Mariko sabia que não tinha alternativa. O Senhor Toranaga poderia ter necessidade do Anjin-san imediatamente, e era dever dela.
- Então preciso de água - disse. - Para lavá-lo.
- Há um barril ao pé da escada. No convés inferior.
- Por favor, vá buscar um pouco, senhor.
- Mande a ele. - O contramestre sacudiu o dedo na direção de Kana.
- Não. Vá o senhor, por favor. Agora.
O contramestre olhou para Blackthorne.
- Você é a zinha dele?
- O quê?
- A zinha do Inglês?
- O que é "zinha", senhor?
- A mulher dele. A companheira dele, você sabe, senhorita, a namorada desse piloto. Zinha.
- Não. Não, senhor, não sou a zinha dele.
- Dele, então? Deste mac... deste samurai? Ou do rei, talvez, desse que veio a bordo? Tora-alguma-coisa? Você é uma das mulheres dele?
- Não.
- Nem de ninguém a bordo?
Ela balançou a cabeça.
- Por favor, quer ir buscar um pouco de água?
O contramestre assentiu e saiu.
- É o homem mais feio e de cheiro mais repugnante de que jamais me aproximei - disse o samurai. - O que ele estava dizendo?
- Ele... o homem perguntou se... se eu sou uma das consortes do piloto.
O samurai dirigiu-se para a porta.
- Kana-san!
- Exijo o direito, em nome do seu marido, de reparar esse insulto. Imediatamente! Como se a senhora pudesse coabitar com algum bárbaro!
- Kana-san! Por favor, feche a porta.
- A senhora é Toda Mariko-san! Como se atreveu ele a insultá-la? O insulto deve ser reparado!
- Será, Kana-san, e lhe agradeço. Sim. Dou-lhe o direito. Mas estamos aqui por ordem do Senhor Toranaga. Antes que ele dê a sua aprovação, não seria correto que o senhor fizesse isso.
Kana fechou a porta relutantemente.
- Concordo. Mas formalmente peço-lhe que solicite isso ao Senhor Toranaga antes de partirmos.
- Sim. Obrigada por seu interesse pela minha honra. - O que Kana faria se soubesse de tudo o que foi dito, perguntou-se ela, aterrorizada. O que faria o Senhor Toranaga? Ou Hiromatsu? Ou meu marido? Macacos? Oh, minha Nossa Senhora, ajude-me a me manter calma e a conservar a mente funcionando. Para abrandar a fúria de Kana, ela rapidamente mudou de assunto.
- O Anjin-san parece tão indefeso. Como um bebê. Parece que os bárbaros não agüentam o vinho. Exatamente como alguns dos nossos homens.
- Sim. Mas não é o vinho. Não pode ser. É o que ele comeu.
Blackthorne moveu-se desajeitado, arrastando-se de volta à consciência.
- Eles não têm criados no navio, Kana-san, portanto terei que substituir uma das damas do Anjin-san. - Ela começou a despir Blackthorne, desajeitadamente por causa do braço ferido.
- Deixe-me ajudá-la. - Kana foi muito hábil. - Eu costumava fazer isso para o meu pai quando o saquê o tirava de si.
- É bom que um homem se embebede de vez em quando. Liberta todos os maus espíritos.
- Sim. Mas meu pai costumava passar muito mal no dia seguinte.
- Meu marido passa muito mal. Durante dias.
Após um instante, Kana disse:
- Permita Buda que o seu Senhor Buntaro escape.
- Sim. - Mariko olhou em torno da cabina. - Não compreendo como podem viver num lugar sórdido assim. E pior do que o mais pobre do nosso povo. Eu estava quase desmaiando na outra cabina, por causa do mau cheiro.
- É revoltante. Eu nunca tinha estado a bordo de um navio bárbaro.
- Eu nunca estive ao mar antes.
A porta se abriu e o contramestre pousou o balde. Ficou chocado com a nudez de Blackthorne. Puxou uma coberta de sob o beliche e cobriu-o.
- Ele vai se resfriar. Além disso, é uma vergonha fazer isso com um homem, mesmo com ele.
- O quê?
- Nada. Qual é o seu nome, dona senhorita? - Os olhos dele cintilavam.
Ela não respondeu. Empurrou a coberta para o lado e lavou Blackthorne, contente por ter alguma coisa para fazer, odiando a cabina e a repugnante presença do contramestre, perguntando-se sobre o que estariam conversando na outra cabina. Nosso amo está seguro? Quando acabou, enrolou o quimono e a tanga suja.
