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- Você precisa aprender a conter a imundície de sua linguagem, meu filho - disse Alvito. - Isso vai mandá-lo para o inferno. Faria melhor em rezar mil ave-marias e jejuar durante dois dias. Apenas pão e água. Uma penitência pela graça de Deus, para lembrá-lo da sua mercê.

- Obrigado, padre, farei isso. De bom grado. E se eu pudesse me ajoelhar, me ajoelharia e beijaria o seu crucifixo. Sim, padre, este pobre pecador lhe agradece pela paciência dada por Deus. Preciso vigiar a minha língua.

Ferreira chamou à gaiúta:

- Rodrigues, você vai descer?

- Permanecerei no convés enquanto aquela galera estiver ali, capitão-mor. Se precisar de mim, estarei aqui. - Alvito começou a se afastar. Rodrigues notou Mariko. - Um instante, padre. Quem é a mulher?

- Dona Maria Toda. Um dos intérpretes de Toranaga.

Rodrigues sussurrou:

- É boa intérprete?

- Muito boa.

- Estupidez permitir-lhe vir a bordo. Porque o senhor disse "Toda"? Ela é uma das consortes do velho Toda Hiromatsu?

- Não. É a esposa do filho dele.

- Estupidez trazê-la a bordo. - Rodrigues chamou um dos marujos com um gesto. - Espalhe o aviso de que a mulher fala português.

- Sim, senhor. - O homem se afastou correndo e Rodrigues voltou-se para o Padre Alvito.

O padre não ficou nem um pouco intimidado com a cólera evidente.

- A Senhora Maria fala latim também, e exatamente com a mesma perfeição. Mais alguma coisa, piloto?

- Não, obrigado. Talvez o melhor seja eu começar com as minhas ave-marias.

- Sim, deveria fazer isso. - O padre fez o sinal-da-cruz e partiu. Rodrigues cuspiu nos embornais e um dos timoneiros estremeceu e se persignou.

- Vá se pendurar ao mastro pelo seu prepúcio verde de podre! - sibilou Rodrigues.

- Sim, capitão-piloto, desculpe, senhor. Mas fico nervoso perto do bom padre. Não tive má intenção. - O jovem viu os últimos grãos de areia passarem pela garganta da ampulheta e virou-a.

- Daqui a meia hora, desça, leve um maldito balde, água e um esfregão com você e limpe a sujeira da minha cabina. Diga ao contramestre que traga o Inglês para cima e deixe a minha cabina limpa. E é melhor que fique bem limpa, ou usarei as suas tripas como jarreteiras. E enquanto estiver fazendo isso, reze ave-marias pela sua alma amaldiçoada.

- Sim, senhor piloto - disse o jovem debilmente. Rodrigues era um fanático, um louco por limpeza, e sua cabina era como o Santo Graal. Tudo tinha que estar impecável, fizesse o tempo que fizesse.

CAPÍTULO 27

- Deve haver uma solução, capitão-mor - disse Dell'Aqua pacientemente.

- O senhor deseja um ato declarado de guerra contra uma nação amiga?

- Claro que não.

Todos na grande cabina sabiam que estavam na mesma armadilha. Qualquer ato declarado os colocaria definitivamente ao lado de Toranaga contra Ishido, coisa que deviam evitar de qualquer modo, para o caso de Ishido ser o vencedor eventual. No momento Ishido controlava Osaka e a capital, Kyoto, e a maioria dos regentes. E agora, através dos daimios Onoshi e Kiyama, controlava a maior parte da ilha meridional de Kyushu e, com Kyushu, o porto de Nagasaki, o centro principal de todo o comércio, e assim controlava o comércio e o Navio Negro daquele ano.

- Por que tanta dificuldade? - disse Toranaga por intermédio do Padre Alvito. - Só quero expulsar os piratas da boca da enseada, neh?

Toranaga estava desconfortavelmente sentado no lugar de honra, na cadeira de encosto alto junto à grande mesa, Alvito estava ao seu lado, o capitão-mor à sua frente, Dell'Aqua ao lado do capitão-mor. Mariko permanecia de pé atrás de Toranaga e os guardas samurais esperavam perto da porta, encarando os marujos armados. E todos os europeus tinham consciência de que embora Alvito traduzisse para Toranaga tudo o que era dito na sala, Mariko estava lá para se certificar de que nada fosse dito abertamente entre eles contra os interesses do seu amo, e que a tradução fosse completa e acurada.

