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- Diga-me como, senhor, e assim será feito.

- Repudie o Deus estrangeiro.

- Senhor. - O rosto dela congelou-se.

- Repudie o seu Deus. Você deve lealdades demais.

- Quer dizer, tornar-me apóstata, senhor? Renunciar ao cristianismo?

- Sim, a menos que você ponha esse Deus no lugar que lhe cabe: no fundo de seu espírito, não à tona.

- Por favor, desculpe-me, senhor - disse ela tremulamente -, mas a minha religião nunca interferiu na minha lealdade para com o senhor. Sempre a mantive como assunto particular, o tempo todo. Como foi que lhe falhei?

- Ainda não me falhou. Mas falhará.

- Diga-me o que devo fazer para agradar-lhe.

- Os cristãos podem se tornar meus inimigos, neh?

- Os seus inimigos são os meus, senhor.

- Os padres se opõem a mim agora. Podem ordenar aos cristãos que se levantem contra mim.

- Não podem, senhor, são homens de paz.

- E se continuarem a se opor a mim? Se os cristãos fizerem guerra contra mim?

- O senhor nunca precisará temer pela minha lealdade. Nunca.

- Esse Anjin-san talvez diga a verdade e os seus padres talvez falem com língua falsa.

- Há padres bons e maus, senhor. Mas o senhor é o meu suserano.

- Muito bem, Mariko-san - disse Toranaga. - Aceitarei isso. Ordeno-lhe que se torne amiga desse bárbaro, aprenda tudo o que ele sabe, relate tudo o que ele disser, aprenda a pensar como ele, não "confesse" nada sobre o que está fazendo, trate todos os padres com desconfiança, relate tudo o que os padres lhe perguntarem ou lhe disserem. O seu Deus deve se encaixar no meio disso, ou não se encaixar em parte alguma.

Mariko afastou um fio de cabelo dos olhos.

- Posso fazer tudo isso, senhor, e continuar cristã. Juro.

- Ótimo. Jure pelo seu Deus cristão.

- Juro diante de Deus.

- Ótimo. - Toranaga voltou-se e chamou: - Fujiko-san!

- Sim, senhor?

- Trouxe criadas consigo?

- Sim, senhor. Duas.

- Ceda uma a Mariko-san. Mande a outra buscar chá.

- Há saquê se o senhor quiser.

- Chá. Yabu-san, prefere chá ou saquê?

- Chá, por favor.

- Traga saquê para o Anjin-san.

A luz reluziu sobre o pequeno crucifixo de ouro que pendia do pescoço de Mariko. Ela viu Toranaga olhá-lo fixamente.

- O senhor... o senhor deseja que eu deixe de usá-lo? Que o lance fora?

- Não - disse ele. - Use-o como lembrete do seu juramento.

Todos observaram a fragata. Toranaga sentiu que alguém o olhava e correu os olhos em torno. Viu o rosto duro, os frios olhos azuis e sentiu o ódio - não, ódio não, a desconfiança. Como se atreve o bárbaro a suspeitar de mim?

- Pergunte ao Anjin-san por que ele simplesmente não disse que há muitos canhões no navio bárbaro? Que fôssemos buscá-los para nos escoltar para fora da armadilha?

Mariko traduziu. Blackthorne respondeu.

- Ele disse... - Mariko hesitou, depois continuou num fôlego só: - Por favor, desculpe-me, ele disse: "E bom que ele use a própria cabeça".

Toranaga riu.

- Agradeça-lhe pela dele. Foi muito útil. Espero que ele a conserve sobre os ombros. Diga-lhe que agora somos iguais.

- Ele disse: "Não, não somos iguais, Toranaga-sama. Mas dê-me o meu navio e uma tripulação e eu limparei os mares. De qualquer inimigo".

- Mariko-san, acha que ele me considera como aos outros - os espanhóis e os bárbaros meridionais? - A pergunta foi feita negligentemente.

A brisa soprou-lhe fios de cabelo por sobre os olhos. Mariko os afastou de modo cansado.

- Não sei, sinto muito. Talvez sim, talvez não. Quer que eu lhe pergunte? Sinto muito, mas ele é... é muito estranho. Receio não compreendê-lo. Em absoluto.

- Temos tempo de sobra. Sim. Oportunamente ele se explicará conosco.

