Sentiu, mais do que viu, a espada descendo sobre a garganta o pulou para trás, para fora do caminho da arma. Um cinzento tentara transpassá-lo, enquanto o outro, hesitante, atacava Mariko, espada erguida. Nesse momento Blackthorne viu Mariko recobrar os sentidos. Ela se atirou contra as pernas do desprevenido samurai, fazendo-o estatelar-se no convés. Depois, arrastando-se por sobre o cinzento morto, agarrou-lhe a espada da mão que ainda se contraía e investiu contra o guarda com iim grito. O cinzento se pusera em pé de novo e, urrando de raiva, atacou-a. Ela recuou o golpeou bravamente, mas Blackthorne sabia que ela estava perdida, já que o homem era forte demais. De algum modo Blackthorne evitou outro golpe mortal do seu próprio antagonista, afastou-o com um pontapé e lançou a faca contra o atacante de Mariko. Acertou o homem nas costas, fazendo-o desviar-se do alvo. Logo em seguida Blackthorne se viu no tombadilho, indefeso e encurralado, um cinzento saltando os degraus na sua direção, o outro, que acabara de vencer a luta na popa, correndo para cima dele ao longo do convés. Ele saltou para a amurada e a segurança do mar, mas escorregou no convés molhado de sangue.
Mariko, lívida, fitava de olhos arregalados o imenso samurai que ainda a tinha acuada, oscilando sobre os pés, sua vida escoando-se depressa, mas não depressa o bastante. Ela o atacou com todas as forças, mas ele aparou o golpe, segurou-lhe a espada e arrancou-lhe a arma das mãos. Reuniu suas últimas forças e deu o bote no momento em que os samurais ronins irromperam pela escada acima, por sobre os cinzentos mortos. Um se atracou ao atacante de Mariko, outro disparou uma seta na direção do tombadilho.
A seta dilacerou as costas do cinzento, fazendo-o perder o equilíbrio com violência, e sua espada desviou-se de Blackthorne, indo atingir a amurada. Com dificuldade Blackthorne tentou se afastar, mas o homem alcançou-o, arrastou-o para o convés e cravou-lhe os dedos nos olhos. Outra seta atingiu o segundo cinzento no ombro e ele largou a espada, gritando de dor e raiva, tentando em vão arrancar a flecha. Uma terceira seta fê-lo contorcer-se. O sangue jorrou-lhe da boca aos borbotões e, sufocado, os olhos vítreos, o samurai tateou rumo a Blackthorne e caiu sobre ele quando o último cinzento chegou para a matança, uma curta faca pontuda nas mãos. Desferiu o golpe, Blackthorne indefeso, mas uma mão amiga segurou o braço da faca, depois a cabeça do inimigo desapareceu de cima do pescoço, cedendo lugar a um jorro de sangue. Os dois cadáveres foram puxados de cima de Blackthorne e ele foi posto de pé. Enxugando o sangue do rosto, viu vagamente que Mariko estava estendida no convés, samurais ronins agitando-se em torno dela. Ele se soltou dos que o ajudavam e cambaleou na direção dela, mas seus joelhos cederam e ele desabou.
CAPÍTULO 25
Blackthorne levou uns bons dez minutos para recuperar forças suficientes que lhe permitissem erguer-se sem auxilio. Nesse meio tempo os samurais ronins liquidaram os feridos graves e lançaram todos os cadáveres ao mar. Os seis marrons haviam perecido, e todos os cinzentos. Limparam o navio e deixaram-no pronto para partida imediata; puseram os marujos aos remos e postaram alguns junto dos pilares, esperando para soltar as cordas de atracação. Todos os archotes tinham sido apagados. Alguns samurais foram mandados para patrulhar a praia ao norte, a fim de interceptar Buntaro. O grosso dos homens de Toranaga correu na direção sul, para um quebra-mar de pedra, a uns duzentos passos de distância, onde tomaram uma forte posição de defesa contra os cem cinzentos da fragata que, tendo visto o ataque, aproximavam-se velozmente.
