- O japona fedorento sacou a arma contra mim!
- Foi um... um engano, Anjin-san - disse Mariko. Eu... eu pedi desculpas ao Sr. Pesaro.
- Mariko? É a senhora, Mariko-san?
- Hai, Anjin-san. Honto. Honto.
Ela chegou mais perto. As pistolas do contramestre não vacilavam. Ela teve que esbarrar nele e exigiu-lhe um esforço ainda maior não puxar a sua faca e estripá-lo. Naquele momento a porta se abriu. O jovem timoneiro entrou na cabina com um balde de água. Olhou estupidamente para as pistolas e saiu em disparada.
- Onde está Rodrigues? - disse Blackthorne, tentando pôr a cabeça a funcionar.
- Lá em cima, onde um bom piloto deve estar - disse o contramestre, a voz rascante. - Este japona sacou a espada, por Deus!
- Ajude-me a subir ao convés. - Blackthorne agarrou os lados do beliche. Mariko segurou-o mas não conseguiu levantá-lo.
O contramestre acenou com a pistola para Kana.
- Diga-lhe que ajude. E diga-lhe que se há um Deus no paraíso, ele estará pendendo do lais antes da troca de turno.
O Primeiro-lmediato Santiago afastou a orelha do nó da madeira, secreto, na parede da grande cabina, com o "Bem, está tudo resolvido, então" de Dell'Aqua ressoando-lhe no cérebro.
Silenciosamente deslizou pela cabina escura, saiu para o corredor e fechou a porta sem ruído. Era um homem alto, magro, de rosto marcado, e usava o cabelo preso num rabicho. Suas roupas estavam em ordem e, como muitos marujos, não usava calçados. As pressas, subiu à gaiúta, atravessou o convés principal e rumou para o tombadilho, onde Rodrigues conversava com Mariko. Desculpou-se, inclinou-se para colocar a boca bem junto da orelha de Rodrigues e começou a relatar tudo o que ouvira, e fora enviado para ouvir, de modo que ninguém mais no tombadilho pudesse ouvir.
Blackthorne estava sentado atrás, no convés, encostado à amurada, a cabeça apoiada sobre os joelhos dobrados. Mariko estava sentada de costas eretas, de frente para Rodrigues, à moda japonesa, e Kana, o samurai, gelidamente ao lado dela. Marinheiros armados aglomeravam-se nos conveses, e havia dois outros ao leme. O navio ainda apontado a barlavento, o ar e a noite limpos, os nimbos mais fortes e a chuva não muito longe. A cem jardas de distância encontrava-se a galera, à mercê dos canhões da fragata, remos travados, com exceção de dois de cada lado que a mantinham em posição, ao embalo da leve correnteza. Os barcos de pesca emboscados com arqueiros samurais hostis estavam mais próximos, mas ainda não haviam ultrapassado os limites de segurança.
Mariko observava Rodrigues e o imediato. Não podia ouvir o que estava sendo dito e, ainda que pudesse, seu treinamento a teria feito preferir não ouvir. A privacidade em casas de papel era impossível sem a polidez e a consideração; sem privacidade não podia existir vida civilizada, por isso todos os japoneses eram treinados para ouvir e para não ouvir. Para o bem de todos.
Quando ela subira ao convés com Blackthorne, Rodrigues ouvira a explanação do contramestre e a explanação vacilante dela de que a culpa era sua, que ela interpretara mal o que o contramestre dissera, e que isso levara Kana a sacar da espada a fim de proteger-lhe a honra. O contramestre ouvira, com um sorriso malicioso, as pistolas ainda apontadas para as costas do samurai.
- Só perguntei se ela era a zinha do Inglês, por Deus, já que estava tão à vontade lavando-o e arrumando as intimidades dele no cod.
- Baixe as pistolas, contramestre.
- Ele é perigoso, eu lhe digo. Amarre-o!
- Eu o vigiarei. Vá para a proa!
- Esse macaco me teria matado se eu não fosse mais rápido. Ponha-o no lais. É isso o que faríamos em Nagasaki!
- Não estamos em Nagasaki. Vá para a proa! Já!
E quando o contramestre se afastara, Rodrigues perguntara:
- O que ele disse, senhora? O que realmente disse?
- Dis... nada, senhor. Por favor.
