- Porque poderia ser capturado, e se nadasse também poderia ser capturado, e depois o inimigo o exibiria diante do povo comum, o envergonharia, faria coisas terríveis. Um samurai não pode ser capturado e permanecer samurai... a pior desonra, ser capturado por um inimigo, por isso meu marido está fazendo o que um homem, um samurai, deve fazer. Um samurai morre com dignidade. Pois o que é a vida para um samurai? Nada em absoluto. A vida é sofrimento, neh? É direito e dever dele morrer com honra, diante de testemunhas.
- Que desperdício estúpido! - disse Blackthorne por entre dentes.
- Seja paciente conosco, Anjin-san.
- Paciente para quê? Para mais mentiras? Por que a senhora não confia em mim? Não mereci isso? A senhora mentiu, não mentiu? Fingiu desmaiar e isso era um sinal. Não era? Eu lhe perguntei e a senhora mentiu.
- Recebi ordens... foi uma ordem para protegê-lo. Claro que confio no senhor.
- A senhora mentiu - disse ele, sabendo que não estava sendo razoável, mas perdera o controle, abominando a insana desconsideração para com a vida e ansiando por sono e paz, ansiando pela sua própria comida, sua própria bebida, seu próprio barco e sua própria espécie. - Voces são todos animais - disse ele em inglês, sabendo que não eram, e se afastou.
- O que ele estava dizendo, Mariko-san? - perguntou a jovem, a muito custo disfarçando a própria repugnância. Era meia cabeça mais alta do que Mariko, de ossatura maior, de rosto quadrado com pequenos dentes pontiagudos. Era Usagi Fujiko, sobrinha de Mariko, e tinha dezenove anos.
Mariko contou-lhe.
- Que homem horrível! Que maneiras abomináveis! Repulsivo, neh? Como a senhora tolera estar perto dele?
- Porque salvou a honra do nosso amo. Sem a sua bravura, estou certa de que o Senhor Toranaga teria sido capturado... nós todos teríamos sido capturados. - As duas mulheres estremeceram.
- Os deuses nos protejam dessa vergonha! - Fujiko deu uma olhada em Blackthorne, que estava encostado à amurada do convés, olhando a praia. Observou um momento. - Ele parece um gorila dourado com olhos azuis... uma criatura para assustar as crianças. Horrendo, neh? - Fujiko teve um calafrio, desviou a atenção dele e olhou novamente para Buntaro. Após um momento, disse: - Invejo seu marido, Mariko-san.
- Sim - respondeu Mariko tristemente. - Mas gostaria que ele tivesse um assistente. - Por costume outro samurai sempre assistia a um seppuku, erguendo-se logo atrás do homem ajoelhado, para decapitá-lo com um único golpe antes que a agonia se tornasse insuportável e incontrolável e portanto envergonhasse o homem no momento supremo da sua vida. Sem um auxiliar, poucos homens conseguiam morrer sem desonra.
- Karma - disse Fujiko.
- Sim. Tenho pena dele. Era a única coisa que temia: não ter um assistente.
- Temos mais sorte do que os homens, neh? - As mulheres samurais cometiam seppuku enfiando a faca na garganta e por isso não precisavam de assisténcia.
- Sim - disse Mariko.
Berros e gritos de batalha vieram soprados pelo vento, distraindo-os. O quebra-mar foi novamente rompido. Uma pequena companhia de cinqüenta samurais ronins de Toranaga surgiu em disparada do norte, com alguns cavaleiros entre eles. Novamente a ruptura foi ferozmente contida, os atacantes rechaçados e mais alguns momentos ganhos.
Tempo para que? estava se perguntando Blackthorne com amargura. Toranaga está seguro agora. Está ao mar. Traiu a todos vocês.
O tambor começou de novo.
Os remos feriram a água, a proa afundou e começou a cortar as ondas, e logo surgiu um sulco à ré. Fogos de aviso ainda ardiam em cima dos muros do castelo. Quase toda a cidade estava desperta.
A massa principal de cinzentos atacou o quebra-mar. Os olhos de Blackthorne dirigiram-se para Buntaro.
- Seu pobre bastardo! - disse em ingles. - Pobre e estúpido bastardo!
Girou sobre os calcanhares e caminhou ao longo do convés principal, em direção à proa, à espreita de recifes à frente. Ninguém, exceto Fujiko e o capitão, notou-o afastando-se do tombadilho.
