Toranaga apontou de novo para o mar e falou brevemente, depois chamou Mariko para interpretar. Mariko avançou do convés de popa, protegendo a cabeça com uma sombrinha carmesim, o quimono branco informal amarrado com negligência.
- Toranaga-sama diz que o senhor parece muito descansado, Anjin-san. A água é revigoração.
- Revigorante - disse ele, corrigindo-a polidamente. - Sim.
- Ah, obrigada... revigorante. Ele disse: por favor, nade, então.
Toranaga estava negligentemente encostado à amurada, enxugando as orelhas com uma pequena toalha. Quando sentiu o ouvido esquerdo entupido, inclinou a cabeça para o lado e saltou sobre o calcanhar esquerdo até destapá-lo. Blackthorne viu que Toranaga era muito musculoso e muito rijo, com exceção da barriga. Embaraçado, muito consciente da presença de Mariko, despiu a camisa, o codpiece, as calças, até estar igualmente nu.
- O Senhor Toranaga perguntou se todos os ingleses são tão peludos quanto o senhor, com cabelo tão claro.
- Alguns sim - disse ele.
- Nós... nossos homens não têm cabelo no peito nem nos braços como o senhor. Não muito. Ele disse que o senhor tem uma excelente compleição.
- Ele também tem. Agradeça-lhe por favor. - Blackthorne afastou-se, dirigindo-se para o topo da prancha de embarque, consciente dela e da jovem, Fujiko, ajoelhada na popa sob um guarda-sol amarelo, uma criada ao seu lado, também a observá-lo.
Então, incapaz de conservar a dignidade o suficiente para caminhar despido até o mar, ele mergulhou por sobre o costado dentro da água azul-pálida. Foi um mergulho perfeito e o frio do mar atingiu-o de modo estimulante. O fundo arenoso estava três braças abaixo, algas flutuando, multidões de peixes indiferentes aos nadadores. Perto do fundo, interrompeu a queda, girou e brincou com os peixes, depois voltou à tona e começou a nadar para o navio com a braçada aparentemente preguiçosa e fácil, mas muito rápida, que Alban Caradoc lhe ensinara.
A pequena baía era desolada: muitos rochedos, uma minúscula praia de seixos, e nenhum sinal de vida. Montanhas erguiamse a mil pés contra um céu azul, infinito.Deitou-se sobre uma rocha, tomando sol. Quatro samurais haviam nadado com ele e não estavam muito longe. Sorriram e acenaram. Mais tarde ele nadou de volta, e eles o seguiram.
Toranaga continuava a observá-lo.
Subiu ao convés. Sua roupa tinha sumido. Fujiko, Mariko e as duas criadas ainda estavam lá. Uma das criadas inclinou-se e ofereceu-lhe uma toalha ridiculamente pequena, que ele pegou e com que começou a se enxugar, voltando-se, constrangido, para a amurada. Ordeno-lhe que se sinta à vontade, disse a si mesmo. Você fica à vontade, nu, num quarto fechado com Felicity, não fica? É só em público, com mulheres por perto - com ela por perto -, que você fica embaraçado. Por quê? Eles não reparam na nudez e isso é totalmente sensato. Você está no Japão. Deve agir como eles. Você vai ser como eles e agir como um rei.
- O Senhor Toranaga diz que o senhor nada muito bem. O senhor lhe ensinaria aquela braçada? - estava dizendo Mariko.
- Ficaria contente em fazer isso - disse ele, e forçou-se a se voltar e se encostar como Toranaga fizera. Mariko lhe sorria - parecendo tão bonita, pensou ele.
- O modo como o senhor mergulhou no mar. Nunca... nunca vimos isso antes. Sempre pulamos. Ele quer aprender a fazer isso.
- Agora?
- Sim, por favor.
- Posso ensinar-lhe ... pelo menos, posso tentar.
Uma criada segurava um quimono de algodão para Blackthorne, que, agradecido, deslizou para dentro dele, amarrando-o com o cinto. Agora, completamente descontraído, explicou como mergulhar, como erguer os braços em torno da cabeça e saltar, mas tomando cuidado para evitar o mergulho de barriga.
- É melhor começar do pé da escada de embarque, com queda de cabeça, sem pular nem correr. É assim que ensinamos as crianças.
