- Saquê, Anjin-san?
- Domo, Toranaga-sama. - Blackthorne curvou-se e aceitou o pequeno cálice estendido por Fujiko, ergueu-o em brinde a Toranaga e esvaziou-o. O cálice foi imediatamente enchido de novo. Blackthorne estava usando um quimono marrom da guarda e sentia-se mais à vontade e livre do que nas suas próprias roupas.
- O Senhor Toranaga diz que vamos ficar aqui esta noite. Amanhã chegaremos a Anjiro. Ele gostaria de ouvir mais a respeito do seu país e do mundo exterior.
- Claro. O que ele gostaria de saber? Está uma noite adorável, não? - Blackthorne instalou-se confortavelmente, consciente da feminilidade de Mariko. Consciente demais. Estranho, estou mais consciente dela agora que está vestida do que quando não estava usando nada.
- Sim, muito. Logo estará úmido, Anjin-san. O verão não é uma boa época. - Transmitiu a Toranaga o que dissera. - Meu amo falou que eu lhe dissesse que Yedo é pantanosa. Os mosquitos são péssimos no verão, mas a primavera e o outono são lindos ... sim, realmente as estações de nascimento e morte do ano são lindas.
- A Inglaterra tem clima temperado. O inverno é mau mais ou menos a cada sete anos. E o verão também. A carestia ocorre uma vez a cada seis anos, embora às vezes tenhamos dois anos ruins de enfiada.
- Também temos carestias. Toda carestia e ruim. Como é no seu país agora?
- Tivemos más colheitas três vezes nos últimos dez anos e não tivemos sol para amadurecer o trigo. Mas isso foi a mão do Todo-Poderoso. Agora a Inglaterra está muito forte. Somos prósperos. Nosso povo trabalha arduamente. Fazemos o nosso próprio tecido, todas as armas, a maior parte dos tecidos de lã da Europa. Vem alguma seda da França mas a qualidade não é boa e se destina apenas aos muito ricos.
Blackthorne resolveu não contar sobre praga, motins ou insurreições causadas pela tomada das terras da comunidade, nem sobre o êxodo dos camponeses para as cidades. Em vez disso, contou-lhes sobre os bons reis e rainhas, líderes idôneos e sábios parlamentares e guerras vitoriosas.
- O Senhor Toranaga quer que tudo fique bem claro. O senhor afirma que apenas o poder marítimo os protege da Espanha e Portugal?
- Sim. Apenas isso. O controle dos nossos mares é que nos mantém livres. Vocês são uma nação insular também, exatamente como nós. Sem o controle dos seus mares, também não ficam indefesos contra um inimigo externo?
- Meu amo concorda com o senhor.
- Ah, também foram invadidos? - Blackthorne viu um leve franzir de sobrolho quando ela se virou para Toranaga, e lembrou-se que devia se limitar a responder e não a fazer perguntas.
Quando ela lhe falou de novo, foi mais séria.
- O Senhor Toranaga diz que devo responder à sua pergunta, Anjin-san. Sim, fomos invadidos duas vezes. Há mais de trezentos anos atrás - seria 1274, pelas suas contas -, os mongóis de Kublai-Cã, que acabava de conquistar a China e a Coréia, vieram contra nós quando nos recusamos a nos submeter à autoridade dele. Alguns milhares de homens desembarcaram em Kyushu, mas nossos samurais conseguiram contê-los, e pouco depois o inimigo se retirou. Mas sete anos mais tarde eles voltaram. Dessa vez a invasão consistiu de quase mil navios chineses e coreanos, com duzentos mil homens - mongóis, chineses e coreanos -, na maior parte homens de cavalaria. Em toda a história chinesa, essa foi a maior força de invasão jamais reunida. Ficamos indefesos ante uma força tão vasta, Anjin-san. Novamente começaram a desembarcar na baía de Hakata, em Kyushu, mas antes que pudessem desdobrar todos os seus exércitos, um grande vento, um tai-fun, veio do sul e destruiu a esquadra e tudo que continha. Os que ficaram em terra foram rapidamente mortos. Foi um camicase, um vento divino, Anjin-san - disse ela, com fé absoluta -, um camicase enviado pelos deuses para proteger esta Terra dos Deuses do invasor estrangeiro. Os mongóis nunca mais voltaram e, após oitenta anos mais ou menos, a dinastia deles, a Chin, foi extirpada da China. - Mariko acrescentou com grande satisfação: - Os deuses protegeram-nos contra eles. Os deuses sempre nos protegerão contra invasões. Afinal, esta é a terra deles, neh?
