Mas Yabu não salvou Rodrigues quando você não pôde fazer isso? Não atacou os bandidos quando você caiu na emboscada? E foi corajoso esta noite. Sim, é um cara de merda, mas ainda assim corajoso, e isso é verdade.
O frasco de saquê foi oferecido de novo.
- Domo - disse ele. A fragata estava querenada, cochada e satisfazendo-o enormemente. - Eu poderia fazer melhor com o meu navio - disse ele em voz alta ao vento. - Mas se eu o tivesse, passaria por entre os botes, rumo ao alto-mar, e nunca voltaria. De algum modo retornaria a casa e deixaria o Japão aos japoneses e aos pestilentos portugueses. - Viu Yabu e o capitão olhando-o fixamente. - Não, não faria isso realmente, ainda não. Há um Navio Negro para capturar, e saquê. E vingança, hein, Yabu-san?
- Nan desu ka, Anjin-san? Nan ja?
- Ichi-ban! Número um! - respondeu ele, acenando para a fragata. Esvaziou o frasco de bebida. Fujiko pegou-o.
- Saquê, Anjin-san?
- Domo, iyé!
Os dois navios estavam bem perto dos botes de pesca agora, a galera rumando direto para a passagem que fora deliberadamente deixada entre eles, a fragata indo de vento em popa e virando para a boca da enseada. Ali o vento refrescou quando os promontórios protetores desapareceram, o mar aberto a meia milha à frente. Lufadas enfunavam as velas da fragata, as cobertas estalavam como tiros de pistola, a espuma na proa e na esteira do barco.
Os remadores estavam banhados de suor e extenuados. Um homem caiu. E outro. Os cinqüenta e tantos samurais ronins já estavam em posição. À frente, arqueiros nos botes de cada lado do estreito canal armavam os arcos. Blackthorne viu pequenos braseiros em muitos botes e entendeu que as setas seriam incendiárias.
Preparara-se para a batalha do melhor modo que pudera. Yabu compreendeu que eles teriam que lutar, e compreendeu imediatamente que as setas seriam incendiárias. Blackthorne erguera anteparos de madeira, por proteção, em torno do timão. Quebrara alguns engradados de mosquetes e destacara os homens que sabiam fazer isso para armá-los com pólvora e balas. Trouxera vários barriletes de pólvora para o tombadilho e os provera de estopim. Quando Santiago, o primeiro-lmediato, o ajudara a subir a bordo da chalupa, dissera-lhe que Rodrigues ia ajudar, com a boa graça de Deus.
- Por quê? - perguntara ele.
- O meu piloto disse para lhe dizer que ele mandou atirá-lo ao mar para fazê-lo ficar sóbrio, senhor.
- Por quê?
- Porque, senhor piloto, ele disse para lhe dizer, porque havia perigo a bordo do Santa Theresa, perigo para o senhor.
- Que perigo?
- O senhor tem que abrir o seu caminho à força, se puder. Mas ele ajudará.
- Por quê?
- Pelo amor da doce Nossa Senhora, cale essa boca herética e ouça, tenho pouco tempo. - Então o imediato lhe falara sobre os recifes e as posições, o caminho do canal e o plano. E dera-lhe duas pistolas. - Meu piloto perguntou se o senhor é bom atirador.
- Péssimo - mentira ele.
- Vá com Deus, disse-me o piloto que lhe dissesse por último.
- Ele também. E você.
- Por mim mando-te para o inferno!
- A tua irmã!
Blackthorne havia adaptado estopins aos barriletes para o caso de o canhoneio começar ou não haver plano algum, ou para o caso de o plano se comprovar falso, e também contra inimigos que ultrapassassem os limites. Sendo tão pequeno, com o estopim aceso e flutuando contra o costado da fragata, o barrilete a afundaria tão certamente quanto uma canhonada de setenta canhões.Não importa o tamanho do barrilete, pensou ele, desde que estripe a fragata.
- Isogi, pela vida de vocês! - gritou, e pegou o leme, agradecendo a Deus por Rodrigues e pelo brilho da lua.
Ali, na boca, a enseada estreitava-se para quatrocentas jardas. A água era profunda quase que de praia a praia, os promontórios rochosos erguendo-se cortantes do mar.