Os remadores puxavam com excelente disciplina e o navio avançava. O mar estava excelente, o vento favorável. Blackthorne provou o sal e sentiu-o com alegria. Então detectou os navios aglomerados à boca da enseada, meia légua à frente. Barcos de pesca, sim, mas apinhados de samurais.
- Estamos enrascados - disse em voz alta, sabendo de algum modo que se tratava de inimigos.
Blackthorne olhou para trás. Os cinzentos calmamente escalavam o quebra-mar, enquanto outros rumavam sem pressa para o molhe, em direção de Buntaro, mas quatro cavaleiros - marrons - surgiram a galope pelo trecho de terra batida, vindos do norte, com um quinto cavalo, um cavalo sobressalente, puxado pelo comandante. Esse homem subiu com estrépito os largos degraus de pedra do embarcadouro com o cavalo sobressalente e percorreu-lhe toda a extensão enquanto os outros tres se atiravam contra os cinzentos invasores.
Buntaro também havia olhado em torno, mas permanecia ajoelhado e, quando o homem susteve as rédeas atrás dele, afastou-o com um gesto e segurou a faca com ambas as mãos, a lâmina voltada para o corpo.
Imediatamente Toranaga pôs as mãos em concha e gritou:
- Buntaro-san! Vá com eles agora! Tente escapar!
O grito estendeu-se sobre as ondas, foi repetido, e Buntaro o ouviu claramente. Hesitou, atordoado, a faca suspensa no ar. Novamente o chamado, insistente e imperioso.
Com esforço Buntaro se arrancou do mundo da morte e gelidamente contemplou a vida e a fuga que era ordenada. O risco era grande. Melhor morrer aqui, disse a si mesmo. Toranaga não sabe disso? Aqui está uma morte honrosa. Lá, a captura quase certa. Fugir para onde? Trezentas ris até Yedo? A captura é certa!
Sentiu a força do braço, viu a adaga firme, decidida, a ponta aguçada pairando perto do seu abdome nu, e ansiou pela agonia libertadora da morte, afinal. Finalmente uma morte para expiar toda a vergonha: a vergonha por seu pai se ajoelhando diante do estandarte de Toranaga, quando deviam ter-se mantido fiéis a Yaemon, herdeiro do taicum, conforme haviam jurado; a vergonha por haver matado tantos homens que honradamente serviam à causa do taicum contra o usurpador, Toranaga; a vergonha pela mulher, Mariko, e pelo único filho, ambos maculados para sempre, o filho por causa da mãe e ela por causa do pai, o monstruoso assassino, Akechi Jinsai. E a vergonha de saber que por causa deles seu próprio nome estava conspurcado para sempre.
Quantos milhares de agonias não suportei por causa dela?
Sua alma clamava pelo esquecimento. Agora tão perto, fácil, honroso.
A próxima vida será melhor, como poderia ser pior?
Ainda assim, pousou a faca e obedeceu, e se lançou de volta ao precipício da vida. Seu suserano ordenara o último sofrimento e decidira cancelar a sua tentativa de encontrar a paz. O que mais existe para um samurai além da obediência?
Levantou-se de repente, saltou para a sela, fincou os calcanhares nos flancos do cavalo e, junto com o outro homem, disparou. Outros ronins a cavalo saíram a galope da noite a fim de guardar-lhes a retirada e liquidar os cinzentos na liderança. Depois também desapareceram, com alguns cavaleiros cinzentos a persegui-los.
Uma gargalhada irrompeu por todo o navio.
Toranaga martelou a amurada com o punho, alegremente, Yabu e os samurais riam a bandeiras despregadas. Até Mariko ria.
- Um homem se safou, mas e os mortos todos? – gritou Blackthorne enraivecido. - Olhem para a praia... deve haver trezentos, quatrocentos corpos lá. Olhem para eles, pelo amor de Cristo!
Mas o seu grito não varou a gargalhada.
Então um grito de alarme do vigia de proa. E o riso extinguiu-se.
CAPÍTULO 26
- Podemos passar através deles, capitão? - perguntou Toranaga calmamente. Estava observando os barcos de pesca agrupados quinhentas jardas à frente, e a sedutora passagem que haviam deixado entre si.