- Ele cometerá um erro e o vento permanecerá assim? - perguntara ele através de Mariko.
- O Anjin-san diz - respondera ela - que um homem prudente nunca aposta no vento, a menos que se trate de um vento alísio e se esteja em alto-mar. Aqui estamos numa enseada, onde as montanhas fazem o vento soprar em círculos. O piloto, Rodrigues, não cometerá nenhum erro.
Toranaga presenciara os dois pilotos opondo um ao outro as respectivas habilidades, e entendeu, para além de qualquer dúvida, que ambos eram mestres. E viera a entender também que nem ele, nem suas terras, nem o império jamais estariam seguros sem possuir navios bárbaros modernos e, com esses navios, controlar os próprios mares. O pensamento o deixara abalado.
- Mas como posso negociar com eles? Que desculpa aceitável poderiam dar para tal hostilidade declarada contra mim? Agora o meu dever é afundá-los pelos insultos à minha honra.
Então o Anjin-san explicara o estratagema da bandeira falsa: como todos os navios usavam o ardil para se aproximar do inimigo, ou para tentar evitar o inimigo, e Toranaga ficara enormemente aliviado por haver uma solução aceitável para o problema, uma solução que lhe poupasse a dignidade.
- Penso que deveríamos ir imediatamente - estava dizendo Alvito.
- Muito bem - concordou Toranaga. - Yabu-san, assuma o comando do navio. Mariko-san, diga ao Anjin-san que ele deve permanecer no tombadilho e que fica responsável pelo leme. Você venha comigo.
- Sim, senhor.
Pelo tamanho da chalupa Toranaga entendera perfeitamente que só poderia levar cinco guardas consigo. Mas isso fora igualmente previsto, e o plano final era simples: se não conseguisse persuadir a fragata a ajudar, ele e seus guardas matariam o capitão-mor, o piloto e os padres, e se entrincheirariam numa das cabinas. Simultaneamente a galera se lançaria contra a fragata pela proa, conforme sugerira o Anjin-san, e juntos tentariam tomar a fragata de assalto. Tomariam a fragata ou não, mas em qualquer caso haveria uma solução rápida.
- É um bom plano, Yabu-san - dissera ele.
- Por favor, permita-me ir no seu lugar para negociar.
- Eles não concordariam com isso.
- Muito bem, mas assim que estivermos fora da armadilha expulse todos os bárbaros do nosso reino. Se o fizer, ganhará mais daimios do que perderá.
- Considerarei o assunto - dissera Toranaga, sabendo que aquilo era absurdo, que precisava dos daimios cristãos Onoshi e Kiyama ao seu lado e, conseqüentemente, dos outros daimios cristãos, caso contrário ele seria engolido. Por que Yabu quereria ir à fragata? Que traição planejava para o caso de não haver ajuda?
- Senhor - dizia Alvito por Dell'Aqua -, posso convidar o Anjin-san a nos acompanhar?
- Por quê?
- Ocorreu-me que ele talvez gostasse de saudar seu colega, o piloto Rodrigues. O homem está com uma perna quebrada e não pode vir aqui. Rodrigues gostaria de revê-lo, agradecer-lhe por lhe haver salvado a vida, se o senhor não se importasse.
Toranaga não conseguia pensar em nenhuma razão por que o Anjin-san não devesse ir. O homem se encontrava sob a sua proteção, portanto inviolável.
- Se ele quiser, muito bem. Mariko-san, acompanhe Tsukku-san.
Mariko curvou-se. Sabia que a sua tarefa era ouvir, relatar o assegurar que tudo o que fosse dito seria relatado corretamente, sem omissão.
Sentia-se melhor agora, o penteado e o rosto novamente perfeitos, um quimono limpo emprestado pela Senhora Fujiko, o braço esquerdo numa tipóia. Um dos imediatos, aprendiz de médico, pensara-lhe o ferimento. O corte não atingira nenhum tendão o a ferida estava limpa. Um banho a teria revigorado completamente mas não havia instalações para isso.
Ela e Alvito caminharam até o tombadilho. Alvito viu a faca no sash de Blackthorne e o modo como o quimono, embora sujo, parecia assentar-lhe. Até onde ele terá ido no caminho para a confiança de Toranaga? - perguntou-se ele.
- Salve, Capitão-Piloto Blackthorne.
- Apodreça no inferno, padre! - respondeu Blackthorne afavelmente.
