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- Qual é o problema, Rodrigues?

- Não sei, capitão-mor, mas estamos saindo para mar aberto. Aquela grande puta está indo a barlavento.

- O que importa isso? Podemos afundá-lo a qualquer momento - disse Ferreira. - Ainda temos que trazer suprimentos para bordo e os padres têm que regressar a Osaka.

- Sim. Mas nenhuma nave hostil vai se pôr a barlavento contra o meu barco. Aquela puta não depende do vento, pode ir contra ele. Poderia estar dando a volta para nos atacar pela proa, onde só temos um canhão, e nos abordar!

Ferreira riu desdenhosamente.

- Temos vinte canhões a bordo! Eles não têm nenhum! Acha que aquele imundo barco pagão se atreveria a tentar nos atacar? Ora, você é muito simples de cabeça!

- Sim, capitão-mor, é por isso que ainda tenho uma. O Santa Theresa vai levantar ferros!

As velas estalaram soltando-se das cordas e o vento enfunouas, os mastros rangendo. Os dois turnos estavam no convés, em posições de combate. A fragata começou a avançar, mas lentamente.

- Vamos, sua cadela - instou Rodrigues.

- Estamos prontos, Dom Ferreira - disse o atirador-chefe.

- Estou com ela na mira. Não posso agüentar muito tempo. Quem é esse Toranaga? Aponte-o!

Não havia tochas a bordo da galera; a única iluminação vinha do luar. A galera ainda estava à popa, a umas cem jardas, mas virou para bombordo e rumou para a margem oposta, os remos mergulhando e caindo num ritmo constante. - Aquele é o piloto? O homem alto no tombadilho?

- Sim - disse Rodrigues.

- Manuel e Pedrito! Acertem-no e ao tombadilho! - O canhão mais próximo sofreu alguns ajustes leves. - Qual é o Toranaga? Depressa! Timoneiros, dois pontos a estibordo!

- Dois pontos para estibordo, atirador!

Consciente do leito arenoso e dos recifes nas proximidades, Rodrigues estava observando os ovéns, pronto para a qualquer momento tomar o lugar do atirador-chefe, que por costume tinha o comando numa canhonada de popa.

- Ho, canhão no convés principal de bombordo! - gritou o atirador. - Assim que tivermos disparado, vamos deixá-la virar a sotavento. Abram todas as portinholas, preparem para a carga! - Os marujos obedeceram, de olhos nos oficiais sobre o tombadilho. E nos padres. - Pelo amor de Deus, Dom Ferreira, quem é esse Toranaga?

- Quem é, padre? - Ferreira nunca o vira.

Rodrigues reconhecera Toranaga claramente na coberta de proa de samurais, mas não queria ser ele a apontá-lo. Deixemos os padres fazerem isso, pensou. Vamos, padre, faça-se de Judas. Por que devemos nós fazer sempre o trabalho nojento? Não que eu me importe um dobrão furado por aquele pagão filho de uma prostituta.

Os dois padres permaneciam em silêncio.

- Depressa, quem é Toranaga? - perguntou de novo o atirador.

Impaciente, Rodrigues apontou-o.

- Ali, na proa o bastardo, baixinho, atarracado, no meio daqueles pagãos.

- Estou vendo, senhor piloto.

Os marujos fizeram os últimos ajustes de mira.

Ferreira tomou o círio da mão do imediato do atirador.

- Está apontada para o herege?

- Sim, capitão-mor. O senhor está pronto? Vou baixar a mão. Será o sinal!

- Ótimo.

- Não matarás! - exclamou Dell'Aqua.

Ferreira virou-se rapidamente para ele.

- São pagãos e hereges!

- Há cristãos entre eles, e mesmo que não houvesse...

- Não preste atenção a ele, atirador! - rosnou o capitão-mor. - Disparamos quando vocês estiverem prontos!

Dell'Aqua avançou para a boca do canhão e se postou no caminho. Seu corpanzil dominou o tombadilho e os marinheiros armados que se mantinham emboscados. Sua mão estava sobre o crucifixo.

- Eu digo "Não matarás!"

- Matamos o tempo todo, padre - disse Ferreira.

