Todos os samurais em comando nos botes detiveram seus arqueiros horrorizados. Nenhum deles jamais atacara um navio bárbaro meridional antes. Não eram só eles que traziam as sedas que tornavam suportável o úmido calor de cada verão, e o frio de cada inverno, transformavam toda primavera e todo outono numa alegria? Os bárbaros meridionais não eram protegidos por decretos imperiais? Incendiar um dos seus navios não os enfureceria tanto que eles, com razão, jamais voltariam?
Então os comandantes mantiveram seus homens em cheque enquanto a galera de Toranaga estava sob as asas da fragata, não ousando arriscar a menor chance de um deles ser a causa de os Navios Negros cessarem as viagens, sem a aprovação direta do General Ishido. E só quando os marujos na fragata extinguiram as chamas eles conseguiram respirar com mais facilidade.
Quando as flechas cessaram, Blackthorne também começou a descontrair-se. E Rodrigues. O plano estava funcionando. Rodrigues havia suposto que sob a sua proteção a galera teria uma chance, a única chance.
- Mas o meu piloto diz que o senhor deve se preparar para o inesperado, Inglês - relatara Santiago.
- Empurre esse bastardo para o lado - disse Ferreira.
- Maldição, eu ordeno que você o empurre contra os macacos!
- Cinco pontos para bombordo! - ordenou Rodrigues, serviçalmente.
- Cinco pontos para bombordo! - ecoou o timoneiro.
Blackthorne ouviu a ordem. Instantaneamente ele desviou cinco graus a bombordo e rezou. Se Rodrigues mantivesse a rota muito tempo eles se chocariam contra os barcos de pesca e estariam perdidos. Se ele retardasse a batida e ficasse para trás, sabia que os barcos inimigos o destruiriam, acreditassem ou não que Toranaga se encontrava a bordo. Ele tem que ficar emparelhado.
- Cinco pontos a estibordo! - ordenou Rodrigues, bem a tempo. Ele também não queria mais flechas incendiárias; havia pólvora demais no convés. - Vamos, seu alcoviteiro - resmungou para o vento -, ponha os seus cojones nas minhas velas e tire-nos daqui.
Novamente Blackthorne girou cinco pontos para estibordo, para manter a posição com a fragata, e os dois navios correram lado a lado, os remos de estibordo da galera quase tocando a fragata, os remos de bombordo quase tocando os barcos de pesca.
Nesse momento o capitão compreendeu, assim como o mestre dos remos e os remadores. Puseram nos remos tudo o que restava de suas forças. Yabu gritou uma ordem: os samurais ronins depuseram os arcos e correram para ajudar. Yabu arremessou-se também. Emparelhados. Apenas mais algumas centenas de jardas.
Então cinzentos de alguns dos barcos de pesca, mais intrépidos do que os outros, remaram para interceptá-los e atiraram ganchos. A proa da galera afundou os botes. Os ganchos foram lançados ao mar antes de se prenderem ao costado. Os samurais que os seguravam foram ao fundo. E a voga não vacilou.
- Vá mais para bombordo.
- Não me atrevo, capitão-mor. Toranaga não é nenhum imbecil e, olhe, há um recife à frente.
Ferreira viu as saliências perto do último barco de pesca.
- Por Nossa Senhora, conduza-o contra o recife!
- Dois pontos para bombordo!
Novamente a fragata moveu-se em curva e o mesmo fez Blackthorne. Ambos os navios visavam os barcos de pesca aglomerados. Blackthorne também vira os rochedos. Outro bote foi afundado e uma saraivada de flechas caiu a bordo. Ele manteve o curso tanto tempo quanto ousou, depois gritou:
- Cinco pontos para estibordo! - para prevenir Rodrigues, e girou o leme.
Rodrigues esquivou-se e se afastou bastante. Mas desta vez manteve um ligeiro curso de abalroamento, que não fazia parte do plano.
- Vamos, seu bastardo - disse Rodrigues, estimulado pela caçada e pelo temor. - Vamos avaliar os seus cojones.
Blackthorne tinha que escolher imediatamente entre as pontas do recife e a fragata. Abençoou os remadores, que ainda permaneciam aos remos, a tripulação e todos a bordo que, pela disciplina que demonstravam, davam-lhe o privilégio da escolha. E escolheu.