Dell'Aqua inclinou-se para a frente.

- Talvez, senhor, pudesse enviar mensageiros ao Senhor Ishido. Talvez a solução se encontre na negociação. Poderíamos oferecer este navio como um lugar neutro para a negociação. Talvez desse modo os senhores pudessem encerrar a guerra.

Toranaga riu com escárnio.

- Que guerra? Não estamos em guerra, Ishido e eu.

- Mas, senhor, vimos a batalha na praia.

- Não seja ingênuo! Quem foi morto? Alguns ronins sem valor. Quem atacou a quem? Apenas ronins, bandidos ou fanáticos enganados.

- E a emboscada? Tomamos conhecimento de que os marrons lutaram contra os cinzentos.

- Os bandidos estavam atacando a todos nós, marrons e cinzentos. Meus homens meramente lutaram para me proteger. Em escaramuças noturnas os enganos ocorrem com freqüência. Se marrons mataram cinzentos ou cinzentos mataram marrons, foi apenas um erro lamentável. O que representam uns poucos homens para qualquer um de nós? Nada. Não estamos em guerra.

Toranaga leu-lhes a incredulidade no rosto, então acrescentou:

- Diga-lhes, Tsukku-san, que no Japão as guerras são travadas por exércitos. Essas ridículas escaramuças e tentativas de assassinato são meras sondagens, para serem ignoradas quando falham. A guerra não começou esta noite. Começou quando o taicum morreu. Antes disso, até; quando ele morreu sem deixar um filho adulto para sucedê-lo. Talvez até antes disso, quando Goroda, o senhor protetor, foi assassinado. Esta noite não tem nenhum significado duradouro. Nenhum de vocês compreende o nosso reino, ou a nossa política. Como poderiam? Naturalmente Ishido está tentando me matar. Assim como muitos outros daimios. Fizeram isso no passado e farão no futuro. Kiyama e Onoshi já foram tanto amigos quanto inimigos. Ouçam, se eu fosse morto, isso simplificaria as coisas para Ishido, o verdadeiro inimigo, mas só por um momento. Estou na armadilha dele agora, e se ele for bem sucedido terá meramente uma vantagem momentânea. Se eu escapar, nunca terá havido uma armadilha. Mas compreendam claramente, todos vocês, que a minha morte não eliminará a causa da guerra, nem impedirá conflitos posteriores. Só se Ishido morrer deixará de haver conflito. Portanto não há guerra declarada agora. Nenhuma guerra. - Ele mudou de posição na cadeira, detestando o odor na cabina, proveniente das comidas gordurosas e dos corpos não lavados. - Mas temos de fato um problema imediato. Quero os seus canhões. Quero-os agora. Piratas me cercam na boca da enseada. Eu disse antes, Tsukku-san, que logo todos terão que tomar posição. Agora, de que lado está você, o seu chefe e toda a Igreja cristã? E os meus amigos portugueses estão comigo ou contra mim?

- Pode ter certeza, Senhor Toranaga - disse Dell'Aqua -, de que todos nós apoiamos os seus interesses.

- Ótimo. Então elimine os piratas imediatamente.

- Isso seria um ato de guerra e não traria proveito algum. Talvez possamos tratar de negócios, hem? - disse Ferreira.

Alvito não traduziu isso mas disse, ao contrário:

- O capitão-mor diz que estamos apenas tentando evitar interferência na sua política, Senhor Toranaga. Somos comerciantes.

Mariko disse em japonês para Toranaga:

- Desculpe, senhor, isso não está correto. Não foi isso o que foi dito.

Alvito suspirou.

- Simplesmente transpus algumas das palavras dele, senhor. O capitão-mor, sendo estranho aqui, não tem consciência de certas cortesias. Não compreende nada sobre o Japão.

- Você compreende, Tsukku-san? - perguntou Toranaga.

- Tento, senhor.

- Que foi que ele disse realmente?

Alvito contou-lhe. Após uma pausa, Toranaga disse:

- O Anjin-san me disse que os portugueses têm grande interesse pelo comércio, e que em comércio não têm boas maneiras nem humor. Compreendo e aceitarei a explicação, Tsukku-san. Mas daqui em diante, por favor, traduza tudo exatamente como for dito.