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Arqueiros do navio disparavam saraivada atrás de saraivada, matando ou mutilando todos os cinzentos menos dois. Uma espada ricocheteou no elmo de Buntaro e bateu-lhe no ombro da armadura. Buntaro golpeou o cinzento sob o queixo com o antebraço protegido de armadura, quebrando-lhe o pescoço, e se atirou contra o último.

Esse homem também morreu.

A garota estava de joelhos agora, tentando recobrar o fôlego. Buntaro não perdeu tempo certificando-se de que os cinzentos estavam mortos. Simplesmente decepou-lhes a cabeça com golpes únicos, perfeitos, e depois, quando o molhe estava completamente seguro, voltou-se para o mar, acenou para Toranaga, exausto mas feliz. Toranaga retribuiu o aceno, igualmente satisfeito.

O navio estava a vinte jardas do molhe e a brecha continuava se alargando.

- Capitão-san - chamou Blackthorne, gesticulando com urgência -, volte ao ancoradouro! Isogi!

Obediente, o capitão gritou as ordens. Todos os remos pararam e começaram a se mover em sentido contrário. Imediatamente Yabu arremeteu do outro lado do tombadilho e falou energicamente ao capitão. A ordem foi clara. O navio não devia retornar.

- Há muito tempo, pelo amor de Cristo! Olhe! - Blackthorne apontou para o trecho de terra batida, vazio, e o quebramar, onde os ronins estavam mantendo os cinzentos cercados.

Mas Yabu balançou a cabeça.

O afastamento era de trinta jardas agora e a mente de Blackthorne gritava: o que é que há com você? Aquele é Buntaro, o marido dela!

- Você não pode deixá-lo morrer, é um dos nossos! - gritou para Yabu e para o navio. - Ele! Buntaro! - Voltou-se para o capitão. - De volta para lá. Isogi! - Mas desta vez o marujo meneou a cabeça, sem ação, manteve a rota de fuga e o mestre remador continuou a bater no grande tambor.

Blackthorne correu para Toranaga, que estava de costas para ele, estudando a praia e o ancoradouro. Imediatamente quatro samurais guarda-costas se puseram no caminho do piloto, espadas levantadas. Ele chamou:

- Toranaga-sama! Dozo! Ordene que o navio volte! Lá! Dozo - por favor! Volte!

- Iyé, Anjin-san. - Toranaga apontou uma vez para os archotes de aviso no castelo e uma vez para o quebra-mar, e deulhe as costas de novo com determinação.

- Por que você, seu covarde de merda... - começou Blackthorne, mas parou. Saiu correndo para a amurada e se debruçou. - Naaaaadem! - gritou ele, fazendo os gestos. - Nadem, pelo amor de Cristo!

Buntaro compreendeu. Pôs a jovem em pé, falou-lhe e empurrou-a ligeiramente na direção da beirada do ancoradouro, mas ela gritou e caiu de joelhos diante dele. Obviamente não sabia nadar.

Desesperadamente Blackthorne esquadrinhou o convés. Não havia tempo para descer um bote. A distância era muita para atirar uma corda. Ele não tinha forças suficientes para nadar até lá e voltar. Não havia salva-vidas. Como um último recurso, correu para os remadores mais próximos, dois a cada grande remo, e interrompeu-lhes o movimento. Todos os remos a bombordo ficaram momentaneamente fora de tempo, remo batendo contra remo. A galera girou desajeitadamente, a batida parou, e Blackthorne mostrou aos remadores o que queria.

Dois samurais avançaram para contê-lo, mas Toranaga ordenou-lhes que se afastassem.

Juntos, Blackthorne e quatro marujos atiraram um remo como um dardo. A madeira planou um instante, depois chocou-se com a água habilmente, e o seu impulso carregou-a para o ancoradouro.

Naquele momento houve um grito de vitória no quebra-mar. Reforços de cinzentos afluíam rapidamente da cidade e, embora os samurais ronins estivessem rechaçando os atacantes presentes, era apenas uma questão de tempo para que o muro fosse rompido.

- Vamos - gritou Blackthorne. - Isogiiiii!

