Os cinzentos insultantes haviam deixado o molhe e estavam se espalhando paralelamente à praia. Nenhuma chance ali, pensou ele. Os barcos de pesca continuavam a obstruir malevolamente a garganta da enseada. Nenhuma chance lá, tampouco.
- Diga a Toranaga que há um outro meio de sair da enseada. Esperar por uma tempestade. Talvez pudéssemos enfrentá-la, enquanto os barcos de pesca não podem. Então poderíamos escorregar pela rede.
Toranaga interrogou o capitão, que respondeu longamente, depois Mariko disse a Blackthorne:
- Meu amo pergunta se o senhor acha que haverá uma tempestade.
- Meu nariz diz que sim. Mas não já. Dentro de dois ou três dias. Podemos esperar tudo isso?
- O seu nariz lhe diz? Há um cheiro para tempestades?
- Não, senhora. É apenas uma expressão.
Toranaga ponderou. Depois deu uma ordem:
- Vamos nos aproximar até ser possível chamar a bordo, Anjin-san.
- Diga-lhe, então, que vá diretamente em direção à popa. Assim seremos um alvo menor. Diga-lhe que eles são traiçoeiros. Sei quão seriamente traiçoeiros eles são quando os seus interesses estão ameaçados. São piores do que os holandeses! Se aquele navio ajudar Toranaga a escapar, lshido vai descontar em todos os portugueses e eles não vão se arriscar a isso.
- Meu amo diz que logo teremos essa resposta.
- Estamos vulneráveis, senhora. Não temos chance alguma contra aqueles canhões. Se o navio for hostil, mesmo que seja simplesmente neutro, estamos afundados.
- Meu amo diz que sim, mas será seu dever persuadi-los a serem benevolentes.
- Como posso fazer isso? Sou inimigo deles.
- Meu amo diz que na guerra, como na paz, um bom inimigo pode ser mais valioso do que um bom aliado. Ele diz que o senhor conhece a mente deles... pensará num modo de convencê-los.
- O único meio seguro é pela força.
- "Ótimo. Concordo", diz o meu amo. Por favor, diga-me de que modo o senhor atacaria aquele navio como pirata.
- O quê?
- Ele disse: "Ótimo. Concordo. De que modo o senhor atacaria o navio como pirata, como o conquistaria? Preciso usar os canhões deles". Desculpe, não ficou claro, Anjin-san?
- E eu digo novamente que vou mandá-lo pelos ares declarou Ferreira, o capitão-mor.
- Não - retrucou Dell'Aqua, olhando a galera do tombadilho.
- Atirador, ele já está ao alcance?
- Não, Dom Ferreira - respondeu o atirador-chefe. Ainda não.
- Por que mais estaria se aproximando de nós senão por motivos hostis, Eminência? Por que simplesmente não escapou? O caminho está limpo. - A fragata estava longe demais da boca da enseada para que qualquer pessoa a bordo visse os barcos de pesca aglomerados em emboscada.
- Não arriscamos nada, Eminência, e ganhamos tudo - disse Ferreira. - Fingimos não saber que Toranaga está a bordo. Achamos que bandidos, bandidos comandados pelo pirata herege, iam nos atacar. Não se preocupe, será fácil provocá-los assim que estiverem ao alcance.
- Não - ordenou Dell'Aqua.
O Padre Alvito voltou-se da amurada.
- A galera ostenta a bandeira de Toranaga, capitão-mor.
- Bandeira falsa! - disse Ferreira sardonicamente. - É o truque marítimo mais velho do mundo. Não vimos Toranaga. Talvez não esteja a bordo.
- Não.
- Pela morte de Deus, a guerra seria uma catástrofe! Vai prejudicar, se não arruinar, a viagem do Navio Negro deste ano! Não posso permitir isso! Não vou deixar que nada interfira nisso!
- Nossas finanças encontram-se em situação pior do que as suas, capitão-mor - vociferou Dell'Aqua. - Se não comerciarmos este ano, a Igreja irá à bancarrota, fui claro? Não recebemos fundos de Goa ou de Lisboa há três anos e a perda do lucro do ano passado... Deus me dé paciência! Conheço melhor do que o senhor o que está em jogo. A resposta é não!
Rodrigues estava penosamente sentado na sua cadeira de convés, a perna entalada descansando sobre um banquinho estofado que estava amarrado perto da bitácula.
