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Atrás dele um dos cinzentos lhe falava rapidamente e ele voltou-se dizendo que não compreendia, que ele fosse para lá, depressa, para onde estava acontecendo a maldita batalha.

- Wakarimasu ka? Ponha o seu traseiro rabudo para fora daqui! Wakarimasu ka? A luta é lá!

Mariko derramava freneticamente uma enxurrada de palavras sobre o oficial superior dos cinzentos. O oficial encaminhou-se de volta ao navio e gritou ordens. Imediatamente mais de cem samurais, todos cinzentos, começaram a brotar do navio. O oficial mandou alguns para norte, ao longo da praia, para interceptar os feridos e ajudá-los se necessário. Um foi enviado às pressas para buscar ajuda dos cinzentos da galera portuguesa. Deixando dez homens para trás a fim de guardar a escada de embarque, comandou os demais numa investida à rua que subia coleando do embarcadouro, rumo à cidade propriamente dita.

Mariko aproximou-se de Blackthorne.

- O navio lhe parece em ordem? - perguntou.

- Está flutuando. - Com um grande esforço Blackthorne agarrou as cordas da escada e se içou para o convés. Mariko seguiu-o. Dois marrons vieram atrás dela.

Os marujos que se amontoavam junto à amurada de bombordo abriram caminho. Quatro cinzentos guardavam o tombadilho e havia mais dois na popa. Estavam todos armados de arco e flechas, assim como de espadas.

Mariko interrogou um dos marinheiros. O homem respondeu-lhe serviçalmente.

- São todos marinheiros contratados para levar Kiritsubo-san para Yedo - disse a Blackthorne.

- Pergunte-lhe... - Blackthorne parou ao reconhecer o pequeno e atarracado imediato que fizera capitão da galera depois da tempestade.

- Konbanwa, capitão-san! Boa noite.

- Konbanwa, Anjin-san. Watashi iyé capitão-san ima - retrucou o imediato com um sorriso, abanando a cabeça. Apontou para um marinheiro baixinho com o cabelo cinza-ferro preso numa cauda eriçada, que se erguia sozinho no tombadilho. - Imasu capitão-san!

- Ah, so desu? Halloa, capitão-san! - disse alto Blackthorne, curvando-se. Baixando a voz, disse a Mariko: - Descubra

se há cinzentos lá embaixo.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o capitão estava

retribuindo a mesura e gritava ao imediato. Este assentiu e respondeu pormenorizadamente. Alguns dos marinheiros também expressaram seu assentimento. O capitão e todos a bordo estavam muito impressionados.

- Ah, so desu, Anjin-san! - Então o capitão gritou: - Keirei! Saudação! - Todos a bordo, exceto os samurais, curvaram-se para Blackthorne em saudação.

- Este imediato disse ao capitão que o senhor salvou o navio durante a tempestade - disse Mariko. - O senhor não nos contou sobre a tempestade nem sobre a sua viagem.

- Há pouco que contar. Foi apenas mais uma tempestade. Por favor, agradeça ao capitão e diga-lhe que estou feliz por me encontrar a bordo de novo. Pergunte-lhe se estamos prontos para partir quando os outros chegarem. - E acrescentou em voz baixa: - Descubra se há mais cinzentos lá embaixo.

Ela fez conforme o ordenado.

O capitão aproximou-se e ela pediu mais informações e depois, pegando a deixa do capitão sobre a importância de Blackthorne a bordo, curvou-se para Blackthorne:

- Anjin-san, ele lhe agradece pela vida de seu navio e diz que estão prontos - e mais baixo: - quanto ao resto, ele não sabe.

Blackthorne deu uma olhada na praia. Não havia sinal de Buntaro nem da coluna ao norte. Os samurais enviados ao sul, na direção do Santa Theresa, ainda se encontravam a umas cem jardas do seu destino, ainda despercebidos.

- E agora? - disse ele, quando já não conseguia agüentar a espera.

O navio está seguro? Resolva-se, dizia ela a si mesma.

- Aquele homem chegará lá a qualquer momento - disse ele, olhando para a fragata.

- O quê?

Ele apontou.

