- Sim, senhor.
- Diga isto ao capitão-mor: quando o conflito estiver concluído, expandirei o comércio. Sou a favor do comércio. Ishido não.
Dell'Aqua acompanhara a troca de idéias e esperava que Alvito tivesse disfarçado a estupidez de Ferreira.
- Não somos políticos, senhor, somos religiosos e representamos a fé e os fiéis. Realmente apoiamos os seus interesses. Sim.
- Concordo. Estava pensando... - Alvito parou de interpretar, seu rosto se iluminou e por um momento o japonês de Toranaga escapou-lhe. - Desculpe, Eminência, mas o Senhor Toranaga disse: "Estava considerando a possibilidade de lhe pedir que construísse um grande templo em Yedo, como medida da minha confiança nos seus interesses". - Fazia anos, desde que Toranaga se tornara senhor das Oito Províncias, que Dell'Aqua vinha manobrando para obter essa concessão. E obté-la agora, na terceira maior cidade do império, era uma concessão inestimável.
Dell'Aqua entendeu que chegara o momento de resolver o problema dos canhões.
- Agradeça-lhe, Martim Tsukku-san - disse, usando a codifrase que combinara previamente com Alvito -, e diga que tentaremos sempre estar ao seu serviço. Oh, sim, e pergunte-lhe o que tem em mente sobre a catedral - acrescentou.
- Talvez eu possa falar um instante diretamente, senhor - começou Alvito, dirigindo-se a Toranaga. - Meu amo lhe agradece e diz que o que o senhor pediu anteriormente talvez seja possível. Ele se empenhará sempre por dar-lhe assistência.
- "Empenho" é uma palavra abstrata e insatisfatória.
- Sim, senhor. - Alvito relanceou os olhos para os guardas, que, naturalmente, ouviam sem dar a entender isso. - Mas lembro-me de o senhor ter dito que às vezes é sábio ser abstrato.
Toranaga compreendeu imediatamente. Fez um gesto aos seus homens, dispensando-os.
- Esperem lá fora, todos vocês.
Apreensivos obedeceram. Alvito voltou-se para Ferreira.
- Não precisamos dos seus guardas agora, capitão-mor.
Depois de os samurais terem saído, Ferreira dispensou seus homens e deu uma olhada em Mariko. Ele estava com pistolas ao cinto e tinha outra na bota.
- O senhor não gostaria, talvez - disse Alvito a Toranaga -, que a Senhora Mariko se sentasse?
Toranaga entendeu de novo. Pensou um instante, depois assentiu e disse, sem se voltar:
- Mariko-san, leve um dos meus guardas e encontre o Anjin-san. Fique com ele até que eu mande chamá-la.
- Sim, senhor.
A porta fechou-se atrás dela.
Agora estavam a sós. Os quatro.
- Qual é a oferta? - perguntou Ferreira. - O que ele está oferecendo?
- Tenha paciência, capitão-mor - respondeu Dell'Aqua, os dedos tamborilando sobre o seu crucifixo, rezando pelo sucesso.
- Senhor - começou Alvito -, meu amo diz que tudo o que o senhor pediu será tentado. Dentro dos quarenta dias. Ele enviará a sua mensagem em particular. Serei eu o mensageiro, com a sua permissão.
- E se ele não for bem sucedido?
- Não será por falta de tentativa, de persuasão ou de pensamento. Ele lhe dá a sua palavra.
- Diante do Deus cristão?
- Sim. Diante de Deus.
- Ótimo. Quero isso por escrito. Com o selo dele.
- As vezes os acordos satisfatórios, os acordos delicados, não devem ser transpostos para a escrita, senhor.
- Está dizendo que, a menos que eu ponha o meu acordo por escrito, você não fará isso?
- Simplesmente me lembrei de um dos seus próprios ditos: que a honra de um samurai é certamente muito mais importante do que um pedaço de papel. O padre-lnspetor lhe dá a sua palavra diante de Deus, a sua palavra de honra, como um samurai o faria. A sua honra é totalmente suficiente para o padre-lnspetor. Só pensei que ele se entristeceria por não merecer confiança. O senhor quer que eu peça uma assinatura?
Depois de um tempo, Toranaga disse:
- Muito bem. A palavra dele diante do Deus Jesus, neh? A palavra dele diante do Deus dele?
- Dou-a em seu nome. Ele jurou tentar pela cruz abençoada.
- Você também, Tsukku-san?
