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- Não, senhor.

- Não temos alternativa - disse Yabu. - Não há mais nada que possamos fazer. - Olhou para trás para os cinzentos concentrados que esperavam na praia .e no molhe, seus insultos indistintos e escarnecedores cavalgando o vento.

Toranaga e Yabu encontravam-se na popa. O tambor silenciara e a galera arrastava-se em mar brando. Todos a bordo esperavam para ver o que seria resolvido. Sabiam que estavam encurralados. Em terra, catástrofe, à frente, catástrofe, se esperassem, catástrofe. A rede se fecharia cada vez mais e então seriam capturados. Se fosse necessário, Ishido poderia esperar dias.

Yabu estava espumando. Se tivéssemos corrido para a boca da enseada assim que embarcamos, ao invés de desperdiçar tempo com Buntaro, estaríamos em segurança ao mar agora, dizia a si mesmo. Toranaga está perdendo os miolos. Ishido acreditará que o traí. Não há nada que eu possa fazer - a menos que consigamos abrir caminho, e ainda assim estou comprometido a lutar por Toranaga contra Ishido. Nada que eu possa fazer. Exceto dar a Ishido a cabeça de Toranaga. Neh? Isso faria de você um regente e lhe traria o Kwanto, neh? E então, com os seis meses de tempo e os samurais com mosquetes, por que não até presidente do conselho de regentes? Ou por que não o grande prêmio? Eliminar Ishido e tornar-se general-chefe do herdeiro, senhor protetor e governador do Castelo de Osaka, o general responsável por toda a lendária riqueza do torreão, com poder sobre o império durante a minoridade de Yaemon, e depois com poder inferior apenas ao de Yaemon. Por que não?

Ou até o maior prêmio de todos: shogun. Elimine Yaemon e você será shogun. Tudo por uma única cabeça e alguns deuses benevolentes!

Os joelhos de Yabu se sentiram fracos à medida que sua cobiça se elevava. Tão fácil de fazer, pensou ele, mas não há como tomar a cabeça e escapar - ainda não há.

- Ordenar posições de ataque! - comandou Toranaga finalmente.

Quando Yabu deu as ordens e os samurais começaram a se preparar, Toranaga voltou a atenção para o bárbaro, que ainda estava perto da popa, onde parara quando o alarme fora dado, encostado ao curto mastro principal.

Gostaria de poder compreendê-lo, pensou Toranaga. Num momento tão corajoso, no momento seguinte tão fraco. Num momento tão valioso, no momento seguinte tão inútil. Num momento matador, no momento seguinte covarde. Num momento dócil, no momento seguinte perigoso. Ele é homem e mulher, yang e yin. Não é mais que forças opostas, e imprevisível.

Toranaga estudara-o cuidadosamente durante a escapada do castelo, durante a emboscada e depois. Ouvira de Mariko, do capitão e dos outros o que acontecera durante a luta a bordo. Testemunharam a sua raiva surpreendente há poucos momentos, quando Buntaro fora deixado para trás, ouvira o grito e vira com olhos furtivos a censura estampada no rosto do homem, e depois, quando deveria ter havido riso, apenas raiva.

Por que não rir quando um inimigo é batido em esperteza? Por que não rir para afastar a tragédia para longe quando o karma interrompe a bela morte de um autêntico samurai, quando o karma causa a morte inútil de uma linda garota? Não é apenas através do riso que nos tornamos um com os deuses e assim podemos suportar a vida e superar todo o horror, o desperdício e o sofrimento aqui na terra? Como nesta noite, assistindo ao encontro daqueles homens com seu destino, ali, naquela praia, naquela noite suave, devido a um karma ordenado mil vidas atrás, ou talvez há apenas uma.

Não é apenas através do riso que podemos permanecer humanos?

Por que o piloto não percebe que também é governado por karma, assim como eu sou, como todos somos, como até esse Jesus Cristo foi, pois se se soubesse a verdade se saberia que foi apenas o seu karma que o fez morrer desonrado como um criminoso comum, entre outros criminosos comuns, na colina de que os padres bárbaros falam.

Tudo karma.

