- Sim - disse ela, e acrescentou na mesma língua: - Sim, era isso o que eu estava tentando dizer. A César umas coisas, e a Deus outras coisas. O mesmo acontece conosco. Deus é Deus e nosso imperador vem de Deus. E César é César, para ser honrado como César. - Sensibilizada pela compreensão e pela ternura na voz dele, ela disse: - O senhor é sábio. As vezes penso que compreende mais do que diz.
Você não está fazendo o que jurou nunca fazer? perguntou-se Blackthorne. Não está se fazendo de hipócrita? Sim e não. Não devo nada a eles. Sou um prisioneiro. Roubaram-me o navio, as mercadorias, e assassinaram um de meus homens. São pagãos - bem, alguns são pagãos e o resto é católico. Não devo nada a pagãos nem a católicos. Mas você gostaria de levá-la para a cama e a estava elogiando, não estava?
Deus amaldiçoe todas as consciências!
O mar estava mais perto agora, a meia milha de distância. Ele podia ver muitos navios, e a fragata portuguesa com suas luzes de âncora. Seria uma presa e tanto, pensou ele. Com vinte rapazes bons de briga eu a capturaria. Voltou-se para Mariko. Mulher estranha, de uma estranha família. Por que ela ofendeu Buntaro, aquele babuino? Como pôde dormir com aquilo, ou se casar com aquilo? O que é "muita tristeza"?
- Senhora - disse ele, mantendo a voz gentil -, sua mãe deve ter sido uma mulher excepcional. Fazer aquilo!
- Sim. Mas devido ao que fez, viverá para sempre. Agora é uma lenda. Era tão samurai quanto... quanto meu pai.
- Pensei que apenas homens fossem samurais.
- Oh, não, Anjin-san. Homens e mulheres são igualmente samurais, guerreiros com responsabilidades para com seus senhores. Minha mãe foi uma autêntica samurai, seu dever para com o marido excedia a tudo.
- Ela está na sua casa agora?
- Não. Nem ela, nem meu pai, nem nenhum dos meus irmãos, irmãs ou parentes. Sou a última da minha linhagem.
- Houve uma catástrofe?
Mariko de repente se sentiu cansada. Estou cansada de falar latim e essa língua portuguesa de sons abomináveis e cansada de ser professora, disse a si mesma. Não sou professora. Sou apenas uma mulher que conhece o seu dever e quer cumpri-lo em paz. Não quero sentir essa tepidez de novo, não quero nada desse homem que me perturba tanto. Não quero nada dele.
- De certo modo, Anjin-san, foi uma catástrofe. Um dia lhe falarei sobre isso. - Ela acelerou o passo ligeiramente e se afastou, aproximando-se da outra liteira. As duas criadas sorriram nervosas.
- Ainda temos muito que andar, Mariko-san? - perguntou Sono.
- Espero que não - disse, ela, tranqüilizadora.
O capitão dos cinzentos assomou abruptamente da escuridão, do outro lado da liteira. Ela perguntou a si mesma quanto do que dissera ao Anjin-san fora ouvido às ocultas.
- Quer uma kaga, Mariko-san? Está ficando cansada? - perguntou o capitão.
- Não, obrigada. - Ela retardou a marcha deliberadamente, afastando-o da liteira de Toranaga. - Não estou cansada em absoluto.
- O bárbaro está se comportando? Não a está incomodando?
- Oh, não. Parece absolutamente calmo agora.
- Do que estavam falando?
- De todo tipo de coisa. Eu estava tentando explicar-lhe algumas de nossas leis e costumes. - Fez um gesto na direção do torreão do castelo, gravado contra o céu. - O Senhor Toranaga me pediu que tentasse inculcar-lhe um pouco de bom senso.
- Ah, sim, o Senhor Toranaga. - O capitão olhou brevemente para o castelo, depois novamente para Blackthorne. - Por que o Senhor Toranaga está tão interessado nele, senhora?
- Não sei. Suponho que seja porque ele é uma anomalia.
Dobraram uma esquina, para outra rua, com casas por trás de jardins murados. Havia poucas pessoas à vista. Adiante havia ancoradouros e o mar. Mastros erguiam-se acima das construções e o ar estava denso com o cheiro de algas marinhas.