Toranaga ouviu, fez perguntas e depois, quando se sentiu satisfeito, disse através de Mariko:
- Ótimo. Creio que compreendi. - Caminhou para o topo da escada. Antes que Blackthorne pudesse detê-lo, Toranaga se atirou na água, quinze pés abaixo. A barrigada foi péssima. Ninguém riu. Toranaga voltou ruidosamente para o convés e tentou de novo. Mais uma vez aterrissou na horizontal. Outros samurais foram igualmente mal sucedidos.
- Não é fácil - disse Blackthorne. - Levei um bom tempo para aprender. Deixe estar e amanhã tentamos de novo.
- O Senhor Toranaga disse: "Amanhã é amanhã. Hoje vou aprender a mergulhar".
Blackthorne tirou o quimono e demonstrou de novo. Alguns samurais o imitaram. Todos falharam. Assim como Toranaga. Seis vezes. Após outra demonstração, Blackthorne subiu para o pé da prancha e viu Mariko entre eles, nua, preparando-se para se lançar no espaço. Seu corpo era perfeito. No antebraço, o curativo.
- Espere, Mariko-san! É melhor tentar daqui. A primeira vez.
- Muito bem, Anjin-san.
Ela desceu até ele, o minúsculo crucifixo realçando-lhe a nudez. Ele lhe mostrou como se curvar e cair para a frente no mar, segurando-a pela cintura para que mudasse de posição, de modo que a cabeça atingisse a água primeiro.
Então Toranaga tentou perto da linha d'água e foi razoavelmente bem sucedido. Mariko tentou de novo e o toque da sua pele aqueceu Blackthorne, que de repente começou a fazer brincadeira e caiu na água, orientando-os lá debaixo até se esfriar.
Então subiu correndo ao convés, ficou de pé sobre a amurada e mostrou-lhes um mergulho de morto, que achou que poderia ser mais fácil, sabendo que ter êxito era vital para Toranaga.
- Mas é preciso se manter rígido, hai? Como uma espada. Aí não há como errar. - Atirou-se. O mergulho foi perfeito. Ele voltou à tona e esperou.
Vários samurais avançaram, mas Toranaga fez-lhes sinal que se afastassem. Levantou os braços rigidamente, a coluna ereta. O peito e os quadris estavam escarlates devido às barrigadas. Depois se deixou cair para a frente, do modo como Blackthorne mostrara. Sua cabeça atingiu a água primeiro e as pernas lhe desabaram em cima, mas foi um mergulho e o primeiro mergulho bem-sucedido de qualquer um deles. Um troar de aprovação saudou-o quando surgiu à superfície. Ele repetiu, melhor desta vez. Outros homens o seguiram, alguns com êxito, outros não. Depois foi Mariko quem tentou.
Blackthorne viu os pequenos seios firmes e a minúscula cintura, o estômago chato e as pernas curvilíneas. Um lampejo de dor passou-lhe pelo rosto quando ergueu os braços acima da cabeça. Mas retesou-se como uma seta e se atirou bravamente. Varou a água como uma lança, habilmente. Quase ninguém além dele notou.
- Foi um excelente mergulho. Realmente excelente - disse ele, dando-lhe a mão para erguê-la da água até a escada de embarque. - A senhora devia parar agora. Poderia abrir de novo o corte do braço.
- Sim, obrigada, Anjin-san. - Ela se erguia ao lado dele, mal lhe atingindo o ombro, muito contente consigo mesma. - Foi uma sensação rara, a queda para a frente e o fato de ter que permanecer rígida, e mais que tudo ter que dominar o medo. Sim, foi realmente uma sensação muito rara. - Ela caminhou pelo passadiço e vestiu o quimono que a criada segurava. Depois, secando o rosto delicadamente, desceu para o convés inferior.
Jesus Cristo, isso é mulher demais, pensou ele.
Ao pôr-do-sol, Toranaga mandou chamar Blackthorne. Estava sentado no convés de popa sobre futons limpos, perto de um pequeno braseiro de carvão, em cima do qual fumegavam alguns pedaços de madeira aromática. Eram usados para perfumar o ar o manter a distância os insetos e mosquitos do crepúsculo. Seu quimono estava passado e asseado, e os imensos ombros em forma de asa do manto engomado davam-lhe uma presença formidável. Yabu, também, estava vestido formalmente, e Mariko.
Fujiko também se encontrava lá. Vinte samurais, sentados, mantinham-se silenciosamente em guarda. Havia archotes colocados em suportes e a galera oscilava calmamente ancorada na baía.