É karma que o Anjin-san esteja na galera agora e não em segurança aqui. Neh? Portanto o Anjin-san irá ao fundo com o navio, junto com Yabu, os outros, as armas, e isso também é karma. As armas, posso perdê-las, Yabu eu posso perder. Mas e o Anjin-san?
Sim.
Porque ainda tenho mais oito desses bárbaros estranhos de reserva. Talvez o conhecimento coletivo deles seja igual ou exceda ao desse homem isolado. O importante é estar de volta a Yedo tão rapidamente quanto possível, a fim de me preparar para a guerra, que não pode ser evitada. Kiyama e Onoshi? Quem sabe se me apoiarão. Talvez sim, talvez não. Mas um pedaço de terra e algumas promessas não pesam nada na balança, se o peso cristão estiver do meu lado dentro de quarenta dias.
- É karma, Tsukku-san. Neh?
- Sim, senhor. - Alvito olhou para o capitão-mor, muito satisfeito.
- O Senhor Toranaga sugere que não se faça nada. É a vontade de Deus.
- É?
O tambor da galera começou a soar abruptamente. Os remos tocaram a água com grande força.
- Em nome de Cristo, o que ele está fazendo? - urrou Ferreira. Então, enquanto olhavam a galera se afastando deles, a bandeira de Toranaga desceu esvoaçando do topo do mastro.
- É como se estivessem dizendo a todos os malditos barcos de pesca da enseada que o Senhor Toranaga não está mais a bordo - disse Rodrigues.
- O que ele vai fazer?
- Não sei.
- Não sabe mesmo? - perguntou Ferreira.
- Não. Mas se fosse ele, rumaria para o alto-mar e nos deixaria no fundo do poço - ou tentaria fazer isso. O Inglês nos deixou expostos agora. O que se faz?
- Sua ordem é seguir para Yedo. - O capitão-mor queria acrescentar: se você abalroar a galera, tanto melhor, mas não fez isso. Porque Mariko o estava ouvindo.
Os padres rumaram para a praia na chalupa.
- Todas as velas, ho! - gritou Rodrigues, a perna doendo e latejando.
- Sul-sudoeste! Todos os homens a postos!
- Senhora, por favor, diga ao Senhor Toranaga que seria melhor que ele fosse lá para baixo. Será mais seguro - disse Ferreira.
- Ele agradece e diz que ficará aqui.
Ferreira deu de ombros, aproximou-se da beirada do tombadilho.
- Preparem todos os canhões. Carreguem as armas! Posição de ação!
CAPÍTULO 28
- Isogi! - gritou Blackthorne, urgindo o mestre dos remos a acelerar a batida. Olhou para trás, para a fragata que se aproximava a barlavento, cochada a todo pano agora, depois novamente para a frente, avaliando a próxima manobra. Perguntou a si mesmo se julgara corretamente, pois havia muito pouco espaço ali, perto dos penhascos, mal e mal algumas jardas entre a catástrofe e o sucesso. Por causa do vento, a fragata teve que mudar o rumo para atingir a boca da enseada, enquanto a galera podia manobrar à vontade. Mas a fragata tinha a vantagem da velocidade. E na última manobra Rodrigues deixara claro que a galera faria melhor em permanecer fora do caminho quando o Santa Theresa precisasse de espaço.
Yabu estava novamente palrando ao seu lado, mas ele não lhe deu atenção.
- Não entendo, wakarimasen, Yabu-san! Ouça, Toranaga-sama disse, a mim, Anjin-san, ichi-ban ima! Sou o chefe, o capitão-san agora! Wakarimasu ka, Yabu-san? - Apontou a rota na bússola para o capitão japonês, que gesticulou para a fragata, a umas escassas cinqüenta jardas atrás agora, alcançando-os rapidamente em outra linha de colisão.
- Mantenham o rumo, por Deus! - disse Blackthorne, a brisa resfriando suas roupas ensopadas, que o enregelavam mas ajudavam a clarear-lhe a cabeça. Ele examinou o céu. Não havia nuvem alguma perto da lua brilhante, e o vento estava excelente. Nenhum perigo lá, pensou ele. Deus conserve a lua brilhando até que tenhamos atravessado.