- De que mais falaram?
- Eles têm umas idéias muito estranhas. Pensam em dinheiro o tempo todo.
- Dizem que o país deles inteiro é feito de imundos mercadores piratas. Nem um samurai entre eles. O que o Senhor Toranaga quer com ele?
- Sinto muito, mas não sei.
- Corre o boato de que ele é cristão, que clama ser cristão. É mesmo?
- Não do nosso tipo de cristão, capitão. O senhor é cristão, capitão?
- Meu amo é cristão, portanto sou cristão. Meu amo é o Senhor Kiyama.
- Tenho a honra de conhecê-lo bem. Ele honrou meu marido tratando o casamento de uma de suas netas com meu filho.
- Sim, eu sei, Senhora Toda.
- O Senhor Kiyama melhorou? Tomei conhecimento de que os médicos não deixaram ninguém vê-lo.
- Não o vejo há uma semana. Nenhum de nós. Talvez seja a sífilis chinesa. Deus o proteja disso e amaldiçoe todos os chineses! - Olhou de relance na direção de Blackthorne. - Os médicos dizem que esses bárbaros trouxeram a peste para a China, para Macau, e depois para as nossas praias.
- Sumus omnes in manu Dei - disse ela. Estamos todos nas mãos de Deus.
- Ita, amen - retrucou o capitão sem pensar, caindo na armadilha.
Blackthorne também percebera o deslize e viu um relâmpago de raiva no rosto do capitão e ouviu-o dizer alguma coisa por entre os dentes a Mariko, que corou e também parou. Ele deslizou para fora da liteira e voltou até eles.
- Se o senhor fala latim, centurião, seria muito gentil em conversar um pouco comigo. Estou ávido por aprender sobre este seu grande país.
- Sim, falo a sua língua, estrangeiro.
- Não é a minha língua, centurião, mas a da Igreja e de todas as pessoas cultas do meu mundo. O senhor a fala bem. Como e quando aprendeu?
O cortejo estava passando por eles e todos os samurais, tanto os cinzentos quanto os marrons, os observavam. Buntaro, perto da liteira de Toranaga, parou e se voltou. O capitão hesitou, depois recomeçou a andar e Mariko ficou contente por Blackthorne se ter juntado a eles. Caminharam em silêncio um instante.
- O centurião fala a língua fluentemente, esplendidamente, não e? - disse ele a Mariko.
- Sim, de fato. O senhor a aprendeu num seminário, centurião?
- O senhor também, estrangeiro - disse o capitão friamente, sem prestar atenção nela, detestando a lembrança do seminário de Macau, para onde fora mandado criança por Kiyama, para aprender as línguas. - Agora que falamos diretamente, diga-me com sinceridade por que o senhor perguntou a esta senhora: "Quem mais sabe...?" Quem mais sabe o quê?
- Não me recordo. Minha mente estava delirando.
- Ah, delirando, hem? Então por que o senhor disse: "Dai a César o que é de César"?
- Foi apenas um gracejo. Eu estava discutindo com esta senhora, que me contou histórias esclarecedoras, mas às vezes difíceis de compreender.
- Sim, há muito que compreender. O que o fez enlouquecer no portão? E como se recuperou tão depressa do ataque?
- Foi a benevolência de Deus.
Estavam mais uma vez caminhando ao lado da liteira, o capitão furioso por ter caído na armadilha com tanta facilidade. Fora prevenido pelo Senhor Kiyama, seu amo, de que a mulher era dona de uma esperteza sem limites:
- Não se esqueça de que ela traz a nódoa da traição dentro de todo o seu ser, e o pirata foi gerado por Satanás. Observe, ouça e lembre-se. Talvez ela se inculpe e se torne uma futura testemunha contra Toranaga, para os regentes. Mate o pirata no momento em que a emboscada tiver início.
As setas saíram da noite e a primeira cravou-se na garganta do capitão, que, ao sentir os pulmões encher-se com fogo derretido e a morte a engoli-lo, teve um último pensamento de espanto, porque a emboscada não era para acontecer naquela rua, mas mais adiante, junto aos ancoradouros, e o ataque não era para ser contra eles, mas contra o pirata.