Que barbaridade pregar um homem a um pedaço de madeira e esperar que ele morra. São piores que os chineses, que se comprazem com a tortura.

- Pergunte-lhe, Yabu-san! - disse Toranaga.

- Senhor?

- Perguntê-lhe o que fazer. Ao piloto. Isto não e uma batalha marítima? O senhor não me disse que o piloto é um gênio ao mar? Ótimo, vejamos se o senhor tem razão. Deixe-o provar isso.

A boca de Yabu era apenas uma linha cruel e apertada, Toranaga podia sentir o medo do homem e se deliciou com isso.

- Mariko-san - vociferou Yabu. - Pergunte ao piloto como sair... como passar por entre aqueles navios.

Obedientemente Mariko afastou-se da amurada, a garota ainda lhe servindo de apoio.

- Não, estou bem agora, Fujiko-san - disse ela. - Obrigada. - Fujiko deixou-a ir e olhou Blackthorne com desagrado.

- Ele diz "com canhões", Yabu-san - disse Mariko.

- Diga-lhe que ele terá que fazer melhor do que isso se quiser conservar a cabeça!

- Devemos ser pacientes com ele, Yabu-san - interrompeu Toranaga. - Mariko-san, diga-lhe polidamente o seguinte: "Lamentavelmente não temos canhões. Não há outro meio de passar? Por terra é impossível". Traduza exatamente o que ele responder. Exatamente.

Mariko fez isso.

- Sinto muito, senhor, mas ele disse "não". Apenas isso: "Não". Sem polidez.

Toranaga moveu o sash e coçou-se sob a armadura.

- Bem - disse cordialmente -, o Anjin-san fala em canhões e ele é o perito, portanto com canhões será. Capitão, vá até lá! - Seu dedo áspero, calejado, apontou malevolamente para a fragata portuguesa. - Prepare os homens, Yabu-san. Se os bárbaros meridionais não me emprestarem canhões, o senhor terá que tomá-los. Não é?

- Com um enorme prazer - disse Yabu suavemente.

- O senhor tinha razão, ele é um gênio.

- Mas o senhor encontrou a solução, Toranaga-san.

- É fácil encontrar soluções depois que a resposta foi dada, neh? Qual é a solução para o Castelo de Osaka, aliado?

- Não há solução. Nisso o taicum foi perfeito.

- Sim. Qual é a solução para a traição?

- Naturalmente, morte ignominiosa. Não compreendo por que me pergunta isso.

- Um pensamento fugaz... aliado. - Toranaga olhou de relance para Blackthorne. - Sim, é um homem inteligente. Tenho uma grande necessidade de homens inteligentes. Mariko-san, os bárbaros me darão os canhões?

- Naturalmente. Por que não dariam? - Nunca ocorrera a ela que eles não dariam. Ainda estava cheia de apreensão por Buntaro. Teria sido tão melhor permitir-lhe morrer ali. Por que colocar-lhe a honra em risco? Ela se perguntava por que Toranaga ordenara que Buntaro partisse por terra, bem no último momento. Toranaga poderia, com a mesma facilidade, ter ordenado que ele nadasse para o barco. "Teria sido muito mais seguro e havia muito tempo para isso. Ele poderia até ter ordenado isso assim que Buntaro atingira a extremidade do molhe. Por que esperar! Seu eu mais secreto respondia que o seu senhor devia ter tido uma boa razão para esperar e ordenar o que ordenara.

- E se não derem? Está preparada para matar cristãos, Mariko-san? - perguntou Toranaga. - Essa não é a lei mais severa deles? "Não matarás"?

- Sim, é. Mas pelo senhor, iremos prazerosamente para o inferno, meu marido, meu filho e eu.

- Sim. Você é uma verdadeira samurai e não me esquecerei de que empunhou uma espada para me defender.

- Por favor, não me agradeça. Se ajudei, de algum modo de pouca importância, foi porque era o meu dever. Se alguém deve ser lembrado, por favor que seja o meu marido ou o meu filho. Eles são de mais valia para o senhor.

- No momento você é mais valiosa para mim. E poderia sê-lo mais ainda.