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- Quem, Inglês?

- O Senhor Toranaga, sua intérprete e guardas.

- Guardas, não - disse Ferreira, baixo.

- Ele tem que trazer alguns - disse Alvito. - É uma questão de dignidade.

- Que se dane a dignidade dele. Nada de guardas. Não quero samurais a bordo - concordou Rodrigues.

- Nao concordaria com cinco? - perguntou Alvito. - a guarda pessoal dele? Você compreende o problema, Rodrigues.

Rodrigues pensou um instante, depois assentiu.

- Cinco está bem, capitão-mor. Destacaremos cinco homens como "guarda pessoal" sua, cada um com um par de pistolas. Padre, o senhor estabelece os detalhes agora. É melhor que o padre arranje os detalhes, capitão-mor, ele sabe como. Vamos, padre, mas conte-nos o que estiver sendo dito.

Alvito dirigiu-se para a amurada e gritou:

- Você não ganha nada com as suas mentiras! Preparem a alma para o inferno, você e os seus bandidos! Vocês têm dez minutos, depois o capitão-mor vai mandá-lo para o tormento eterno!

- Estamos hasteando a bandeira do Senhor Toranaga, por Deus!

- Bandeira falsa, pirata!

Ferreira avançou um passo.

- O que é que o senhor está representando, padre?

- Por favor, tenha paciência, capitão-mor - disse Alvito.

- Isto é apenas uma questão formal. De outro modo Toranaga ficará permanentemente ofendido por termos insultado a bandeira dele, coisa que fizemos. Aquele é Toranaga, não é um daimio qualquer! Talvez fosse melhor o senhor se lembrar que ele, pessoalmente, tem mais soldados em armas do que o rei da Espanha!

O vento suspirava no cordame, os mastros estalavam nervosamente. Então se acenderam tochas no tombadilho e todos puderam ver Toranaga claramente. A voz dele veio por sobre as ondas.

- Tsukku-san! Como ousa evitar a minha galera? Não há pirata algum aqui, apenas naqueles barcos de pesca à boca da enseada. Gostaria de emparelhar imediatamente!

Alvito gritou de volta em japonês, fingindo estar atônito:

- Mas Senhor Toranaga, desculpe, não podíamos imaginar! Pensamos que se tratasse de um truque. Os cinzentos disseram que bandidos ronins haviam tomado a galera à força! Pensamos que os bandidos, sob o comando do pirata inglês, estivessem navegando sob bandeira falsa. Irei imediatamente.

- Não. Eu emparelharei imediatamente.

- Rogo-lhe, Senhor Toranaga, permitir-me ir até aí para escoltá-lo. Meu amo, o padre-lnspetor, está aqui e também o capitão-mor. Eles insistem em que façamos alguns ajustes. Por favor, aceite nossas desculpas! - Alvito passou para o português e gritou bem alto para o contramestre: - Desça uma chalupa -, depois, em japonês, para Toranaga: - O bote está sendo descido, meu senhor.

Rodrigues ouviu a humildade nauseante na voz de Alvito e pensou em como era muito mais difícil lidar com japoneses do que com chineses. Os chineses compreendiam a arte da negociação, do compromisso, da concessão e da recompensa. Mas os japoneses eram cheios de orgulho e quando o orgulho de um homem era injuriado - de qualquer japonês, nao necessariamente apenas de um samurai -, a morte era um preço pequeno para reparar o insulto. Vamos, acabe com isso, queria ele gritar.

- Capitão-mor, irei imediatamente - disse o Padre Alvito.

- Eminência, se também viesse seria um cumprimento que faria muito para apaziguá-lo.

- Concordo.

- Não é perigoso? - perguntou Ferreira. - Os senhores poderiam ser usados como reféns.

- Assim que houver um sinal de traição - disse Dell'Aqua -, ordeno-lhe, em nome de Deus, que destrua o navio e todos os que navegam nele, estejamos nós a bordo ou não. - Avançou a passos largos pelo tombadilho, desceu para o convés principal, passou ao lado dos canhões, as saias do seu hábito oscilando majestosamente. No topo da escada de embarque, virou-se e fez o sinal-da-cruz. Em seguida desceu ruidosamente para o bote.

O contramestre zarpou. Todos os marinheiros estavam armados de pistolas, e sob o assento do contramestre havia um barrilete de pólvora com estopim.

