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- Que tipo de situação? - perguntou Toranaga.

- Incendiar a rua.

- E impossível! - protestou o samurai, agastado. Incêndio doloso era crime punível com a queima em público de toda a família da pessoa culpada, de cada geração da família. A penalidade era a mais severa, por lei, porque um incêndio era o maior perigo que podia haver para uma aldeia ou cidade do império. Madeira e papel eram os únicos materiais de construção utilizados, com exceção de telhas em alguns telhados. Cada lar, cada depósito, cada choupana e cada palácio era um isqueiro. — Não podemos incendiar a rua!

- O que é mais importante - perguntou Yabu -, a destruição de algumas ruas ou a morte do nosso amo?

- O fogo se alastraria, Yabu-san. Não podemos queimar Osaka. Há um milhão de pessoas aqui, mais que isso.

- É essa a sua resposta à minha pergunta?

Empalidecido, o samurai voltou-se para Toranaga:

- Senhor, farei qualquer coisa que o senhor peça. É isso o que quer que eu faça?

Toranaga limitou-se a olhar para Yabu. O daimio sacudiu o polegar desdenhosamente na direção da cidade.

- Há dois anos a metade dela se incendiou e olhe agora. Há cinco anos foi o Grande Incêndio. Quantas centenas de milhares se perderam então? O que isso importa? São apenas lojistas, mercadores, artesãos, e etas. Não é como se Osaka fosse uma aldeia cheia de camponeses.

Toranaga havia avaliado o vento de há muito. Era leve e não alastraria o fogo. Talvez. Mas uma labareda podia facilmente transformar-se num holocausto, que devoraria a cidade inteira. Exceto o castelo. Ah, se fosse apenas consumir o castelo, eu não hesitaria nem um momento.

Girou sobre os calcanhares e voltou-se para os outros.

- Mariko-san, leve o piloto e nossos seis samurais e vá para a galera. Finja estar quase em pânico. Diga aos cinzentos que houve uma emboscada, de bandidos ou ronins, você não tem certeza. Diga-lhes onde aconteceu, que você foi mandada na frente com urgência pelo capitão da nossa escolta de cinzentos para levar mais cinzentos como ajuda, que a batalha ainda não terminou, que você acha que Kiritsubo foi morta ou ferida. Que eles se apressem, por favor. Se você for convincente, isso afastará daqui a maior parte deles.

- Compreendi perfeitamente, senhor.

- Depois, não importa o que os cinzentos façam, vá para bordo com o piloto. Se nossos marinheiros estiverem lá e o navio seguro e protegido, volte à escada de embarque e finja desmaiar. Esse é o nosso sinal. Faça isso exatamente no topo da escada. - Toranaga pousou os olhos em Blackthorne. - Diga-lhe o que você vai fazer, mas não que você vai desmaiar. - Afastou-se para dar ordens ao resto de seus homens e instruções especiais aos seis samurais.

Quando Toranaga terminou, Yabu puxou-o de parte.

- Por que mandar o bárbaro? Não seria mais seguro deixá-lo aqui? Mais seguro para o senhor?

- Mais seguro para ele, Yabu-san, mas não para mim. Ele é um ardil útil.

- Incendiar a rua seria ainda mais seguro.

- Sim. - Toranaga pensou que era melhor ter Yabu ao seu lado do que ao lado de Ishido. Ainda bem que não o fiz pular da torre ontem.

- Senhor?

- Sim, Mariko-san?

- Desculpe, mas o Anjin-san perguntou o que vai acontecer se o navio estiver em poder do inimigo.

- Diga-lhe que não precisa ir com você se não for forte o suficiente.

Blackthorne conservou a calma quando ela lhe disse o que Toranaga mandara.

- Diga ao Senhor Toranaga que o plano dele não é bom para a senhora, que a senhora devia ficar aqui. Se tudo estiver bem, eu posso dar o sinal.

- Não posso fazer isso, Anjin-san, não é o que o nosso amo ordenou - disse-lhe Mariko com firmeza. - Qualquer plano idealizado por ele com certeza é muito sábio.

Blackthorne entendeu que não havia sentido em discutir. Deus amaldiçoe a arrogância sanguinária e teimosa deles, pensou. Mas, por Deus, que coragem eles têm! Os homens e esta mulher!

Ele a observara na emboscada, empunhando a longa espada que tinha quase o mesmo tamanho que ela, pronta para lutar até a morte por Toranaga. Vira-a usar a espada uma vez, com perícia, e embora fosse Buntaro quem tivesse matado o atacante, ela lhe tornara isso mais fácil, forçando o homem a recuar. Ainda havia sangue em seu quimono agora, rasgado em alguns lugares. Seu rosto estava sujo.