- Aquele... o samurai!

- Que samurai? Desculpe, não consigo enxergar a essa distância, Anjin-san. Posso ver tudo no navio, embora os cinzentos na dianteira do navio estejam nebulosos. Que homem?

Ele lhe disse, acrescentando em latim:

- Agora ele está a uns cinqüenta passos de distância. Foi visto. Precisamos de ajuda seriamente. Quem dá o sinal? Deve ser dado rapidamente!

- Meu marido, há algum sinal dele? - perguntou ela em português.

Ele meneou a cabeça.

Dezesseis cinzentos erguem-se entre meu amo e a segurança, pensou ela. Oh, minha Nossa Senhora, proteja-o!

Então, encomendando a alma a Deus, receosa de estar tomando a decisão errada, ela se dirigiu debilmente para o topo da escada de embarque e fingiu desmaiar.

Blackthorne foi pego de surpresa. Viu a cabeça dela bater desagradavelmente contra os sarrafos de madeira. Os marinheiros começaram a se aglomerar, cinzentos convergiram do ancoradouro e dos conveses, enquanto ele acorria. Levantou-a e carregou-a por entre os homens, para o tombadilho.

- Tragam água... água, hai?

Os marujos olhavam-no sem compreender. Desesperado, ele rebuscou na memória à procura da palavra japonesa. O velho monge lhe dissera cinqüenta vezes. Cristo, como é?

- Oh... mizu, mizu, hai?

- Ah, mizu! Hai, Anjin-san. - Um homem se afastou às carreiras. Houve um súbito grito de alarme.

Em terra, trinta dos samurais de Toranaga disfarçados de ronins vinham disparados da viela. Os cinzentos que haviam começado a deixar o cais voltaram às pressas para junto da escada.

Os que estavam no tombadilho e na popa espicharam o pescoço para ver melhor. Abruptamente um gritou ordens. Os arqueiros armaram os arcos. Todos os samurais, marrons e cinzentos lá embaixo, sacaram as espadas, e muitos acorreram de volta ao molhe.

- Bandidos! - gritou um dos marrons, seguindo o plano. Imediatamente os dois marrons no convés se separaram, um indo para a frente, outro para a popa. Os quatro em terra se desdobraram em leque, misturando-se com os cinzentos à espera.

- Alto!

Os samurais ronins de Toranaga investiram. Uma seta atingiu um homem no peito e ele caiu pesadamente. Instantaneamente o marrom na popa matou o arqueiro cinzento e se lançou sobre o outro, mas este foi mais rápido e eles travaram espadas, o cinzento gritando uma advertência de traição aos outros. O marrom no tombadilho de popa havia mutilado um dos cinzentos, mas os outros tres o liquidaram rapidamente e correram para o topo da escada, marujos se dispersando. Os samurais no embarcadouro lutavam encarniçadamente, com os cinzentos sobrepujando os quatro marrons, sabendo que tinham sido traídos e que, a qualquer momento, também eles seriam engolidos pelos atacantes. O líder dos cinzentos no convés, um homenzarrão violento de barba grisalha, encarou Blackthorne e Mariko.

- Matem os traidores! - vociferou ele e, com um grito de batalha, arremeteu.

Blackthorne vira-os olhar para Mariko, ainda deitada no seu desmaio, todos com a morte nos olhos, e entendeu que, se não conseguisse auxílio depressa, logo estariam ambos mortos, e que o auxílio não viria dos marujos. Ele se lembrou de que apenas samurais podiam lutar com samurais. Deslizou a faca para a mão o arremessou-a num arco. Atingiu o samurai na garganta. Os outros dois cinzentos arremeteram contra Blackthorne, espada em riste. Ele empunhou a segunda faca e fincou pé junto de Mariko, sabendo que não ousaria deixá-la desprotegida. Olhando de soslaio, viu que a batalha pela escada de costado estava quase vencida. Apenas três cinzentos ainda defendiam a ponte, apenas esses três impediam o auxílio de afluir para bordo. Se ele pudesse continuar vivo por menos de um minuto, estaria salvo, e ela também. Matem-nos, matem os bastardos!