Girou mais para estibordo, sacou a pistola e fez pontaria.
- Ceda o caminho, por Deus! - gritou, e puxou o gatilho. A bala zuniu através do tombadilho da fragata exatamente entre o capitão-mor e Rodrigues.
O capitão-mor abaixou-se e Rodrigues estremeceu. Inglês filho de uma puta sem leite! Isso foi sorte, boa pontaria ou você fez pontaria para matar?
Viu a segunda pistola na mão de Blackthorne e Toranaga a fitá-lo. Ignorou Toranaga.
Bendita mãe de Deus, o que devo fazer? Continuar com o plano ou mudá-lo? Não é melhor matar esse Inglês? Pelo bem de todos nós? Diga-me, sim ou não!
Responda a si mesmo, Rodrigues, pela sua alma eterna! Você não é um homem?
Ouça então: outros hereges seguirão este Inglês, como piolhos, seja este morto ou não. Devo-lhe uma vida e juro que não tenho sangue de assassino - não para matar um piloto.
- Leme a estibordo - ordenou, e cedeu caminho.
- Meu amo perguntou por que o senhor quase se chocou com a galera.
- Foi apenas um jogo, senhora, um jogo de pilotos. Para testar os nervos um do outro.
- E o tiro de pistola?
- Igualmente um jogo - para testar os meus nervos. Os rochedos estavam muito perto e talvez eu estivesse empurrando demais o Inglês. Somos amigos, não?
- Meu amo diz que é tolice jogar jogos assim.
- Por favor, peça-lhe as minhas desculpas. O importante é que ele está seguro, agora a galera também está, e por isso eu estou contente. Honto.
- O senhor combinou essa fuga, essa astúcia, com o Anjin-san?
- Aconteceu que ele é muito esperto e foi perfeito em sincronia. A lua iluminou-lhe o caminho, o mar favoreceu-o, e ninguém cometeu erro algum. Mas por que os inimigos não o afundaram, eu não sei. Foi a vontade de Deus.
- Foi? - disse Ferreira. Olhava fixamente para a galera à popa da fragata e não se voltou.
Estavam bem além da boca da enseada agora, a galera a poucas amarras atrás, nenhum dos navios correndo. A maior parte dos remos da galera fora travada temporariamente, deixando só o suficiente para avançar com calma, enquanto a maioria dos remadores se recuperava.
Rodrigues não prestou atenção ao Capitão-mor Ferreira. Estava, pelo contrário, absorto em Toranaga. Fico contente por estarmos do lado de Toranaga, disse a si mesmo. Durante a corrida, ele o estudara cuidadosamente, contente pela oportunidade rara. Os olhos do homem estiveram por toda parte, observando atiradores, armas, as velas, com uma curiosidade insaciável, fazendo perguntas aos marujos e ao imediato através Mariko: para que é isto? Como se carrega um canhão? Quanta pólvora? Como se dispara um canhão? Para que servem estas cordas?
- Meu amo diz que talvez tenha sido apenas karma. O senhor compreendeu, karma, capitão-piloto?
- Sim.
- Ele lhe agradece pelo uso do seu navio. Agora voltará ao dele.
- O quê? - Ferreira voltou-se imediatamente. - Estaremos em Yedo muito antes da galera. O Senhor Toranaga é bemvindo a bordo.
- Meu amo diz que não há razão para incomodá-lo mais tempo. Ele voltará para o seu navio.
- Por favor, peça-lhe que fique. Eu apreciaria a companhia dele.
- O Senhor Toranaga lhe agradece mas quer voltar imediatamente ao seu próprio navio.
- Muito bem. Faça o que ele diz, Rodrigues. Envie sinais à galera e desça a chalupa. - Ferreira estava desapontado. Tinha vontade de ver Yedo e queria conhecer Toranaga melhor, agora que tanto do seu futuro estava ligado a ele. Não acreditara no que Toranaga dissera sobre os meios de evitar a guerra. Estamos em guerra. Estamos em guerra contra Ishido, do lado deste macaco, gostemos nós disso ou não. E eu não gosto. - Sentirei muito não ter a companhia do Senhor Toranaga. - Curvou-se polidamente.