- Sim - dissera Toranaga. - Na qualidade de presidente dos regentes, sou obrigado a fazer isso se os quatro votarem contra mim. Mas aqui - ele tirara da manga um pergaminho enrolado - está a minha renúncia formal ao conselho de regentes. Você a entregará a Ishido quando a minha fuga se tornar conhecida.
- O quê?
- Se eu renuncio deixo de ser obrigado pelo meu juramento de regente. Neh? O taicum nunca me proibiu de renunciar, neh? De isto a Ishido, também - dissera ele, estendendo a Hiromatsu o carimbo, o selo oficial do seu posto de presidente.
- Mas agora o senhor está totalmente isolado. Está condenado!
- Engana-se. Ouça, o testamento do taicum implantou um conselho de cinco regentes no reino. Agora há quatro. Para ser legal, antes que possam exercer o mandato do imperador, os quatro têm que eleger ou designar um novo membro, um quinto, neh? Ishido, Kiyama, Onoshi e Sugiyama têm que concordar, neh? O novo regente não tem que ser aceitável para todos eles? Claro! Agora, companheiro, com quem, no mundo inteiro, esses inimigos concordarão em partilhar o poder supremo? Hem? E enquanto estiverem decidindo, não haverá decisões e...
- Estaremos nos preparando para a guerra, o senhor não terá mais obrigaçoes e poderá soltar um pouco de mel aqui, um pouco de fel ali e esses cagões peludos se devorarão entre si! - dissera Hiromatsu com ímpeto. - Ah, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, o senhor é um homem entre homens. Comerei meu traseiro se o senhor não é o homem mais sábio do globo!
Sim, era um bom plano, pensou Toranaga, e todos desempenharam o seu papeclass="underline" Hiromatsu, Kiri e a minha adorável Sazuko. E agora estão trancados lá e permanecerão assim ou serãoautorizados a partir.
Acho que nunca serão autorizados a partir.
Sentirei em perdê-los.
Liderava o grupo com segurança, com passo rápido mas comedido, o passo com que caçava, o passo que podia manter continuamente por dois dias e uma noite, se necessário. Ainda usava o manto e o quimono de viagem de Kiri, mas as saias estavam arregaçadas.
Cruzaram outra rua deserta e rumaram por uma rua estreita. Ele sabia que logo o alarme chegaria a Ishido e então a caçada seria deflagrada com determinação. Há tempo suficiente, disse ele a si mesmo.
Sim, foi um bom plano. Mas não previ a emboscada. Custoume três dias de segurança. Kiri tinha certeza de poder manter o logro em segredo pelo menos durante três dias. Mas agora o segredo foi descoberto e não poderei embarcar e zarpar despercebido. Para quem era a emboscada? Para mim ou para o piloto? Claro que para o piloto. Mas as setas não visavam as duas liteiras? Sim, mas os arqueiros estavam bem longe e devia ser difícil enxergar, e seria mais sábio e mais seguro matar os dois, só por precaução.
Quem ordenou o ataque, Kiyama ou Onoshi? Ou os portugueses? Ou os padres cristãos?
Toranaga voltou-se para examinar o piloto. Viu que ele não estava esmorecendo, nem a mulher, que caminhava ao seu lado, embora estivessem ambos cansados. No horizonte podia ver a massa atarracada e vasta do castelo e o falo do torreão. Esta noite foi a segunda vez que eu quase morri lá, pensou ele. Será que esse castelo realmente vai ser a minha nemesis? O taicum me dizia com freqüência: "Enquanto o Castelo de Osaka existir,. minha linhagem nunca morrerá e você, Toranaga Minowara, seu epitáfio será escrito em suas paredes. Osaka lhe causará a morte, meu fiel vassalo!" E sempre a risada sibilante, molesta, que o deixava muito nervoso.
Será que o taicum vive em Yaemon? Viva ou não, Yaemon é o herdeiro legal.
Com um esforço, Toranaga desviou os olhos do castelo, dobrou outra esquina e nveredou por um labirinto de alamedas. Finalmente parou diante de um portão gasto pelo tempo. Havia um peixe gravado em suas toras. Ele bateu em código. A porta se abriu de imediato. Instantaneamente um samurai desgrenhado curvou-se.
