus bens, do seu dinheiro, da sua casa?
- Eu, naturalmente.
- Aqui a esposa cuida de tudo. O dinheiro não é nada para um samurai. Está abaixo da crítica para um homem autêntico. Cuido de todos os negócios de meu marido. Ele toma todas as decisões. Eu executo seus desejos e pago as contas. Isso o deixa totalmente livre para cumprir seu dever para com seu senhor, o qual é seu único dever. Oh, sim, Anjin-san, deve ser paciente antes de criticar.
- Não havia a intenção de crítica, senhora. Simplesmente nós acreditamos na santidade da vida, ninguém pode levianamente ser condenado a morte a menos que um tribunal legal, um tribunal legal da rainha, concorde.
Ela se recusou a ser abrandada.
- O senhor diz muitas coisas que eu não compreendo, Anjin-san. Mas não disse "não justo e não civilizado"?
- Sim.
- Isso, então, é uma crítica, neh? O Senhor Toranaga pediu-me que lhe assinalasse que é inconveniente criticar sem conhecer. Deve lembrar-se de que a nossa civilização, a nossa cultura, tem milhares de anos de idade. Três mil estão documentados. Oh, sim, somos um povo antigo. Tão antigo quanto os chineses. A quantos anos remonta a sua cultura?
- Não muitos, senhora.
- Nosso imperador, Go-Nijo, é o centésimo sétimo de uma linhagem intacta, que remonta a Jimmu-tenno, o primeiro elo terrestre, que descendia de cinco gerações de espíritos terrestres e, antes deles, de sete gerações de espíritos celestiais que vieram de Kuni-toko-tachi-noh-Mikoto, o primeiro espírito, que apareceu quando a terra se separou dos céus. Nem a China pode alardear uma história assim. Há quantas gerações os seus reis governam o seu país?
- Nossa rainha é a terceira da dinastia Tudor, senhora. Mas está velha e não tem filhos, portanto será a última.
- Cento e sete gerações, Anjin-san, até a divindade - repetiu ela, orgulhosa.
- Se acredita nisso, senhora, como pode dizer também que é católica?
Ele a viu se empertigar, depois encolheu os ombros.
- Sou cristã há apenas dez anos, portanto uma noviça, e embora acredite no Deus cristão, em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, com todo o coração, nosso imperador descende diretamente dos deuses ou de Deus. Ele é divino. Há muitas coisas que não consigo explicar nem compreender. Mas a divindade do meu imperador está fora de questão. Sim, sou cristã, mas primeiro sou japonesa.
Será que é essa a chave de todos vocês? Serem primeiro japoneses? perguntou Blackthorne a si mesmo. Ele a observava, atônito com o que ela dizia. Os costumes deles são malucos! O dinheiro não significa nada para um verdadeiro homem? Isso explica por que Toranaga foi tão desdenhoso quando mencionei dinheiro no primeiro encontro. Cento e sete gerações? Impossível! Morte instantânea só por estar inocentemente numa sala fechada com uma mulher? Isso é barbarismo - um convite aberto ao crime. Eles defendem e admiram o assassinato! Não foi o que disse Rodrigues? Não foi o que fez Omi? Simplesmente não assassinou aquele camponês? Pelo sangue de Cristo, eu não pensava em Omi há dias. Ou na aldeia. Ou no buraco ou em mim de joelhos diante dele. Esqueça-o, ouça a ela, seja paciente, conforme ela diz, faça-lhe perguntas porque ela fornecerá os meios de dobrar Toranaga ao seu plano. Agora Toranaga está em dívida com você. Você o salvou. Ele sabe disso, todo mundo sabe. Ela não lhe agradeceu, não por salvá-la mas por ter salvado a ele?
A coluna movia-se através da cidade rumando para o mar. Ele viu Yabu mantendo o passo e por um momento os berros de Pieterzoon lhe soaram com força aos ouvidos. - Uma coisa de cada vez - murmurou, quase que com seus botões.
- Sim - estava dizendo Mariko. - Deve ser muito difícil para o senhor. Nosso mundo é tão diferente do seu. Muito diferente mas muito sábio. - Ela podia ver o vulto indistinto de Toranaga dentro da liteira à frente, e mais uma vez agradeceu a Deus pela sua fuga. Como explicar ao bárbaro a nosso respeito, cumprimentá-lo pela sua coragem? Toranaga lhe ordenara que explicasse, mas como? - Deixe-me contar-lhe uma história, Anjin-san. Quando eu era jovem, meu pai era um general a serviço de um daimio chamado Goroda. Naquela época o Senhor Goroda não era o grande ditador, mas um daimio ainda em luta pelo poder. Meu pai convidou esse Goroda e seus principais vassalos para um banquete. Nunca lhe ocorreu que não havia dinheiro para comprar toda a comida, o saquê, a louça de laca e os tatamis que tal visita, por costume, exigia. Antes que o senhor pense que minha mãe era má administradora, deixe-me dizer-lhe que não era. Cada centavo da renda de meu pai ia para os seus próprios samurais vassalos, e embora oficialmente ele só tivesse o suficiente para quatro mil guerreiros, economizando, poupando e manipulando, minha mãe viu-o comandar em batalha cinco mil e trezentos homens, para glória do seu suserano. Nós, a família - minha mãe, as consortes de meu pai, meus irmãos e irmãs -, mal tínhamos o que comer. Mas que importava isso? Meu pai e seus homens tinham as melhores armas e os melhores cavalos, e davam o melhor de si ao seu senhor.
"Sim, não havia dinheiro suficiente para aquele banquete, então minha mãe foi aos peruqueiros de Kyoto e vendeu-lhes o cabelo. Lembro que foi como se as trevas se abatessem sobre ela. Mas ela o vendeu. Os peruqueiros o cortaram no mesmo dia, deram-lhe uma peruca barata, ela comprou tudo o que era necessário e poupou a honra de meu pai. Era dever dela pagar as contas, e ela pagou. Cumpriu seu dever. Para nós, o dever é tudo o que importa."
- O que disse ele, seu pai, quando descobriu?
- O que deveria dizer senão agradecer-lhe? Era dever dela encontrar o dinheiro. Poupar-lhe a honra.
- Ela devia amá-lo muito.
- "Amor" é uma palavra cristã, Anjin-san. Amor é um pensamento cristão, um ideal cristão. Não temos palavra para"amor", do modo como compreendo o significado dela. Dever, lealdade, honra, respeito, desejo, essas palavras e pensamentos são o que temos, e tudo de que necessitamos. Ela o olhou e, a despeito de si mesma, trouxe à mente o momento em que ele salvara Toranaga e, com Toranaga, o seu marido. Nunca se esqueça de que estavam ambos acuados lá, estariam ambos mortos agora, não fosse este homem.
Ela certificou-se de que não havia ninguém por perto.
- Por que o senhor fez o que fez?
- Não sei. Talvez porque. - Ele parou. Havia tantas coisas que poderia dizer: "Talvez porque Toranaga estava indefeso e eu não queria ser retalhado... Porque se ele fosse descoberto seríamos todos apanhados... Porque eu sabia que ninguém além de mim estava a par, e dependia de mim arriscar... Porque eu não queria morrer - há tanto o que fazer para desperdiçar minha vida, e Toranaga é o único que pode me devolver meu navio e minha liberdade". Em vez disso, respondeu, em latim: - Porque Deus disse: "Dai a César o que é de César".