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Toranaga retribuiu e falou brevemente.

- Meu amo lhe agradece. - A Rodrigues, ela acrescentou: - Meu amo diz que o recompensará pela galera quando o senhor regressar com o Navio Negro.

- Não fiz nada. Foi apenas um dever. Por favor, desculpe-me por não me levantar da cadeira - minha perna, neh? - respondeu Rodrigues, curvando-se. - Vá com Deus, senhora.

- Obrigada, capitão-piloto. O senhor também.

Avançando às apalpadelas pela escada de escotilha, atrás de Toranaga, ela notou que o Contramestre Pesaro estava comandando a chalupa. Sua pele arrepiou-se, e ela quase vomitou.

Controlou-se com muita força de vontade, grata por Toranaga ter ordenado que todos eles deixassem aquele vaso malcheiroso.

- Um ótimo vento e uma viagem segura - desejou-lhes Ferreira. Fez um aceno, a saudação foi retribuída, e a chalupa zarpou.

- Fique embaixo quando a chalupa voltar e aquela puta de galera estiver fora de vista - ordenou ele ao atirador-chefe.

No tombadilho, parou diante de Rodrigues. Apontou para a galera.

- Você viverá para se arrepender de tê-lo deixado vivo.

- Isso está nas mãos de Deus. O Inglês é um piloto "aceitável', se se pode passar por cima da religião dele, meu capitão-mor.

- Considerei isso.

- E?

- Quanto mais rápido estivermos em Macau, melhor. Faça um tempo recorde, Rodrigues. - Ferreira desceu.

A perna de Rodrigues latejava muito. Tomou um trago do saco de grogue. Que Ferreira vá para o inferno, disse a ,si mesmo. Mas, por favor, Deus, não antes de chegarmos a Lisboa.

O vento mudou de direção levemente e uma nuvem avançou para a auréola da lua. A chuva não estava longe e o amanhecer riscava o céu. Ele concentrou toda a atenção no seu navio, nas velas e no rumo. Quando se sentiu completamente satisfeito, olhou para a chalupa. E finalmente para a galera.

Sorveu mais rum, contente por seu plano ter funcionado tão bem. Até pelo tiro de pistola que encerrara a questão. E contente com a sua decisão.

Dependia de mim fazer, e eu fiz.

- Ainda assim, Inglês - disse ele com grande tristeza -, o capitão-mor tem razão. Com você, a heresia chegou ao Éden.

CAPÍTULO 29

- Anjin-san?

- Hai? - Blackthorne foi arrancado de um sono profundo.

- Aqui está um pouco de comida. E chá.

Por um instante ele não conseguiu se lembrar de quem era ou de onde estava. Depois reconheceu sua cabina a bordo da galera. Um raio de sol atravessava a escuridão. Sentia-se muitíssimo descansado. Não havia batida de tambor agora, e mesmo no mais profundo do seu sono seus sentidos lhe disseram que a âncora estava sendo baixada e que o navio estava seguro, perto da praia, em mar calmo.

Viu uma criada carregando uma bandeja, Mariko ao lado dela - já sem o braço na tipóia -, e ele deitado no beliche do piloto, o mesmo que usara durante a viagem de Anjiro para Osaka, que agora era quase, de certo modo, tão familiar quanto o seu próprio beliche na cabina do Erasmus. Erasmus! Vai ser formidável estar de volta a bordo e rever os rapazes.

Ele se espreguiçou voluptuosamente, depois pegou a xícara de chá que Mariko oferecia.

- Obrigado. Está delicioso. Como vai o seu braço?

- Muito melhor, obrigada. - Mariko flexionou-o para mostrar-lhe. - Foi apenas um ferimento superficial.

- Está com melhor aparência, Mariko-san.

- Sim, sinto-me melhor agora.

Quando ela voltara a bordo ao amanhecer, com Toranaga, estava prestes a perder os sentidos. - É melhor ficar em cima - dissera-lhe ele. - O enjôo passará mais depressa.

- Meu amo pergunta... pergunta para que o tiro de pistola.

- Foi só uma brincadeira de pilotos.

- Meu amo o cumprimenta pela sua habilidade náutica.

- Tivemos sorte. A lua ajudou. E a tripulação foi maravilhosa. Mariko-san, quer perguntar ao capitão-san se ele conhece estas águas? Desculpe, mas diga a Toranaga-sama que não vou conseguir ficar acordado muito mais tempo. Ou podemos lançar âncoras por mais ou menos uma hora, em alto-mar? Preciso dormir.

