- O que mais aconteceu, Santiago? - perguntou Rodrigo cautelosamente, consciente da presença de Mariko.
O imediato contou-lhe num sussurro, por trás de uma em concha.
- Quanto tempo vão ficar lá embaixo?
- Estão brindando um ao outro. E ao acordo que fizeram.
- Bastardos! - Rodrigues agarrou a camisa do imediato.
- Nem uma palavra sobre isso, por Deus. Pela minha vida!
- Não era preciso dizer isso, piloto.
- Sempre é necessário dizer. - Rodrigues olhou para Blackthorne, do outro lado. - Acorde-o!
O imediato aproximou-se e sacudiu-o asperamente.
- Que que há, hem?
- Bata-lhe!
Santiago o esbofeteou.
- Jesus Cristo, eu... - Blackthorne estava de pé, o rosto em chamas, mas oscilou e caiu.
- Deus o amaldiçoe, acorde, Inglês! - Furiosamente Rodrigues estirou um dedo na direção dos dois timoneiros. - Atirem-no ao mar!
- Hem?
- Já, por Deus!
Quando os dois homens o agarraram, Mariko disse:
- Piloto Rodrigues, o senhor não deve... - mas antes que ela ou Kana pudessem interferir os dois homens já haviam atirado Blackthorne por sobre o costado. Ele caiu os vinte pés, de barriga na água, erguendo uma nuvem de borrifos, e desapareceu. Num instante voltou à tona, engasgando e falando incompreensivelmente, debatendo-se na água, o frio de gelo clareando-lhe a mente.
Rodrigues estava tentando levantar da cadeira.
- Nossa Senhora, dêem-me uma mão! - Um dos timoneiros correu para ajudá-lo quando o primeiro-imediato passou-lhe uma mão sob a axila. - Jesus Cristo, tenha cuidado, olhe o meu pé, seu cabeça de bosta desajeitado!
Ajudaram-no a se aproximar da amurada. Blackthorne ainda tossia e resmungava, mas agora, enquanto nadava para o navio, gritava imprecações contra quem o havia atirado na água.
- Dois pontos a estibordo! - ordenou Rodrigues. O navio pôs-se levemente a sotavento e se afastou de Blackthorne. Rodrigues gritou para baixo: - Fique longe do meu navio! - Depois, com urgência, ao primeiro-lmediato: - Pegue a chalupa, recolha o Inglês e coloque-o a bordo da galera. Depressa. Diga-lhe...
- Ele baixou a voz.
Mariko estava grata por Blackthorne não se ter afogado.
- Piloto! O Anjin-san está sob a proteção do Senhor Toranaga. Exija que ele seja recolhido imediatamente!
- Só um momento, Mariko-san! - Rodrigues continuou a cochichar com Santiago, que assentiu, depois saiu correndo.
- Desculpe, Mariko-san, gomen kudasai, mas era urgente. O Inglês tinha que ser despertado. Eu sabia que ele sabia nadar. Ele tem que estar alerta e logo!
- Por quê?
- Sou amigo dele. Ele lhe disse isso?
- Sim. Mas a Inglaterra e Portugal estão em guerra. Assim como a Espanha.
- Sim. Mas os pilotos devem estar acima da guerra.
- Então para com quem o senhor cumpre o seu dever?
- Para com a bandeira.
- sso não quer dizer para com seu rei?
- Sim e não, senhora. Devo uma vida ao Inglês. - Rodrigues observava a chalupa. - Cuidado, devagar... agora coloque-o a barlavento - ordenou ao timoneiro.
- Sim, senhor.
Ele esperou, examinando e reexaminando o vento, os bancos de areia e a praia a distância.
- Desculpe, senhora, estava dizendo? - Rodrigues olhou-a momentaneamente, depois se afastou mais uma vez para examinar a posição do seu navio e a chalupa. Ela também olhou a chalupa. Os homens haviam içado Blackthorne do mar e remavam rapidamente em direção à galera, sentados ao invés de em pé, e puxando os remos ao invés de empurrá-los. Ele já não conseguia ver-lhes o rosto com clareza.
O Anjin-san tornou-se indistinto com o outro homem bem atrás dele, o homem com quem Rodrigues cochichara.
- O que foi que disse a ele, senhor?
- A quem?
- A ele. Ao senhor que mandou apanhar o Anjin-san.
- Só que desejo boa viagem ao Inglês e adeus. - A resposta foi insípida e não comprometedora.
Ela traduziu para Kana o que fora dito.