- Isto pode ser lavado, senhor?
- Hem?
- Isto deve ser limpo imediatamente. Poderia mandar chamar um escravo, por favor?
- São um bando de pretos preguiçosos, já lhe disse. Levaria uma semana ou mais. Jogue fora, dona senhorita, isso não vale o seu fôlego. O nosso Capitão-Piloto Rodrigues disse que eu lhe desse roupas adequadas. Aqui estão. - Ele abriu um baú. - Disse para dar-lhe algumas daqui.
- Não sei como vestir um homem com isso.
- Ele precisa de uma camisa, uma calça, codpiece, meias, botas e uma jaqueta. - O contramestre tirou-as e mostrou-lhe.
Depois, juntos, ela e o samurai começaram a vestir Blackthorne, ainda no seu estupor semiconsciente.
- Como é que ele usa isto? - Ela segurou o codpiece triangular, parecido com um saco, com os cordões pendurados.
- Nossa Senhora, ele usa na frente, assim - disse o contramestre embaraçado, apontando o seu. - Amarra-se no lugar sobre as calças, como eu disse. Sobre o saco.
Ela olhou para o do contramestre, estudando-o. Ele sentiu-lhe o olhar e ficou agitado.
Ela pôs o codpiece em Blackthorne, colocou-o cuidadosamente no lugar, e junto com o samurai passou os cordões por entre as pernas dele e amarrou-os em torno da cintura. Em voz baixa ela disse ao samurai:
- Este é o modo de se vestir mais ridículo que já vi.
- Deve ser muito desconfortável - retrucou Kana. - Os padres também usam, Mariko-san? Sob o hábito?
- Não sei.
Ela afastou um fio de cabelo da frente dos olhos.
- Senhor, o Anjin-san está vestido corretamente agora?
- Sim. Exceto pelas botas. Estão ali. Elas podem esperar. - O contramestre se aproximou e as narinas dela se taparam. Ele baixou a voz, mantendo-se de costas para o samurai. - Você quer dar uma rapidinha?
- O quê?
- Eu lhe agrado, senhorita, hem? O que diz? Há um beliche na cabina ao lado. Mande o seu amigo lá para cima. O Inglês ficará inconsciente por uma hora ainda. Pago o habitual.
- O quê?
- Você merecerá uma moeda de cobre, até três, se for boa, e será montada pelo melhor galo daqui até Lisboa, hem?
- O que diz?
O samurai viu o horror dela.
- O que é, Mariko-san?
Mariko empurrou o contramestre para longe do beliche. Suas palavras soaram trôpegas.
- Ele... ele disse...
Kana sacou a espada imediatamente, mas viu-se diante do cano de duas pistolas engatilhadas. Ainda assim começou a avançar.
- Pare, Kana-san! - ofegou Mariko. - O Senhor Toranaga proibiu qualquer ataque até que ele ordenasse!
- Vamos, macaco, venha, seu cabeça de bosta fedorento! Você! Diga a esse macaco que largue a espada ou será um filho da puta sem cabeça antes de poder peidar!
Mariko erguia-se a um pé do contramestre. Tinha a mão direita no obi, o cabo do estilete na palma da mão. Mas lembrou-se do seu dever e tirou a mão.
- Kana-san, embainhe a espada. Por favor. Devemos obedecer ao Senhor Toranaga. Devemos obedecer-lhe.
Com um esforço supremo, Kana fez o que ela disse.
- Estou disposto a mandá-lo para o inferno, japona!
- Por favor, desculpe-o, senhor, e a mim - disse Mariko, tentando soar polida. - Houve um engano, um eng...
- Esse bastardo com cara de macaco puxou uma espada. Isso não foi engano algum, por Jesus!
- Por favor, desculpe, senhor, sinto muito.
O contramestre lambeu os lábios.
- Esquecerei isso se você for boazinha, florzinha. Vamos para a cabina ao lado e diga a esse macac... diga a ele que fique aqui e esquecerei tudo isto.
- Qual... qual é o seu nome, senhor?
- Pesaro. Manuel Pesaro. Por quê?
- Nada. Por favor, desculpe o mal-entendido, Sr. Pesaro.
- Vá para a cabina ao lado. Agora.
- O que está acontecendo? O que... - Blackthorne não sabia se ainda estava acordado ou ainda no pesadelo, mas sentiu o perigo. - O que está acontecendo, por Deus?