Ele se lembrava vagamente de ela falando que Toranaga dissera que ele podia descer, que o capitão-san era absolutamente capaz, já que iam permanecer em águas costeiras e não iam para alto-mar. Blackthorne espreguiçou-se de novo e abriu uma vigia da cabina. Havia praia rochosa a umas duzentas jardas de distância.

- Onde estamos?

- Ao largo da costa da província de Totomi, Anjin-san. O Senhor Toranaga quis nadar e deixar os remadores descansar algumas horas. Estaremos em Anjiro amanhã.

- A aldeia de pescadores? Isso é impossível. É quase meio-dia e ao amanhecer estávamos em Osaka. É impossível!

- Ah, isso foi ontem, Anjin-san. O senhor dormiu um dia, uma noite e metade de mais um dia - respondeu ela. - O Senhor Toranaga disse para deixá-lo dormir. Agora ele acha que uma nadada seria bom para despertá-lo. Depois de comer.

A comida eram duas tigelas de arroz e peixe assado na brasa com o molho escuro, agridoce, de vinagre doce, que ela lhe dissera que era feito de feijões fermentados.

- Obrigado. Sim, gostaria de nadar. Quase trinta e seis horas? Não admira que eu me sinta ótimo. - Pegou a bandeja da empregada, ávido. Mas não comeu imediatamente. - Por que ela está com medo? - perguntou.

- Não está com medo, Anjin-san. Só um pouco nervosa. Por favor, desculpe-a. Nunca tinha visto um estrangeiro de perto antes.

- Diga-lhe que, quando faz lua cheia, crescem chifres nos bárbaros e eles põem fogo pela boca, como dragões.

Mariko riu.

- Certamente não lhe direi isso. - Apontou para a mesa. - Há pó dental, uma escova, água e toalhas limpas. - - Depois, em latim: - Agrada-me ver que o senhor está bem. É exatamente como se comentou na marcha: o senhor tem grande coragem.

Os olhos deles se encontraram, mas o momento passou logo. Ela se curvou polidamente. A criada curvou-se. A porta fechou-se atrás delas. Não pense nela, ordenou-se ele. Pense em Toranaga ou em Anjiro. Por que paramos em Anjiro amanhã? Para desembarcar Yabu? Que bom que nos livramos dele! Omi estará em Anjiro. O que vou fazer com Omi?

Por que não pedir a Toranaga a cabeça de Omi? Ele lhe deve um favor ou dois. Ou por que não pedir para lutar com Omi-san? Como? Com pistolas ou espadas? Você não teria chance com uma espada, e seria assassinato se você tivesse uma arma de fogo. O melhor é não fazer nada e esperar. Logo você terá uma chance e então se vingará dos dois. Você goza do favor de Toranaga agora. Seja paciente. Pergunte a si mesmo o que você precisa dele. Logo estaremos em Yedo, portanto você tem muito tempo.

Blackthorne usou os pauzinhos do modo como vira os homens na prisão fazer, erguendo a tigela de arroz até junto à boca e empurrando os arroz grudento da borda da tigela para a boca com os pauzinhos. Os pedaços de peixe eram mais difíceis. Ele ainda não tinha destreza suficiente, então usou os dedos, contente por estar comendo a sós, sabendo que comer com os dedos na frente de Mariko, Toranaga ou qualquer japonês seria muito descortês.

Depois de ter desaparecido cada pedacinho, ele continuava faminto.

- Preciso conseguir mais comida - disse ele em voz alta.

- Jesus do paraíso, gostaria de comer pão fresco, ovos fritos, manteiga, queijo...

Subiu ao convés. Quase todos estavam despidos. Alguns homens estavam se enxugando, outros tomando sol, e uns poucos pulavam do costado. Ao mar, perto do navio, samurais e marujos nadavam, ou chapinhavam como crianças.

- Konnichi wa, Anjin-san.

- Konnichi wa, Toranaga-sama.

Toranaga, completamente nu, vinha subindo a escada de embarque que fora descida até a água.

- Sonata wa oyogitamo ka? - disse ele, gesticulando na direção do mar, tirando a água da cintura e dos ombros com tapinhas.

- Hai, Toranaga-sama, domo - disse Blackthorne, presumindo que o outro lhe perguntava se não queria nadar.