Ferreira não se permitiu demonstrar nada do êxtase da vitória. Até acrescentou uma gravidade simulada à voz.
- Já que o senhor pede ajuda em nome da Igreja, Eminência, claro que farei o que pede. Vou tirá-lo da armadilha. Mas em troca quero o posto de capitão-mor do Navio Negro do próximo ano, seja o deste ano bem sucedido ou não.
- Isso é uma concessão pessoal do rei da Espanha, dele apenas. Não cabe a mim conferi-la.
- Depois: aceito o oferecimento do ouro dele, mas quero a sua garantia de que não terei problemas com o vice-rei de Goa, nem aqui, nem por causa do ouro nem com os Navios Negros.
- Atreve-se a reter a mim e à Igreja em troca de resgate?
- Trata-se meramente de um acordo de negócios entre mim, o senhor e esse macaco.
- Ele não é macaco algum, capitão-mor. É melhor que se lembre disso.
- Depois: quinze por cento da carga deste ano, em vez de dez.
- Impossível.
- Depois: para manter tudo em ordem, Eminência, a sua palavra diante de Deus, agora, de que nem o senhor nem nenhum dos padres sob a sua jurisdição jamais me ameaçará de excomunhão a menos que eu cometa um futuro ato de sacrilégio, coisa que nenhum destes é. E a sua palavra de que o senhor e os santos padres me apoiarão ativamente e ajudarão esses dois Navios Negros - também diante de Deus.
- E depois, capitão-mor? Ainda não acabou? Com certeza há mais alguma coisa?
- Por último: quero o herege.
Da soleira da cabina, Mariko olhava fixamente para Blackthorne, deitado em semicoma no chão, vomitando. O contramestre estava encostado ao beliche, olhando-a furtivamente, os cotos dos seus dentes amarelos à mostra.
- Está envenenado? Ou está bêbado? - perguntou ela a Totomi Kana, o samurai ao seu lado, tentando inutilmente cerrar as narinas ao mau cheiro da comida e do vômito, ao mau cheiro do horrendo marujo à sua frente, e ao sempre presente mau cheiro dos porões que impregnava o navio inteiro. - Parece quase como se ele tivesse sido envenenado, neh?
- Talvez tenha sido, Mariko-san. Olhe para aquela imundície! - O samurai apontou com desagrado para a mesa. Estava coberta de travessas de madeira contendo os restos de um quarto mutilado de rosbife, malpassado, metade da carcaça de uma galinha assada, pão partido, queijo, cerveja derramada, manteiga, um prato de molho frio e gordo de toucinho, uma garrafa de conhaque pela metade.
Nenhum dos dois jamais vira carne à mesa antes.
- O que querem? - perguntou o contramestre. - Nada de macacos aqui, wakarimasu? Nada de macacos-sans nestu saiu! - Olhou para o samurai e fez-lhe sinal que se fosse. - Fora! Dêem o fora! - Seus olhos se fixaram em Mariko de novo. - Qual é o seu nome? Namu, hem?
- O que ele está dizendo, Mariko-san? - perguntou o samurai.
O contramestre olhou de relance para o samurai um instante, depois fitou Mariko.
- O que o bárbaro está dizendo, Mariko-san?
Mariko desviou os olhos hipnotizados da mesa e concentrou-se no contramestre.
- Desculpe, senhor, não o compreendi. O que foi que disse?
- Hem? - A boca do contramestre se escancarou. Era um homem gordo de olhos muito juntos e orelhas grandes, o cabelo num rabicho ensebado. Um crucifixo pendia-lhe das dobras do pescoço e pistolas dançavam-lhe no cinto. - Hein? Você sabe falar português? Uma japona que sabe falar bom português? Onde aprendeu a falar civilizado?
- O... o padre cristão me ensinou.
- Serei um maldito filho de uma prostituta! Minha Nossa Senhora, uma flor-san que fala civilizado!
Blackthorne vomitou de novo e tentou debilmente levantar-se.
- O senhor pode... por favor, o senhor pode pôr o piloto ali? - Ela apontou para o beliche.
- Sim. Se o macaco ajudar.
- Quem? Desculpe, o que disse? Quem?
- Ele! O japona. Ele.
As palavras a atingiram como uma pedrada e ela precisou de toda a força de vontade para permanecer calma. Fez um gesto para o samurai.