Quando Rodrigues viu a chalupa ao lado da galera, começou a respirar de novo.
- Ave Maria, mãe de Deus.. .
O capitão-mor e os jesuítas subiram ao convés. Toranaga e os guardas seguiam-nos.
- Rodrigues! Desça a chalupa! Os padres vão a terra - disse Ferreira.
- E depois?
- Depois zarpamos. Para Yedo.
- Por que para lá? Estávamos navegando para Macau respondeu Rodrigues, a imagem da inocência.
- Vamos levar Toranaga para Yedo, primeiro.
- Vamos o quê? Mas e a galera?
- Fica ou abre caminho à força.
Rodrigues pareceu ficar ainda mais surpreso e olhou para a galera, depois para Mariko. Viu a acusação escrita nos olhos dela.
- Matsu - disse o piloto em voz baixa.
- O quê? - perguntou o Padre Alvito. - Paciência? Por que paciência, Rodrigues?
- Rezar ave-marias, padre. Eu estava dizendo à senhora que isso ensina paciência.
Ferreira fitava a galera.
- O que a nossa chalupa está fazendo lá?
- Mandei o herege de volta.
- Você o quê?
- Mandei o Inglês de volta. Qual é o problema, capitão-mor? O Inglês me ofendeu, por isso atirei o sodomita ao mar. Deveria tê-lo deixado se afogar, mas ele sabia nadar, então mandei o imediato recolhê-lo e colocá-lo de volta no navio dele, já que ele parece contar com o favor do Senhor Toranaga. O que há de errado nisso?
- Traga-o de volta a bordo.
- Terei que enviar um destacamento armado para abordagem, capitão-mor. É isso o que deseja? Ele estava blasfemando e cuspindo o fogo do inferno sobre nós. Não voltará de boa vontade desta vez.
- Quero-o de volta.
- Qual é o problema? O senhor não disse que a galera deve ficar e lutar, etcétera e tal? E então? O Inglês está afundado na merda. Ótimo. Quem precisa daquele sodomita, afinal? Certamente os padres o preferem longe de suas vistas. Hein, padre?
Dell'Aqua não respondeu. Nem Alvito. Aquilo alterava o plano que Ferreira formulara e que fora aceito por eles e por Toranaga: que os padres desembarcariam imediatamente para apaziguar Ishido, Kiyama e Onoshi, alegando que tinham acreditado na história de Toranaga sobre os piratas e não sabiam que ele "fugira" do castelo. Enquanto isso a fragata rumaria para a boca da enseada, deixando a galera para desviar a atenção dos barcos de pesca. Se houvesse um ataque aberto contra a fragata, seria rechaçado com canhões, e os dados estariam lançados.
- Mas os botes não devem nos atacar - raciocinara Ferreira. - Têm a galera para pegar. Será sua responsabilidade, Eminência, convencer Ishido de que não tivemos outra escolha. Afinal de contas, Toranaga é o presidente dos regentes. Por último, o herege fica a bordo.
Nenhum dos padres perguntara por quê. Nem Ferreira expusera voluntariamente a razão disso. O padre-lnspetor deu um tapinha afetuoso no capitão-mor e voltou as costas para a galera.
- Talvez esteja igualmente bem que o herege fique lá - disse, e pensou: Como são estranhos os caminhos de Deus!
Não, Ferreira queria gritar. Eu queria vê-lo afogado. Um homem caído ao mar bem cedo ao amanhecer - nenhum vestígio, nenhuma testemunha, tão fácil. Toranaga nunca seria o mais esperto; um acidente trágico, seria tudo. E era esse o destino que Blackthorne merecia. O capitão-mor também conhecia o horror à morte no mar que tinha todo o piloto.
- Nan ja? - perguntou Toranaga.
O Padre Alvito explicou que o piloto se encontrava na galera e por quê. Toranaga voltou-se para Mariko, que assentiu e acrescentou o que Rodrigues dissera anteriormente.
Toranaga aproximou-se da amurada e perscrutou a escuridão. Mais barcos de pesca estavam largando a praia ao norte e os outros logo estariam em posição. Ele sabia que o Anjin-san era um estorvo político e aquele era um meio simples que os deuses lhe ofereciam, caso desejasse se livrar dele. Quero isso? Com certeza os padres cristãos ficarão imensamente mais felizes se o Anjin-san desaparecer, pensou ele. Assim como Onoshi e Kiyama, que temiam tanto o homem que um deles, ou os dois, organizou as tentativas de assassinato. Por que esse medo?