O espaço entre os barcos de pesca era de cem jardas. O Santa Theresa tinha o freio entre os dentes agora, o vento de popa vindo de estibordo, uma forte esteira atrás, e estava ganhando deles de longe. Blackthorne ocupou o centro do canal e fez sinal a Yabu que estivesse pronto. Todos os samurais ronins receberam ordem de se abaixar ao lado das amuradas até que Blackthorne desse o sinal, e cada homem com mosquete ou espada - tomou posição a bombordo ou estibordo, onde quer que fosse necessário, Yabu comandando. O capitão japonês sabia que os remadores deviam acompanhar o tambor e o mestre tamborileiro sabia que devia obedecer ao Anjin-san. E o Anjin-san sozinho devia conduzir o navio.
A fragata estava a cinqüenta jardas à popa, no meio do canal, rumando diretamente para eles, e deixando óbvio que solicitava passagem pelo centro do canal.
A bordo da fragata, Ferreira sussurrou para Rodrigues:
- Abalroe-o. - Estava de olhos em Mariko, que se encontrava a dez passos deles, perto dos balaústres, com Toranaga.
- Não ousaríamos, não com Toranaga ai, e a garota.
- Senhora! - chamou Ferreira. - Senhora, é melhor descer, a senhora e seu amo. Seria mais seguro para ele no convés de armas.
Mariko traduziu para Toranaga, que pensou um instante, depois desceu para o convés de armas.
- Deus amaldiçoe os meus olhos - disse o atirador-chefe a ninguém em particular. - Gostaria de disparar uma carga e afundar alguma coisa. Já faz um maldito ano que não pomos a pique nem um pirata sifilítico.
- Sim. Os macacos merecem um banho.
No tombadilho Ferreira repetiu:
- Abalroe a galera, Rodrigues!
- Por que matar o seu inimigo quando os outros farão isso pelo senhor?
- Minha Nossa Senhora! Você é tão ruim quanto o padre! Não tem sangue! - exclamou Ferreira em espanhol.
- Sim, não tenho sangue de matança - replicou Rodrigues, também em espanhol. - Mas o senhor? O senhor tem. Hein? É sangue espanhol talvez?
- Vai abalroá-lo ou não? - perguntou Ferreira em português, sendo possuído pela iminência da matança.
- Se continuar onde está, sim.
- Então deixe-o ficar onde está.
- O que o senhor tinha em mente para o Inglês? Por que ficou tão furioso por ele não estar a bordo?
- Não gosto de você nem confio em você agora, Rodrigues. Por duas vezes você se pôs do lado do herege, ou parece se pôr, contra mim, ou contra nós. Se houvesse outro piloto aceitável na Ásia, eu o encalharia, Rodrigues, e partiria com o meu Navio Negro.
- Então o senhor naufragaria. Há um odor de morte à sua volta e apenas eu posso protegê-lo.
Ferreira persignou-se supersticiosamente.
- Nossa Senhora, você e sua língua imunda! Que direito tem você de dizer isso?
- Minha mãe era cigana e era a sétima filha de um sétimo filho, como eu.
- Mentiroso!
Rodrigues sorriu.
- Ah, meu senhor capitão-mor, talvez eu seja. - Colocou as mãos em concha em torno da boca e gritou:
- Posições de ação! - e depois ao timoneiro: - Manter o rumo, e se aquela prostituta de galera não se mover, afunde-a!
Blackthorne agarrava o leme firmemente, braços doendo, pernas doendo. O mestre dos remos martelava o tambor, os remadores faziam um esforço final.
A fragata estava a vinte jardas da popa, agora a quinze, a dez. Então Blackthorne girou para bombordo. A fragata quase esbarrou, vindo-lhes no rastro, até que os alcançou. Blackthorne girou o leme para estibordo para se pôr paralelo à fragata, a dez jardas. Então, juntos, lado a lado, ficaram prontos para correr o varetão entre os inimigos.
- Puuuuuuxem, puxem, seus bastardos! - berrou Blackthorne, querendo permanecer exatamente emparelhado, porque só ali eles estavam protegidos pela massa da fragata e pelas suas velas. Alguns tiros de mosquete, depois uma salva de flechas incendiárias, foram disparados contra eles, sem causar nenhum dano real, mas várias setas atingiram por engano as velas inferiores da fragata, e o fogo irrompeu.