- Peço desculpas pela insolência daquele homem, à senhora e ao samurai. Por favor, transmita-lhe isso, peça-lhe perdão. E peço formalmente aos dois que esqueçam os insultos do contramestre. Não ajudará nem ao seu suserano nem ao meu termos problemas a bordo. Prometo-lhe que cuidarei dele ao meu modo e no momento oportuno.
Ela falara a Kana, que, ante a persuasão dela, finalmente concordara.
- Kana-san diz que está bem, mas se voltar a ver o Contramestre Pesaro em terra, cortar-lhe-á a cabeça.
- É justo, por Deus. Sim. Domo arigato, Kana-san - disse Rodrigues com um sorriso -, e domo arigato goziemashita, Mariko-san.
- Fala japonês?
- Oh, não, só uma ou duas palavras. Tenho uma esposa em Nagasaki.
- Oh! Está há muito tempo no Japão?
- Esta é a minha segunda viagem de Lisboa. Passei sete anos nestas águas, aqui e entre Macau e Goa. - Rodrigues acrescentou: - Não prestem atenção nele, é eta. Mas Buda disse que até os etas têm direito à vida. Neh? Minha esposa fala um pouco de português, embora nem de longe tão perfeito quanto o da senhora. É cristã, naturalmente?
- Sim.
- Minha esposa converteu-se. O pai dela é samurai, embora não seja importante. O suserano dela é o Senhor Kiyama.
- Ela tem sorte por ter um marido como o senhor - disse Mariko polidamente, mas perguntou a si mesma, confusa, como é que alguém podia se casar e viver com um bárbaro. Apesar da sua educação inerente, perguntou: - A senhora sua esposa come carne como. .. como aquela da cabina?
- Não - replicou Rodrigues com uma risada, mostrando dentes brancos, ótimos e fortes. - E na minha casa em Nagasaki eu também não como. Ao mar sim, e na Europa. É um costume nosso. Mil anos atrás, antes que Buda viesse, era um costume seu também, neh? Antes que Buda vivesse para indicar o Tao, o Caminho, todas as pessoas comiam carne. Mesmo aqui, senhora. Mesmo aqui. Agora, claro, estamos mais bem informados, alguns de nós, neh?
Mariko pensou sobre isso. Depois disse:
- Todos os portugueses nos chamam de macacos? E de japonas? Pelas nossas costas?
Rodrigues puxou o brinco que estava usando.
- Vocês não nos chamam de bárbaros? Mesmo na nossa cara? Somos civilizados, pelo menos pensamos que somos, senhora. Na Índia, a terra de Buda, chamam os japoneses de "demônios orientais" e, dispondo de armas, não dariam permissão de desembarque na terra deles a nenhum japonês. Vocês chamam os hindus de "pretos" e "não humanos". Como é que os chineses chamam os japoneses? Como é que vocês chamam os chineses? Como chamam os coreanos? Comedores de alho, neh?
- Não creio que o Senhor Toranaga ficasse satisfeito ao saber disso. Ou o Senhor Hiromatsu, ou mesmo o pai da sua esposa.
- O abençoado Jesus disse: "Prestai atenção à trave que existe em vossos olhos antes de notar o argueiro que está nos meus".
Ela pensou sobre isso novamente enquanto observava o primeiro-lmediato cochichar ao piloto português. É verdade: zombamos dos outros povos. Mas somos cidadãos da Terra dos Deuses e portanto especialmente escolhidos pelos deuses. Apenas nós, de todos os povos, somos protegidos por um imperador divino. Não somos, então, absolutamente únicos e superiores a todos os outros? E quando se é japonês e cristão? Não sei. Oh, Nossa Senhora, de-me a sua compreensão. Este piloto Rodrigues é tão estranho quanto o piloto inglês. Por que são tão especiais? Por causa do treinamento deles? É inacreditável o que fazem, neh? Como podem navegar ao redor do mundo e caminhar sobre o mar tão facilmente quanto nós fazemos por terra? A esposa de Rodrigues saberia a resposta? Gostaria de conhecé-la, e conversar com ela.
O imediato baixou a voz ainda mais.
- Ele disse o quê? - exclamou com uma praga involuntária, e Mariko, malgrado seu, tentou ouvir. Mas não conseguiu entender o que o imediato repetiu. Depois viu os dois olharem para Blackthorne e seguiu-lhes o olhar, inquieta com o interesse deles.