Outra seta se chocou contra a coluna da liteira a uma polegada da cabeça de Blackthorne. Duas setas atravessaram as cortinas fechadas da liteira de Kiritsubo, à frente, e outra atingiu Asa na cintura. Quando ela começou a gritar, os carregadores largaram as liteiras e sumiram na escuridão. Blackthorne rolou no chão para se proteger, levando Mariko consigo para o abrigo da liteira tombada. Cinzentos e marrons dispersaram-se. Uma chuva de setas derramou-se sobre as duas liteiras. Uma bateu surdamente no chão no ponto onde Mariko estivera um instante antes. Buntaro estava cobrindo a liteira de Toranaga com o corpo do melhor modo que podia, uma seta cravada nas costas da sua armadura de couro, bambu e malhas de ferro. Quando a saraivada cessou, ele investiu e abriu as cortinas com um repelão. As duas setas encontravam-se enterradas no peito e no flanco de Toranaga, mas ele estava ileso e arrancou as farpas da armadura de proteção que usava sob o quimono. Depois lançou fora o chapéu de aba larga e a peruca. Buntaro perscrutou a escuridão, à procura do inimigo, em guarda, uma seta pronta no arco, enquanto Toranaga se desvencilhava das cortinas e, puxando a espada de sob a manta, se punha de pé com um salto. Mariko começou a se arrastar na direção de Toranaga, a fim de ajudá-lo, mas Blackthorne puxou-a de volta com um grito de advertência, ao ver que novas setas eram disparadas contra as liteiras, matando dois marrons e um cinzento. Outra passou tão perto de Blackthorne, que lhe arrancou um pedaço de pele da bochecha. Uma outra prendeu-lhe a saia do quimono na terra. Sono, a criada, estava ao lado da garota desfigurada de dor, que corajosamente retinha os próprios gritos. Então Yabu gritou, apontou e atacou. Divisavam-se alguns vultos indefinidos sobre um dos telhados de telhas. Uma última saraivada sibilou na escuridão, sempre visando as liteiras.
Buntaro e outros marrons bloquearam o caminho delas até Toranaga. Um homem morreu. Uma flecha dilacerou uma junta no ombro da armadura de Buntaro e ele grunhiu de dor. Marrons e cinzentos encontravam-se perto do muro agora, em busca do inimigo, mas os atacantes desapareceram no negrume da noite e, embora uma dúzia de marrons e cinzentos corressem para a esquina a fim de interceptá-los, todos sabiam que não havia esperança de êxito. Blackthorne ergueu-se vacilante e ajudou Mariko a se levantar. Ela estava abalada mas ilesa.
- Obrigada - disse ela, e correu na direção de Toranaga, para ajudar a escondê-lo dos cinzentos. Buntaro gritava a alguns de seus homens que apagassem as tochas perto das liteiras. Então um dos cinzentos disse: - Toranaga! - e embora falasse baixo, todos ouviram. A tremulante luz dos archotes, a maquilagem riscada pelo suor fazia Toranaga parecer grotesco.
Um dos oficiais cinzentos curvou-se, ansioso. Ali, inacreditavelmente, estava o inimigo de seu amo, livre, fora dos muros do castelo.
- O senhor esperará aqui, Senhor Toranaga. Você - falou ele com rispidez a um de seus homens -, apresente-se ao Senhor Ishido imediatamente - e o homem disparou na corrida.
- Detenha-o - disse Toranaga tranqüilamente. Buntaro disparou duas setas. O homem tombou agonizante. Num átimo o oficial sacou da espada de duas mãos e saltou para Toranaga com um grito de batalha, mas Buntaro estava preparado e aparou o golpe. Simultaneamente, os marrons e os cinzentos, todos misturados, sacaram as espadas e atacaram. A rua foi engolida em torvelinho pela escaramuça. Buntaro e o oficial golpeavam e se esquivavam. Repentinamente um cinzento separou-se do bando o investiu contra Toranaga, mas Mariko imediatamente agarrou um archote, avançou e atirou-o no rosto do oficial. Buntaro cortou o atacante em dois, depois girou sobre os calcanhares, atirou longe o segundo homem, e derrubou um outro que tentava atingir Toranaga enquanto Mariko retrocedia rapidamente, com uma espada nas mãos agora, os olhos sempre em Toranaga ou em Buntaro, o monstruoso guarda-costas.