- Talvez nos encontremos lá, Anjin-san. Talvez. Toranaga disse que o senhor pode vir a bordo da fragata.
- Ordens dele?
- Se o senhor quiser, ele disse.
- Não quero.
- Rodrigues gostaria de agradecer-lhe de novo e de revê-lo.
- Transmita-lhe os meus respeitos e diga que o verei no inferno. Ou aqui.
- A perna o impede de fazer isso.
- Como está a perna dele?
- Sarando. Com a sua ajuda e a graça de Deus, dentro de poucas semanas ele estará andando, se Deus quiser, embora fique coxo para sempre.
- Diga-lhe que estimo suas melhoras. É melhor ir agora, padre, está perdendo seu tempo.
- Rodrigues gostaria de vê-lo. Há grogue a mesa, um excelente frango assado, molho, pão fresco, e manteiga. Seria triste, piloto, desperdiçar tanta comida.
- O quê?
- Há um dourado pão fresco, capitão-piloto, biscoitos frescos, manteiga e um bom peso de carne. Laranjas frescas de Goa o até um galão de vinho da Madeira, ou conhaque, se o senhor preferir. Há cerveja, também. Depois há o frango de Macau, quente e suculento. O capitão-mor é um epicurista.
- Deus o mande para o inferno!
- Mandará, quando lhe aprouver. Só lhe digo o que há.
- O que quer dizer "epicurista"? - perguntou Mariko.
- É uma pessoa que aprecia a comida e uma mesa refinada, Senhora Maria - disse Alvito, usando o nome de batismo dela.
Notara a mudança repentina no rosto de Blackthorne. Quase podia ver as glândulas salivares funcionando e sentir a agonia do estômago roncando. Naquela noite, ao ver a refeição servida na grande cabina, a prata cintilante, a toalha branca, e cadeiras, autênticas cadeiras estofadas de couro, e ao cheirar os pães frescos, a manteiga, as carnes suculentas, também ele fora dominado pela fome, e não estava ansioso por comida, nem desacostumado à cozinha japonesa.
É tão simples agarrar um homem, disse Alvito a si mesmo. Tudo o que se precisa é conhecer a isca certa.
- Até logo, capitão-piloto! - Alvito deu-lhe as costas e dirigiu-se para a escada de embarque.
Blackthorne seguiu-o.
- Qual é o problema, Inglês? - perguntou Rodrigues.
- Onde está a comida? Depois podemos conversar. Primeiro a comida que você prometeu. - Blackthorne encontrava-se no convés principal, desconfiado.
- Por favor, acompanhe-me - disse Alvito.
- Aonde o está levando, padre?
- Naturalmente para a grande cabina. Blackthorne pode comer enquanto o Senhor Toranaga e o capitão-mor conversam.
- Não. Ele pode comer na minha cabina.
- É mais fácil, certamente, ir até onde está a comida.
- Contramestre! Veja que o piloto seja alimentado imediatamente. Leve para a minha cabina tudo de que ele necessita. Inglês, quer grogue, vinho ou cerveja?
- Primeiro cerveja, depois grogue.
- Contramestre, providencie e leve-o para baixo. E ouça, Pesaro, dê-lhe algumas roupas do meu baú, botas, tudo. E fique com ele até que eu o chame.
Sem dar uma palavra Blackthorne seguiu Pesaro, o contramestre, um homenzarrão corpulento, gaiúta abaixo.
Alvito começou a voltar para junto de Dell'Aqua e Toranaga, que conversavam por intermédio de Mariko, mas Rodrigues o deteve.
- Padre! Espere um instante. O que foi que disse a ele?
- Apenas que você gostaria de vê-lo e que tínhamos comida a bordo.
- Mas era eu quem queria oferecer a comida?
- Não, Rodrigues, eu não disse isso. Mas você não ofereceria comida a um piloto amigo que estivesse com fome?
- Aquele pobre bastardo não está com fome, está faminto. Se comer neste estado, vai se empanturrar como um lobo voraz, depois vomitará tudo tão depressa quanto uma prostituta bêbada e comilona. Agora, nós não gostaríamos que um de nós, mesmo um herege, comesse como um animal e vomitasse como um animal na frente de Toranaga, não é, padre? Não diante de um maldito filho da puta, particularmente um que tem a mente tão limpa quanto a racha de uma prostituta sifilítica!