Blackthorne vira a fragata silenciosamente soltar-se das amarras no momento em que a escolta de cinzentos saíra correndo. Vira-a descer a chalupa, que rapidamente espiara o navio longe do atracadouro no molhe, em meio à correnteza. Em seguida a fragata deitara algumas amarras em águas profundas a pouca distância da praia, ilesa, uma leve âncora de proa segurando-a suavemente, paralela à praia. Essa era a manobra habitual de todos os navios europeus em enseadas estrangeiras ou hostis quando havia a ameaça de um perigo em terra. Ele também sabia que embora não houvesse - nem tivesse havido – nenhum movimento suspeito no convés, a esta altura todos os canhões estariam preparados, os mosquetes distribuídos, as metralhas, balas de canhão e a munição preparadas em abundância, cutelos esperando nas prateleiras - e homens armados nos ovéns. Haveria olhos esquadrinhando em todos os sentidos. A galera teria sido notada no momento em que mudara o curso. Os dois canhões de popa e trinta peças de artilharia, que ficavam bem na sua direção, estariam apontados para eles. Os atiradores portugueses eram os melhores do mundo, depois dos ingleses.

E devem estar sabendo sobre.Toranaga, pensou Blackthorne com grande amargor, porque são espertos e devem ter perguntado aos seus carregadores ou aos cinzentos sobre o que estava acontecendo. Ou a esta altura os malditos jesuítas, que sabem de tudo, já teriam enviado uma mensagem sobre a fuga de Toranaga, e sobre mim.

Sentia os curtos cabelos em pé. Qualquer um daqueles canhões pode nos mandar para o inferno com uma única explosão. Sim, mas estamos em segurança porque Toranaga se encontra a bordo. Graças a Deus por Toranaga.

- Meu amo pergunta qual é o seu costume quando o senhor quer se aproximar de uma belonave - estava dizendo Mariko.

- Se se tem um canhão, dispara-se uma saudação. Ou podem-se emitir sinais com bandeiras, pedindo permissão para se aproximar.

- E se não se têm bandeiras, pergunta o meu amo?

Embora ainda se encontrassem fora do alcance dos canhões, para Blackthorne era quase como se já estivessem sob a mira de um deles, ainda que as portinholas continuassem fechadas. O navio carregava dezesseis canhões no convés principal, dois na popa e dois na proa. O Erasmus poderia capturá-lo sem sombra de dúvida, disse ele a si mesmo, desde que a tripulação fosse adequada. Gostaria de capturá-lo. Acorde, pare de devanear, não estamos a bordo do Erasmus e sim desta galera pesadona e aquele navio português é a única esperança que temos. Por trás dos canhões dele estaremos salvos.

- Diga ao capitão para hastear a bandeira de Toranaga no topo do mastro. Isso será suficiente, senhora. Tornará a coisa formal e informará a eles sobre quem está a bordo, embora eu aposte que eles já sabem.

Isso foi feito rapidamente. Todo mundo na galera parecia mais confiante agora. Blackthorne notou a mudança. Até ele se sentiu melhor sob a bandeira.

- Meu amo pergunta como lhes dizemos que queremos emparelhar.

- Sem bandeiras sinalizadoras, ele tem duas escolhas: esperar fora do alcance dos canhões e enviar uma delegação num pequeno bote, ou ir diretamente até uma distância de onde se possa chamar a bordo.

- Meu amo pergunta qual é o seu conselho.

- Ir direto e emparelhar. Não há motivo para cautela. O Senhor Toranaga está a bordo. É o daimio mais importante do império. Claro que o navio nos ajudará... Oh, Jesus Deus!

- Senhor?

Mas ele não respondeu, então ela traduziu rapidamente o que fora dito e ouviu a pergunta seguinte de Toranaga.

- A fragata fará o qué? Por favor, explique o seu pensamento e o motivo por que parou.

- De repente entendi, ele está em guerra com lshido agora. Não está? Portanto a fragata pode não estar inclinada a ajudá-lo.

- Claro que o ajudará.

- Não. Que lado mais beneficia os portugueses, o do Senhor Toranaga ou o de lshido? Se eles acreditarem que é o de lshido, nos mandarão pelos ares.

- É impensável que os portugueses disparem contra qualquer navio japonês - disse Mariko imediatamente.

- Acredite-me, eles o farão, senhora. E aposto como aquela fragata não nos deixará emparelhar. Eu não deixaria, se fosse o piloto dela. Jesus Cristo! - Blackthorne arregalou os olhos na direção da praia.