- Senhor?
- Traga os seus homens e siga-me - disse Toranaga, e pôs-se em movimento de novo.
- Com prazer. - Esse samurai não usava o uniforme marrom, apenas coloridos trapos de ronin, mas fazia parte das tropas de elite secretas que Toranaga havia contrabandeado para Osaka, para o caso de uma emergência assim. Quinze homens, semelhantemente vestidos, e igualmente bem armados, seguiram-no e rapidamente tomaram posição à vanguarda e à retaguarda, enquanto outro abalava para espalhar o alarme para outros destacamentos secretos. Logo Toranaga tinha cinqüenta homens consigo. Mais cem cobriam-lhe os flancos. Mil estariam prontos ao amanhecer, se viesse a precisar deles. Ele descontraiu-se e afrouxou o passo, sentindo que o piloto e a mulher estavam se cansando depressa demais. Precisava deles fortes.
De pé em meio às sombras do depósito, Toranaga estudou a galera, o embarcadouro e a praia. Yabu e um samurai estavam ao seu lado. Os outros reunidos tinham sido deixados a cem passos atrás, na viela.
Um destacamento de cem cinzentos esperava perto da escada de costado da galera a uns cem passos de distância, do outro lado de uma larga extensão de terra batida que impedia qualquer ataque de surpresa. A galera estava atracada a pilares fixados no embarcadouro de pedra que avançava cem jardas para dentro do mar. Os remos estavam armados com cuidado e Toranaga podia ver, indistintamente, muitos marujos e guerreiros no convés.
- São nossos ou deles? - perguntou em voz baixa.
- A distância é muita para se ter certeza – respondeu Yabu.
A maré estava alta. Além da galera, barcos de pesca aproximavam-se e partiam, com lanternas servindo de luzes de âncora e de pesca. Ao norte, ao longo da praia, havia fileiras de barcos de pesca de muitos tamanhos, abicados na areia e cuidados por alguns pescadores. Quinhentos passos ao sul, ao longo de outro embarcadouro de pedra, estava a fragata portuguesa, a Santa Theresa. A luz dos archotes, enxames de carregadores azafamados carregavam barris de fardos. Outro grande grupo de cinzentos espalhava-se à toa por perto. Isso era habitual, porque todos os navios portugueses atracados, e os estrangeiros em geral, deviam, por lei, estar sob perpétua vigilância. Era só em Nagasaki que a navegação portuguesa ocorria livremente.
Se a segurança pudesse ser reforçada lá, todos nós dormiríamos mais seguros à noite, disse Toranaga a si mesmo. Sim, mas poderíamos mantê-los sob estrita vigilância e continuar tendo o comércio com a China em índices sempre crescentes? Isso é uma armadilha dentro da qual os bárbaros meridionais nos têm e de onde não há escapatória, não enquanto os daimios cristãos dominarem Kyushu e os padres forem necessários. O melhor que podemos fazer é o que o taicum fez. Dar um pouco aos bárbaros, fingir tomar de volta, tentar blefar, sabendo que, sem o comércio com a China, a vida seria impossível.
- Com a sua permissão, senhor, atacarei imediatamente - sussurrou o samurai.
- Aconselho o contrário - disse Yabu. - Não sabemos se nossos homens estão a bordo. E poderia haver mil homens escondidos por toda parte aqui. Aqueles homens - apontou para os cinzentos perto do navio português - darão o alarme. Nunca conseguiríamos tomar o navio e zarpar antes que eles nos retivessem. Precisamos de dez vezes o número de homens que temos agora.
- O Senhor Ishido logo estará informado - disse o samurai. - Então Osaka toda estará fervilhando com mais inimigos do que moscas num campo de batalha recente. Tenho cento e cinqüenta homens, contando com os que estão nos nossos flancos. Serão suficientes.
- Não para que tenhamos segurança. Não se os nossos marinheiros não estiverem prontos aos remos. É melhor criar uma situação que desvie a atenção dos cinzentos, e de quaisquer outros que estejam escondidos. Aqueles, também - Yabu apontou novamente para os homens perto da fragata.