- O capitão-mor tem razão, Eminência. Por que a galera se aproximaria de nós, se não para tentar alguma coisa? Por que não escapou, hem? Eminência, temos uma oportunidade incrível aqui.
- Sim, e trata-se de uma decisão militar - disse Ferreira.
Alvito voltou-se bruscamente.
- Não, Sua Eminência é o árbitro nisto, capitão-mor. Não devemos ferir Toranaga. Devemos ajudá-lo.
- O senhor me disse dúzias de vezes que uma vez que a guerra começasse duraria para sempre - disse Rodrigues. - A guerra começou, não? Vimos que começou. Isso tem que prejudicar o comércio. Com Toranaga morto a guerra está acabada e todos os nossos interesses estão ilesos. Digo que devemos mandar esse navio para o inferno.
- Até nos livramos do herege - disse Ferreira, observando Rodrigues. - O senhor impede a guerra pela glória de Deus e outro herege vai para o tormento.
- Seria uma imperdoável interferência na política deles - disse Dell'Aqua, evitando a verdadeira razão.
- Interferimos o tempo todo. A Companhia de Jesus é famosa por isso. Não somos camponeses simplórios, cabeças duras!
- Não estou sugerindo que sejam. Mas enquanto eu estiver a bordo o senhor não vai afundar aquele navio.
- Então tenha a gentileza de desembarcar.
- Quanto mais depressa o arquiassassino estiver morto, melhor, Eminência - sugeriu Rodrigues. - Ele ou Ishido, que diferença faz? São ambos pagãos, e o senhor não pode confiar em nenhum dos dois. O capitão-mor tem razão, nunca teremos uma oportunidade como esta de novo. E quanto ao nosso Navio Negro? - Rodrigues era o piloto, com direito a quinze avos do lucro todo. O verdadeiro piloto do Navio Negro morrera de sífilis em Macau há três meses e Rodrigues fora tirado do seu navio, o Santa Theresa, e colocado no novo posto, para sua eterna alegria. A sífilis era a razão oficial, lembrou Rodrigues de cara fechada, embora muitos dissessem que o outro fora esfaqueado nas costas por um ronin, numa briga num depósito. Por Deus, esta é a minha grande chance. Nada vai interferir nisso!
- Assumo toda a responsabilidade - estava dizendo Ferreira. - Trata-se de uma decisão militar. Estamos envolvidos numa guerra nativa. Meu navio se encontra em perigo. – Voltou-se para o atirador-chefe. - Já estão ao alcance?
- Bem, Dom Ferreira, depende do que o senhor deseja. - O atirador-chefe soprou no pavio do círio de cera, o que o fez incandescer e faiscar. - Eu poderia lhe acertar a proa agora, ou a popa, ou atingir a meia-nau, o que o senhor preferir. Mas se o senhor quer um homem morto, um homem em particular, então mais um instante ou dois os colocaria ao alcance exato.
- Quero Toranaga morto. E o herege.
- Refere-se ao Inglês, o piloto?
- Sim.
- Alguém terá que apontar o japona. O piloto, eu reconheço, sem dúvida.
- Se o piloto tem que morrer para que se mate Toranaga - disse Rodrigues - e para deter a guerra, então sou a favor, capitão-mor. De outro modo ele devia ser poupado.
- Ele é um herege, um inimigo do nosso país, uma abominação, e já nos causou mais problemas do que um ninho de víboras.
- Já assinalei que em primeiro lugar o Inglês é um piloto, e em último lugar é um piloto, um dos melhores do mundo.
- Pilotos devem ter privilégios especiais? Mesmo os hereges?
- Sim, por Deus. Poderíamos usá-lo, assim como eles nos usam. Seria um maldito desperdício matar tanta experiência. Sem pilotos não há um império incrível, não há comércio, não há nada. Sem mim, por Deus, não há Navio Negro, não há lucro, não há como voltar para casa, portanto a minha maldita opinião é importante!
Houve um grito vindo do topo do mastro:
- Ó do tombadilho, a galera está mudando o rumo! - A galera vinha rumando direto para eles mas girara alguns pontos para bombordo. Imediatamente Rodrigues gritou:
- Posições de ação! Atenção a estibordo! Todas as velas, ho! Ancora para cima! - No mesmo instante acorreram homens para obedecer.