- O senhor tem igualmente a minha palavra, diante de Deus, pela cruz abençoada, de que farei tudo o que puder para ajudá-lo a persuadir os senhores Onoshi e Kiyama a se tornarem seus aliados.
- Em troca farei o que prometi anteriormente. No quadragésimo primeiro dia vocês podem lançar a pedra fundamental do maior templo cristão do império.
- As escavações poderiam ser iniciadas imediatamente, senhor?
- Tão logo eu chegue a Yedo. Bem, bem. E quanto aos piratas? Os piratas nos barcos de pesca? Vocês os liquidarão imediatamente?
- Se tivesse canhões, o senhor mesmo faria isso?
- É claro, Tsukku-san.
- Peço desculpas por ser tão tortuoso, senhor, mas tivemos que elaborar um plano. Os canhões não nos pertencem. Por favor, conceda-me um momento. - Alvito voltou-se para Dell'Aqua: - Está tudo arranjado quanto à catedral, Eminência. - Depois, para Ferreira, dando início ao plano combinado: - O senhor ficará contente por não tê-lo afundado, capitão-mor. O Senhor Toranaga perguntou se o senhor levaria dez mil ducados de ouro para ele quando partir com o Navio Negro para Goa, a fim de investir o dinheiro no mercado de ouro da Índia. Nós teríamos muito prazer em colaborar na transação por intermédio das nossas fontes habituais lá, colocando o dinheiro para o senhor. O Senhor Toranaga diz que metade do lucro será seu. - Alvito e Dell'Aqua haviam resolvido que, pela época em que o Navio Negro voltasse, dentro de seis meses, Toranaga ou estaria novamente empossado como presidente dos regentes, e conseqüentemente mais que satisfeito em permitir essa transação muito lucrativa, ou estaria morto.
- O senhor facilmente receberia um lucro líquido de quatro mil ducados. Sem risco algum.
- Em troca de que concessão? Isso é mais do que o subsidio anual que o rei da Espanha concede a toda a sua Companhia de Jesus. Em troca de quê?
- O Senhor Toranaga diz que os piratas o impedem de deixar a enseada. Ele deve saber melhor do que o senhor se se trata ou não de piratas.
Ferreira retrucou no mesmo tom sincero que ambos sabiam ser de proveito apenas para Toranaga.
- É desavisado depositar confiança nesse homem. O inimigo dele detém todos os trunfos. Todos os daimios cristãos estão contra ele. Com certeza os dois principais; ouvi-os com meus próprios ouvidos. Disseram que esse japona é o verdadeiro inimigo. Acredito neles e não neste idiota sem mãe.
- Estou certo de que o Senhor Toranaga sabe melhor do que nós quem e pirata e quem não é - disse Dell'Aqua impassível, conhecendo a solução assim como Alvito. - Suponho que o senhor não faça objeção a que o Senhor Toranaga lide com os piratas sozinho?
- Claro que não.
- O senhor tem muitos canhões de reserva a bordo – disse o padre-lnspetor. - Por que não lhe ceder alguns em particular? Venda-lhe alguns, na realidade. O senhor vende armas o tempo todo. Ele está comprando armas. Quatro canhões seriam mais que suficientes. Seria fácil baldeá-los na chalupa, com pólvora e munição suficientes, sempre em particular. E o assunto fica resolvido.
Ferreira suspirou.
- Os canhões, cara Eminência, são inúteis a bordo da galera. Não há portinholas, não há cordas de canhão, não há espeques de canhões. Eles não podem usar canhões, mesmo que tivessem os atiradores, que não têm.
Os dois padres ficaram pasmados.
- Inúteis?
- Totalmente.
- Mas com certeza, Dom Ferreira, eles podem adapt...
- Aquela galera é incapaz de usar canhões sem uma reforma. Levaria no mínimo uma semana.
- Nan ja? - disse Toranaga desconfiado, percebendo que alguma coisa estava errada, apesar do muito que tentavam esconder-lhe isso.
- Toranaga perguntou-lhe o que há - disse Alvito.
Dell'Aqua sabia que a areia corria contra eles.
- Capitão-mor, por favor, ajude-nos. Por favor. Peço-lhe francamente. Obtivemos enormes concessões para a fé. O senhor deve acreditar em mim e, sim, deve confiar em nós. De algum modo deve ajudar o Senhor Toranaga a sair da enseada. Rogo-lhe em nome da Igreja. Só a catedral já é uma enorme concessão. Por favor.