- Kana-san, ajude o bárbaro, por favor. O Anjin-san deve ser posto ali.
- Com prazer, senhora.
Os dois homens ergueram Blackthorne e ele caiu com um baque no beliche, a cabeça pesada demais, mexendo a boca estupidamente.
- Ele deve ser lavado - disse Mariko em japonês, ainda meio atordoada pelo modo como o contramestre tratava Kana.
- Sim, Mariko-san. Ordene que o bárbaro mande chamar alguns criados.
- Sim. - Seus olhos incrédulos voltaram inexoravelmente para a mesa.
- Eles realmente comem isso?
O contramestre seguiu-lhe o olhar. Imediatamente se inclinou, arrancou uma perna de galinha e ofereceu a ela.
- Está com fome? Aqui está, pequena flor-san, é bom. É carne fresca, um autêntico capão de Macau.
Ela meneou a cabeça.
O rosto cinzento do contramestre fendeu-se num sorriso. Solicitamente mergulhou a perna da galinha no pesado molho e segurou-a sob o nariz dela.
- O molho a torna melhor ainda. Ei, é bom poder conversar adequadamente, hem? Nunca fiz isso antes. Vamos, isto lhe dará forças, no lugar onde a força é importante! E um capão de Macau, estou lhe dizendo!
- Não... não, obrigada. Comer carne.., comer carne é proibido. E contra a lei, contra o budismo e o xintoísmo.
- Em Nagasaki não é! - O contramestre riu. - Muitos japonas comem carne o tempo todo. Todos comem quando podem consegui-la, e também se encharcam com o nosso grogue. A senhora é cristã, hem? Vamos, experimente, pequena dona. Como vai saber sem experimentar?
- Não, não, obrigada.
- Um homem não pode viver sem carne. Isso é comida de verdade. Faz a gente forte, faz a gente se saracotear como um arminho. Aqui está... - Ele ofereceu a perna de galinha a Kana.
- Você quer?
Kana abanou a cabeça, igualmente nauseado.
- Iyé!
O contramestre deu de ombros e jogou descuidadamente a perna de frango em cima da mesa.
- Iyé será. O que fez no braço? Feriu-se em combate?
- Sim. Mas não é grave. - Mariko moveu-se um pouco para mostrar-lhe o ferimento e engoliu a dor.
- Pobre coisinha! O que quer aqui, senhorita, hem?
- Ver o An... ver o piloto. O Senhor Toranaga me mandou. O piloto está bêbado?
- Sim, e cheio de comida também. O pobre bastardo comeu e bebeu depressa demais. Tomou meia garrafa de um trago. Os ingleses são todos iguais. Não agüentam o grogue e não têm co jones. - Mediu Mariko com os olhos. - Nunca vi uma florzinha tão pequena quanto você. E nunca conversei com uma japona que soubesse falar civilizado antes.
- O senhor chama todas as senhoras e samurais japoneses de japonas e macacos?
O marujo riu brevemente.
- Ora, senhorita, isso foi um escorregão da língua. Isso é para comuns, a senhora sabe, os alcoviteiros e as prostitutas em Nagasaki. Sem intenção de ofender. Nunca conversei realmente com uma senhorita civilizada, nunca soube que havia alguma, por Deus.
- Nem eu, senhor. Nunca conversei com um português civilizado antes, além do santo padre. Somos japoneses, não japonas, neh? E macacos são animais, não?
- Claro. - O contramestre mostrou os dentes quebrados.
- Fala como uma dona. Sim. Não tive a intenção de ofender, dona senhorita.
Blackthorne começou a balbuciar. Ela se aproximou do beliche e sacudiu-o suavemente.
- Anjin-san! Anjin-san!
- Sim... sim? - Blackthorne abriu os olhos. - Oh... alo... descul... eu. .. - Mas o peso da dor que sentia e os giros que a sala dava forçaram-no a continuar deitado.
- Por favor, mande chamar um criado, senhor. Ele deve ser lavado.
- Há escravos... mas não para isso, dona senhorita. Deixe o Inglês. Que mal faz um pouco de vômito para um herege?
- Não há criados? - perguntou ela, pasmada.
- Temos escravos, bastardos pretos, mas são preguiçosos. Eu não confiaria neles para lavá-lo - acrescentou com um sorriso enviesado.