Quatro cinzentos se agruparam e se lançaram contra Blackthorne, que ainda estava parado junto da sua liteira. Indefeso, viu-os se aproximar. Yabu e um marrom deram um pulo para interceptá-los, lutando demoniacamente. Blackthorne por sua vez agarrou uma tocha com um salto e, como uma maça rodopiante, momentaneamente deixou os atacantes desnorteados. Yabu matou um deles, desmembrou outro, depois quatro marrons retrocederam para liquidar os dois últimos cinzentos. Sem hesitação, Yabu o marrom ferido se lançaram ao ataque mais uma vez, protegendo Toranaga. Blackthorne avançou, pegou uma arma comprida, meio espada, meio lança, e correu mais para perto de Toranaga. Este era a única pessoa que permanecia imóvel, de espada embainhada, em meio à balbúrdia da rixa.
Os cinzentos lutavam corajosamente. Quatro se uniram para uma investida suicida contra Toranaga. Os marrons esfacelaram o ataque e ganharam mais terreno. Os cinzentos reagruparam-se e atacaram de novo. Depois um superior ordenou que três deles se retirassem e fossem em busca de reforços, e o resto guardasse a retirada deles. Os três cinzentos arrancaram e, embora fossem perseguidos e Buntaro acertasse um, dois escaparam.
O resto morreu.
CAPÍTULO 24
Eles estavam correndo através de ruas desertas, fazendo uma volta para atingir o ancoradouro e a galera. Havia dez deles - Toranaga liderando, Yabu, Mariko, Blackthorne, e seis samurais. O resto, comandado por Buntaro, fora enviado com as liteiras e a bagagem pela estrada prevista, com instruções de rumar com calma para a galera. O corpo de Asa, a criada, encontrava-se numa das liteiras. Durante um momento de trégua na luta, Blackthorne lhe extraíra a flecha farpada. Toranaga vira o sangue escuro que esguichou e vira, desconcertado, quando o piloto a enfaixara ao invés de permitir que ela morresse calmamente com dignidade, e depois, quando a luta cessara inteiramente, a suavidade com que o piloto a colocara dentro da liteira. A garota era corajosa e não se lamuriara em absoluto, só olhara para ele até que a morte viera. Toranaga deixara-a na liteira acortinada como engodo e um dos feridos fora colocado na segunda liteira, também como engodo.
Dos cinqüenta marrons que formavam a escolta, quinze tinham sido mortos e onze mortalmente feridos. Os onze tinham sido rápida e honrosamente encaminhados ao Grande Vazio, três pelas próprias mãos, oito solicitaram a ajuda a Buntaro. Depois Buntaro reunira os remanescentes em torno das liteiras fechadas e partira. Quarenta e oito cinzentos jaziam no pó.
Toranaga sabia que se encontrava perigosamente desprotegido, mas sentia-se contente. Tudo correra bem, pensou ele, considerando as vicissitudes da sorte. Como a vida é interessante! Primeiro pensei que fosse um mau presságio o piloto ter-me visto trocando de lugar com Kiri. Depois o piloto me salvou e comportou-se como um louco à perfeição, e por causa dele escapamos de Ishido. Eu não havia imaginado que Ishido estivesse no portão principal, apenas no adro. Isso foi negligência. Por que Ishido estava lá? Não é próprio dele ser tão cuidadoso. Quem o aconselhou? Kiyama? Onoshi? Ou Yodoko? Uma mulher, sempre prática, poderia suspeitar de um subterfúgio assim.
Era um bom plano - a escapada secreta -, estabelecido há semanas, pois era óbvio que Ishido tentaria mantê-lo no castelo, voltaria os outros regentes contra ele prometendo-lhes qualquer coisa, de bom grado sacrificaria seu refém em Yedo, a Senhora Ochiba, e usaria qualquer meio de mantê-lo sob guarda até a reunião final de regentes, quando ele seria encurralado, impedido e morto.
- Mas eles ainda o impedirão! - dissera Hiromatsu, quando Toranaga mandara chamá-lo logo após o crepúsculo, na véspera, para explicar o que devia ser tentado e por que ele, Toranaga, estivera vacilando. - Mesmo que o senhor escape, os regentes o impedirão pelas costas tão facilmente quanto o farão na sua cara. Depois o senhor será obrigado a cometer seppuku, quando eles o ordenarem, e é certo que ordenarão.