- Onde aprendeu a usar a espada? - perguntara-lhe enquanto se apressavam na direção do embarcadouro.

- O senhor devia saber que todas as senhoras samurais aprendem bem cedo a usar uma faca para defender a própria honra e a de seus senhores - dissera ela simplesmente, e mostrara-lhe como o estilete era guardado no obi, pronto para uso imediato. - Mas algumas de nós, poucas, também aprendem a usar espada e lança, Anjin-san. Alguns pais acham que as filhas, assim como os filhos, devem ser preparadas para a batalha pelos seus senhores. Claro que algumas são mais belicosas do que outras e apreciam ir à batalha com o marido ou o pai. Minha mãe era assim. Meu pai e ela resolveram que eu devia conhecer a espada e a lança.

- Não fosse o capitão dos cinzentos estar no caminho, a primeira seta teria ido bem na sua direção - dissera ele.

- Na sua direção, Anjin-san - corrigira ela, muito segura. - Mas o senhor realmente me salvou a vida puxando-me para a segurança.

Agora, olhando para ela, soube que não gostaria que nada lhe acontecesse.

- Deixe-me ir com os samurais, Mariko-san. A senhora fica aqui. Por favor.

- Isso não é possível, Anjin-san.

- Então quero uma faca. Melhor ainda, dê-me duas.

Ela passou o pedido a Toranaga, que concordou. Blackthorne escorregou uma por sob o sash, dentro do quimono. A outra, amarrou-a com o cabo para baixo na face interna do antebraço com uma tira de seda que rasgou da bainha do quimono.

- Meu amo pergunta se todos os ingleses portam facas secretamente na manga assim.

- Não. Mas muitos marujos sim.

- Não é comum aqui, nem com os portugueses - disse ela.

- O melhor lugar para uma faca sobressalente é a bota. Então se pode causar um dano bem sério, muito depressa. Se necessário.

Ela traduziu isso e Blackthorne notou os olhos atentos de Toranaga e Yabu, e sentiu que os dois não gostaram da idéia de vê-lo armado. Bom, pensou ele. Talvez eu possa continuar armado.

Novamente sentiu curiosidade em relação a Toranaga. Depois que a emboscada fora repelida e os cinzentos mortos, Toranaga, através de Mariko, lhe agradecera diante de todos os marrons pela sua "lealdade". Mais nada. Nenhuma promessa, nenhum acordo, nenhuma recompensa. Mas Blackthorne sabia que isso viria mais tarde. O velho monge lhe dissera que a lealdade era a única coisa que eles recompensavam.

- Lealdade e dever, señor - dissera -, é o culto deles, esse bushido. Enquanto nós damos a vida a Deus e a seu abençoado filho Jesus, e a Maria, mãe de Deus, esses animais se dão a seus amos e morrem como cães. Lembre-se, señor, pela salvação da sua alma, de que são animais.

Não são animais, pensou Blackthorne. E muito do que o senhor disse, padre, é um erro e um exagero fanático.

- Precisamos de um sinal que diga se o navio é seguro ou não - disse a Mariko.

Novamente ela traduziu, inocentemente desta vez.

- O Senhor Toranaga diz que um dos nossos soldados fará isso.

- Não vejo bravura em mandar uma mulher para fazer o serviço de um homem.

- Por favor, seja paciente conosco, Anjin-san. Não há diferença entre homens e mulheres. As mulheres são iguais, enquanto samurais. Neste plano uma mulher seria muito melhor do que um homem.

Toranaga disse concisamente alguma coisa a ela.

- Está pronto, Anjin-san? Devemos ir agora.

- O plano é péssimo e perigoso e estou cansado de ser um maldito pato depenado sacrifical, mas estou pronto.

Ela riu, curvou-se para Toranaga, e saiu correndo. Blackthorne e os seis samurais correram atrás dela.

Ela foi muito veloz e ele não a alcançou quando dobraram a esquina e rumaram para espaço aberto. Nunca se sentira tão vulnerável. No momento em que apareceram, os cinzentos os localizaram e arremeteram. Logo estavam cercados, Mariko palrando febrilmente com os samurais e os cinzentos. Depois ele também se juntou à babel numa arquejante mistura de português, inglês e holandês, gesticulando para que se apressassem, e tateou na direção da escada de embarque a fim de se encostar nela, precisando fingir estar sem fôlego. Tentou ver dentro do navio, mas não conseguiu distinguir nada, apenas muitas cabeças aparecendo à amurada. Viu o crânio raspado de muitos samurais e muitos marujos. Não conseguiu discernir a cor dos quimonos.