- Ei, capitão! - chamou em inglês, sabendo que não fazia diferença se falasse em inglês, português, holandês ou latim, porque estava sozinho. - Mande alguém buscar saquê! Saquê! Wakarimasu ka?
- Hai, Anjin-san.
Um marujo foi mandado às pressas. Enquanto o homem corria, olhava por sobre o ombro, atemorizado com o tamanho da fragata que se aproximava e com a sua velocidade. Blackthorne manteve o curso, tentando forçar a fragata a virar antes de obter todo o espaço a barlavento. Mas ela não vacilou e veio diretamente na sua direção. No último segundo ele girou para fora do caminho dela e depois, quando o gurupês estava quase sobre o seu convés de popa, ouviu a ordem de Rodrigues:
- Virar para bombordo! Velas de estai, manter o rumo! - Depois um grito para ele, em espanhoclass="underline" - Tua boca no traseiro do Demônio, Inglês!
- Tua mãe chegou lá primeiro, Rodrigues!
Então a fragata mudou de posição, apontando agora para a praia, onde teria que virar de novo para se pôr a barlavento e novamente manobrar antes de poder virar uma última vez e rumar para a boca da enseada.
Por um instante os navios estiveram tão próximos que Blackthorne quase podia tocar o outro. Rodrigues, Toranaga, Mariko e o capitão-mor oscilando no tombadilho. Depois a fragata se afastou, rodeando-os com a sua esteira.
- Isogi, isogi, por Deus!
Os remadores redobraram esforços e por meio de sinais Blackthorne ordenou mais homens aos remos, até se esgotarem as reservas. Tinha que atingir a boca da enseada antes da fragata ou estariam perdidos.
A galera devorava a distância. Mas o mesmo fazia a fragata. No lado oposto da enseada, ela girou como um dançarino e ele viu que Rodrigues acrescentara joanetes e mastaréus.
- Ele é um bastardo astuto, como todo português!
O saquê chegou, mas foi tomado das mãos do marujo pela jovem que ajudara Mariko e que agora, incerta, oferecia-o a ele. Ela permanecera resolutamente no convés, embora estivesse claro que se encontrava fora do seu elemento. Suas mãos eram fortes, o cabelo bem arrumado, e o quimono rico, de bom gosto e asseado. A galera jogou. A garota cambaleou e deixou cair o cálice. Seu rosto não se alterou, mas ele viu o rubor da vergonha.
- Não tem importância - disse Blackthorne quando ela tateou à procura do cálice. - Namae ka?
- Usagi Fujiko, Anjin-san.
- Fujiko-san. Pronto, dê-me. Dozo. - Estendeu a mão, pegou o frasco e bebeu diretamente dele, ávido por sentir o calor do vinho dentro do corpo. Concentrou-se no novo curso, contornando os bancos de areia de que Santiago, por ordem de Rodrigues, lhe falara. Reexaminou a posição em relação ao promontório, a qual lhe oferecia um percurso limpo e sem obstáculos até a boca, enquanto acabava o vinho aquecido, perguntando-se de passagem como a bebida teria sido aquecida, e por que sempre a serviam quente e em pequenas quantidades.
Estava com a cabeça desanuviada agora, e sentiu-se forte obastante, se fosse cuidadoso. Mas sabia que não tinha reservas para entrar em combate, exatamente como o navio.
- Saquê dozo, Fujiko-san. - Estendeu-lhe o frasco e esqueceu-se dela.
Na manobra a barlavento, a fragata comportou-se muito bem e passou cem jardas à frente deles, rumando para a praia. Ouviu obscenidades trazidas pelo vento e não se deu ao trabalho de retrucar, conservando a própria energia.
- Isogi, por Deus! Estamos perdendo!
A excitação da corrida e de estar novamente sozinho no comando - mais pela sua força de vontade do que por posição - juntava-se ao raro privilégio de ter Yabu em seu poder e enchia-o de uma alegria profana. - Não fosse porque o navio iria a pique, e eu com ele, eu o lançaria contra os rochedos só para vê-lo se afogar, Yabu cara de merda! Pelo velho Pieterzoon!