Ferreira debruçou-se sobre a amurada e falou, baixo:

- Eminência, traga o herege com o senhor.

- O quê? O que disse? - Divertia Dell'Aqua brincar com o capitão-mor, cuja contínua insolência o ofendera mortalmente, pois é claro que ele resolvera há muito tempo reaver Blackthorne, o tinha ouvido perfeitamente bem. Che stupido, estava pensando.

- Traga o herege consigo, hem? - repetiu Ferreira.

No tombadilho Rodrigues ouviu o abafado: "Sim, capitão-mor", e pensou: em que traição está pensando, Ferreira?

Mudou de posição na cadeira com dificuldade, o rosto exangue. A dor da perna judiava muito e exigia-lhe muita força reprimi-la. Os ossos estavam unindo-se bem e, a Senhora seja louvada, o ferimento estava limpo. Mas a fratura continuava sendo uma fratura e mesmo a leve oscilação do navio parado era incômoda.

Ele tomou um trago de grogue do velho cantil que pendia de uma cavilha na bitácula.

Ferreira o observava.

- A perna vai mal?

- Está muito bem. - O grogue amorteceu o ferimento.

- Vai estar bem o bastante para viajar daqui até Macau?

- Sim. E para enfrentar uma batalha marítima por todo o trajeto. E para voltar no verão, se é isso que o senhor quer dizer.

- Sim, é isso que quero dizer, piloto. - Os lábios se estreitaram de novo, apertados naquele sorriso zombeteiro. - Preciso de um piloto em perfeitas condições.

- Estou em perfeitas condições. Minha perna está cicatrizando bem. - Rodrigues repeliu a dor. - O Inglês não virá a bordo de boa vontade. Eu não viria.

- Cem guinéus dizem que você está errado.

- Isso é mais do que ganho num ano.

- Pagáveis depois de chegarmos a Lisboa, com os lucros do Navio Negro.

- Feito. Nada o fará vir a bordo, não de boa vontade. Estou cem guinéus mais rico, por Deus!

- Mais pobre! Você se esquece que os jesuítas o querem mais do que eu.

- E por que quereriam?

Ferreira encarou-o e não respondeu, exibindo o mesmo sorriso evasivo. Depois, molestando-o, disse:

- Eu escoltaria Toranaga para fora da enseada, em troca do herege.

- Fico contente por ser seu amigo e necessário ao senhor e ao Navio Negro - disse Rodrigues. - Não gostaria de ser seu inimigo.

- Ótimo que nos compreendamos um ao outro, piloto. Finalmente.

- Solicito escolta para sair da enseada. Preciso dela rapidamente - disse Toranaga a Dell'Aqua por intermédio do intérprete Alvito. Mariko estava ao lado, também ouvindo, com Yabu. Toranaga erguia-se no convés de popa da galera, Dell'Aqua abaixo, no convés principal, com Alvito ao lado, mas ainda assim os olhos estavam quase ao mesmo nível. - Ou, se o senhor preferir, a sua belonave pode remover os barcos de pesca do meu caminho.

- Perdoe-me, mas isso seria um ato hostil indesculpável que o senhor não recomendaria... não poderia recomendar à fragata, Senhor Toranaga - disse Dell'Aqua, falando diretamente a ele, achando a tradução simultânea de Alvito misteriosa como sempre. - Isso seria impossível... um ato de guerra declarada.

- Então o que sugere?

- Por favor venha à fragata. Deixe-nos perguntar ao capitão-mor. Ele terá uma solução, agora que sabemos qual é o seu problema. É ele o militar, não nós.

- Traga-o aqui.

- Ser-lhe-la mais rápido ir até lá, senhor. Além, é claro, da honra que o senhor nos concederia.

Há apenas poucos momentos tinham visto mais barcos de pesca carregados de arqueiros, lançados da praia meridional e, embora estivessem seguros no momento, era claro que dentro de uma hora a garganta da enseada inteira estaria entupida de inimigos.

E ele sabia que não tinha escolha.

- Sinto muito, senhor - explicara-lhe o Anjin-san antes, durante a malograda perseguição.  Não consigo me aproximar da fragata. Rodrigues é esperto demais. Posso impedi-lo de escapar se o vento permanecer assim, mas não conseguirei pegá-lo, a menos que ele cometa um erro. Teremos que parlamentar.