Blackthorne pensou na imensa quantidade de navios e homens da invasão; fazia a armada espanhola contra a Inglaterra parecer insignificante.
- Também fomos ajudados por uma tempestade, senhora - disse ele, com igual seriedade. - Muitos acreditam que também foi enviada por Deus - certamente foi um milagre -, e quem sabe, talvez tenha sido mesmo. - Ele olhou para o braseiro quando uma brasa crepitou e as chamas dançaram. Depois disse: - Os mongóis quase nos engoliram na Europa, também. - Contou a ela como as hordas de GengisCa, neto de Kublai-Cã, chegaram quase aos portões de Viena antes que seu ataque desenfreado fosse detido, e depois deram meia-volta, deixando montanhas de cadáveres no seu rastro. - As pessoas daqueles tempos acreditaram que Gengis-Cã e seus soldados tivessem sido enviados por Deus para punir o mundo de seus pecados.
- O Senhor Toranaga diz que ele foi apenas um bárbaro, imensamente bom na guerra.
- Sim. Ainda assim na Inglaterra bendizemos a nossa sorte por estarmos numa ilha. Agradecemos a Deus por isso e pelo canal. E pela nossa marinha. Com a China tão perto e tão poderosa - e com vocês e a China em guerra -, surpreende-me que não tenham uma grande marinha. Não têm medo de outro ataque? - Mariko não respondeu, mas traduziu para Toranaga o que fora dito. Quando terminou, Toranaga falou com Yabu, que assentiu e respondeu, igualmente sério. Os dois homens trocaram idéias algum tempo. Mariko respondeu a outra pergunta de Toranaga, depois falou mais uma vez a Blackthorne.
- Para controlar os seus mares, Anjin-san, de quantos navios precisam?
- Não sei exatamente, mas agora a rainha deve ter uns cento e cinqüenta navios de linha. São navios construidos apenas para combate.
- Meu amo pergunta quantos navios a sua rainha constrói por ano.
- De vinte a trinta belonaves, as melhores e as mais velozes do mundo. Mas os navios geralmente são construidos por grupos particulares de mercadores e depois vendidos à coroa.
- Por lucro?
Blackthorne lembrou-se da opinião samurai sobre o lucro e o dinheiro.
- A rainha generosamente dá mais do que o custo real a fim de estimular a pesquisa e os novos estilos de construção. Sem o favor real, isso dificilmente seria possível. Por exemplo, o Erasmus, o meu navio, é de um novo tipo, um projeto inglês construido sob licença da Holanda.
- O senhor poderia construir um navio assim aqui?
- Sim. Se eu tivesse carpinteiros, intérpretes, e todo o material e tempo. Primeiro eu teria que construir um pequeno vaso. Nunca construí um inteiramente sozinho, portanto teria que experimentar... Naturalmente - acrescentou, tentanto conter a própria excitação à medida que a idéia se desenvolvia -, naturalmente, se o Senhor Toranaga desejasse um navio, ou navios, talvez se pudesse combinar um comércio. Talvez pudéssemos encomendar um número de belonaves, a serem construídas na Inglaterra. Poderíamos trazê-las até aqui para ele - mastreadas como ele quisesse e armadas como ele quisesse.
Mariko traduziu. O interesse de Toranaga se intensificou. Assim como o de Yabu.
- Ele pergunta se os nossos marinheiros podem ser treinados para tripular navios assim.
- Certamente, dando-se tempo a eles. Poderíamos nos encarregar de que os mestres de navegação - ou um deles - ficassem em suas águas por um ano. Então ele poderia criar um programa de treinamento para vocês. Uma marinha moderna. Sem igual.
Mariko falou durante algum tempo. Toranaga interrogou-a de novo, incisivo, e o mesmo fez Yabu.
- Yabu-san pergunta: "Sem igual?"
- Sim. Melhor do que qualquer coisa que os espanhóis pudessem ter. Ou os portugueses.
Fez-se silêncio. Toranaga estava evidentemente dominado pela idéia, embora tentasse dissimular.