Buntaro puxou a garota, fazendo-a levantar-se, apontou para o remo e depois para o navio. Ela se curvou debilmente. Ele a ignorou e voltou toda a atenção para a batalha, suas pernas imensas firmes sobre o molhe.

A garota chamou alguém no navio. Uma voz de mulher respondeu e ela pulou. Sua cabeça feriu a superfície. Ela se debateu na direção do remo e agarrou-o. Ele lhe agüentou o peso com facilidade e ela deu impulso com as pernas. Uma pequena onda apanhou-a, Sono flutuou sobre ela com segurança e se aproximou mais da galera. Então o medo fez que afrouxasse o aperto e o remo escorregou para longe. Ela se debateu por um momento interminável, depois desapareceu abaixo da superfície.

Não voltou mais.

Buntaro estava sozinho agora sobre o ancoradouro e observava a evolução da batalha. Mais cinzentos de reforço, alguns a cavalo, vinham do sul para se unir aos outros e ele sabia que logo o quebra-mar seria tragado por um mar de homens. Cuidadosamente olhou para o norte, oeste e sul. Depois deu as costas à batalha e se dirigiu para a ponta do molhe. A galera estava seguramente a setenta jardas dessa extremidade, parada, esperando. Todos os barcos de pesca haviam sumido da área há muito tempo e esperavam tão longe quanto possível de ambos os lados da enseada, suas luzes de âncora parecendo inúmeros olhos de gatos na escuridão.

Quando atingiu o fim do cais, Buntaro tirou o elmo, o arco, a aljava e a armadura, e colocou tudo ao lado das bainhas. A espada mortífera e a espada curta, nuas, ele as colocou separadamente. Depois, despido até a cintura, apanhou seu equipamento e atirou-o ao mar. Examinou reverentemente a espada mortífera, depois jogou-a com toda a força, bem longe. Desapareceu quase sem ruído.

Ele se curvou formalmente para a galera, para Toranaga, que se dirigiu imediatamente para o tombadilho, onde podia ser visto. Retribuiu a reverência.

Buntaro ajoelhou-se e colocou a espada curta cuidadosamente sobre a pedra à sua frente, o luar rutilando sobre a lâmina, e ficou imóvel, quase que como em oração, encarando a galera.

- Que diabos ele está esperando? - resmungou Blackthorne, a galera lugubremente silenciosa sem a batida do tambor.

- Por que não pula e nada?

- Está se preparando para cometer seppuku.

Mariko estava em pé ao seu lado, sustentada por uma jovem.

- Jesus, Mariko, a senhora está bem?

- Sim - disse ela, mal o ouvindo, o rosto abatido mas nem por isso menos belo.

Ele viu a atadura grosseira no seu braço esquerdo perto do ombro onde a manga fora cortada, o braço descansando numa tipóia de tecido rasgado de um quimono. Havia sangue manchando a atadura e um filete correndo-lhe pelo braço.

- Estou muito contente... - Então apreendeu o que ela dissera.

- Seppuku? Ele vai se matar? Por quê? Ele tem tempo de sobra para chegar até aqui! Se não souber nadar, olhe... há um remo que lhe servirá facilmente de apoio. Ali, perto do molhe, está vendo? A senhora não ve?

- Sim, mas meu marido sabe nadar, Anjin-san - disse ela.

- Todos os oficiais do Senhor Toranaga devem... devem aprender, ele insiste. Mas resolveu não nadar.

- Pelo amor de Cristo, por quê?

Uma súbita agitação irrompeu na praia, alguns mosquetes dispararam, e o muro foi rompido. Alguns dos samurais ronins recuaram e o feroz combate individual começou de novo. Desta vez a ponta de lança do inimigo foi contida, e repelida.

- Diga-lhe que nade, por Deus

- Ele não fará isso, Anjin-san. Está se preparando para morrer.

- Se quer morrer, pelo amor de Cristo, por que não vai para lá? - perguntou Blackthorne, de dedo em riste para a luta. - Por que não ajuda os seus homens? Se quer morrer, por que não morre lutando, como um homem?

Mariko, sempre apoiada à jovem, não desviou o olhar do ancoradouro.