- Eu sei, e estou envergonhado e imploro o perdão de Deus por isso. - Dell'Aqua nunca estivera antes no tombadilho de um navio de combate com canhôes preparados, mosquetes, dedos em gatilhos, aprontando-se para a morte. - Enquanto eu estiver aqui, não haverá mortes, e não desculparei morte por emboscada!

- E se nos atacarem? Tentarem tomar o navio?

- Rogarei a Deus que nos ajude contra eles!

- Que diferença faz, agora ou mais tarde?

Dell'Aqua não respondeu. Não matarás, pensou ele, e Toranaga prometera tudo, Ishido nada.

- O que vai ser, capitão-mor? O momento é agora! - gritou o mestre atirador. - Agora!

Ferreira deu as costas aos padres, com brusquidão, jogou o círio no chão e foi até o parapeito.

- Preparem-se para repelir um ataque - gritou. - Se ela se aproximar a mais de cinqüenta jardas sem ser convidada, mandem-na pelos ares digam os padres o que disserem!

Rodrigues estava igualmente furioso, mas sabia que era tão impotente quanto o capitão-mor contra o padre. Não matarás? Pelo abençoado Senhor Jesus, e vocês? queria ele gritar. E os seus autos de fé? E a Inquisição? E os seus padres que pronunciam a sentença de "culpado", "feiticeira", "satanista", ou "herege"? Lembra-se das duas mil feiticeiras queimadas só em Portugal, no ano em que parti para a Asia? E quase cada aldeia e cidade em Portugal e na Espanha, e os domínios visitados e investigados pelos flagelos de Deus, como os inquisidores encapuzados orgulhosamente chamam a si mesmos, o cheiro de carne queimada no rastro deles? Oh, Senhor Jesus Cristo, proteja-nos!

Afastou o próprio medo e aversão e se concentrou na galera. Podia ver apenas Blackthorne, e pensou: ah, Inglês, é bom ver você, em pé aí, no comando, tão alto e insolente. Tive medo que você tivesse ido para o pátio de execução. Fico contente por ter escapado, mas ainda assim é muita sorte que você não tenha um único canhão a bordo, pois então eu o mandaria pelos ares, o para o inferno, com tudo o que os padres pudessem dizer.

Oh, minha Nossa Senhora, proteja-me de um mau padre!

- Olá, Santa Theresa!

- Olá, Inglês!

- É você, Rodrigues?

- Sim!

- E a perna?

- A tua mãe!

Rodrigues ficou enormemente satisfeito com a risada trocista que veio por sobre o mar que os separava.

Por meia hora os navios manobraram procurando posição, perseguindo, mudando o curso e recuando, a galera tentando se pôr a barlavento e obstruir a fragata a sotavento, a fragata a ganhar espaço para navegar para fora da enseada se desejasse. Mas nenhum dos dois conseguira obter uma vantagem, e fora durante essa perseguição que os que estavam a bordo da fragata viram os barcos de pesca aglomerados à boca da enseada pela primeira vez e entenderam o seu significado.

- É por isso que estão vindo até nós! Por proteção!

- Mais uma razão para que nós a afundemos agora que está encurralada. Ishido nos agradecerá para sempre - dissera Ferreira. Dell'Aqua permanecera irredutível.

- Toranaga é importante demais. Insisto em que primeiro devemos conversar com Toranaga. O senhor sempre pode po-lo a pique. Ele não tem canhôes. Até eu sei que só canhões podem lutar com canhôes.

Assim Rodrigues permitira um empate, uma pausa para tomar fôlego. Ambos os navios estavam no centro da enseada, a salvo dos barcos de pesca e a salvo um do outro, a fragata tremulando a barlavento, pronta para desviar instantaneamente, e a galera, de remos travados, vindo à deriva, de lado, até a distância de onde se pudesse chamar a bordo. Foi só quando Rodrigues viu a galera travar todos os remos e colocar-se lado a lado com os seus canhões que ele se voltou para barlavento para permitir ao outro que se aproximasse até o raio de tiro, e se preparou para a próxima série de movimentos. Graças a Deus, ao abençoado Jesus, a Maria e a José, por termos canhôes e aquele bastardo não ter nenhum, pensou Rodrigues de novo. O Inglês é esperto demais.

Mas é bom ser enfrentado por um profissional, disse a si mesmo. Muito mais seguro. Porque ninguém comete nenhum engano temerário e ninguém se machuca desnecessariamente.

- Permissão para ir a bordo?