Quando todos a bordo tinham sido conferidos e reconferidos, o líder pos as mãos em concha em torno dos lábios e chamou na direção da praia. Imediatamente mais samurais disfarçados de ronins, comandados por Yabu, saíram da noite e se desdobraram em escudos protetores, a norte e a sul. Depois Toranaga apareceu e começou a caminhar lentamente na direção da escada de embarque, sozinho. Descartara-se do quimono de mulher e da capa escura de viagem, e removera a maquilagem. Agora usava a sua armadura, e sobre ela um quimono marrom simples, espadas ao sash. A brecha atrás dele era fechada pelos últimos dos seus guardas e a falange movia-se com passo comedido rumo ao molhe.
Bastardo, pensou Blackthorne. Você é um bastardo cruel, de tripas geladas, sem coração, mas tem majestade, não há dúvida.
Vira Mariko ser carregada para baixo, ajudada por uma jovem, e presumira que estivesse ferida, mas não gravemente, por que todos os samurais com ferimentos graves eram mortos imediatamente, se quisessem, ou se não pudessem se matar, e ela era samurai.
Tinha as mãos muito fracas, mas agarrou o leme, aprumou-se ajudado por um marinheiro, e sentiu-se melhor, a leve brisa dissipando os vestígios de náusea. Ainda atordoado, oscilando sobre os pés, observou Toranaga.
Houve um súbito clarão vindo do torreão e o débil ecoar de sinos de alarme. Depois, dos muros do castelo, fogos começaram a se lançar para as estrelas. Fogos de aviso.
Jesus Cristo, eles devem ter recebido a notícia, devem ter sabido da fuga de Toranaga.
Em meio ao grande silêncio, viu Toranaga olhar para trás e para cima. Luzes começaram a bruxulear por toda a cidade. Sem pressa, Toranaga voltou-se e subiu a bordo.
Do norte, gritos distantes desciam com o vento. Buntaro! Deve ser ele, com o resto da coluna. Blackthorne perscrutou a escuridão à distância, mas não conseguiu ver nada. Ao sul a brecha entre os cinzentos atacantes e os marrons defensores estava se fechando rapidamente. Blackthorne avaliou quantidades. Mais ou menos iguais no momento. Mas por quanto tempo?
- Keirei! - Todos a bordo se ajoelharam e se curvaram profundamente quando Toranaga veio ao convés. Toranaga fez um gesto a Yabu, que o seguia. Imediatamente Yabu tomou o comando, dando ordens para zarpar. Cinqüenta samurais da falange subiram correndo a escada de embarque para tomar posições de defesa, de frente para a praia, armando os arcos.
Blackthorne sentiu alguém puxar-lhe a manga.
- Anjin-san!
- Hai? - Olhou para o rosto do capitão. O homem proferiu uma torrente de palavras, apontando para o leme. Blackthorne percebeu que o capitão presumia que ele estivesse no comando e pedia permissão para zarpar.
- Hai, capitão-san - respondeu. - Levantar ferros! Isogi! - Sim, depressa, disse a si mesmo, perguntando-se como conseguira lembrar a palavra tão facilmente.
A galera afastou-se lentamente do molhe, ajudada pelo vento e impelida pelos hábeis remadores. Então Blackthorne viu os cinzentos atacarem o quebra-mar, e o violento assalto começou. Naquele instante, saindo da escuridão por trás de um alinhamento de botes encalhados na areia surgiram três homens e uma jovem enredados num combate de retirada com nove cinzentos. Blackthorne reconheceu Buntaro e a jovem Sono.
Buntaro liderava a retirada para o molhe, a espada ensangüentada, setas fincadas na armadura sobre o peito e as costas. A garota estava armada com uma lança, mas cambaleava, sem fôlego. Um dos marrons parou corajosamente para cobrir a retirada. Os cinzentos o engoliram. Buntaro subiu correndo os degraus, a garota ao lado dele com o último marrom, depois se voltou e atacou os cinzentos como um touro enlouquecido. Os dois primeiros foram arremessados para fora do ancoradouro: um quebrou as costas contra as pedras embaixo, o outro caiu berrando, sem o braço direito. Os cinzentos hesitaram momentaneamente, dando à jovem tempo para assestar a lança, mas todos a bordo sabiam que era apenas um gesto. O último marrom se precipitou à frente do amo e se lançou de cabeça contra o inimigo. Os cinzentos o liquidaram, depois atacaram maciçamente.