- Meu amo pergunta se o senhor tem certeza de que isso poderia ser acertado.
- Sim.
- Quanto tempo levaria?
- Dois anos até que eu chegasse em casa. Dois anos para construir o navio ou os navios. Mais dois para voltar para cá. Metade do custo teria que ser pago antecipadamente, o restante contra entrega.
Toranaga pensativamente se inclinou para a frente e pôs mais lenha aromática no braseiro. Todos o observaram e esperaram. Depois ele falou longamente com Yabu. Mariko não traduziu o que estava sendo dito e Blackthorne sabia que não devia perguntar, embora tivesse gostado muito de tomar parte na conversa. Estudou a todos eles, até a garota Fujiko, que também ouvia atentamente, mas não conseguiu captar nada de nenhum deles. Sabia que a idéia fora brilhante, que poderia gerar um lucro imenso e garantir a sua passagem de volta em segurança para a Inglaterra.
- Anjin-san, quantos navios o senhor poderia conduzir?
- Uma pequena frota de cinco navios de cada vez seria o melhor. Poder-se-la esperar perder no mínimo um navio devido a tempestades, temporais, ou interferência luso-espanhola - tenho certeza de que eles tentariam impedi-los a qualquer preço de ter navios de guerra. Em dez anos o Senhor Toranaga poderia ter uma marinha de quinze a vinte navios. - Deixou-a traduzir, depois continuou, lentamente. - A primeira frota poderia trazer os mestres carpinteiros, construtores navais, atiradores, marujos e mestres. No prazo de dez a quinze anos a Inglaterra poderia fornecer ao Senhor Toranaga trinta modernos vasos de guerra, mais do que o suficiente para dominar as suas águas domésticas. E, nessa altura, se ele quisesse, possivelmente poderia estar construindo seus próprios navios aqui. Nós... - Ele ia dizer "venderemos", mas mudou a palavra. - Minha rainha ficaria honrada em ajudá-lo a formar sua própria marinha, e se ele desejar, nós treinaremos o pessoal e o forneceremos.
Oh, sim, pensou ele, exultante, quando o embelezamento final do plano se encaixou no lugar. Nós comandaremos e providenciaremos para que o almirante e a rainha lhe ofereçam uma aliança de compromisso - boa para você e boa para nós -, que será parte do negócio, e então, juntos, amigo Toranaga, escorraçamos o cão espanhol e português para fora destes mares e seremos senhores deles para sempre. Esse poderia ser o maior acordo isolado de comércio jamais realizado por qualquer nação, pensou ele alegremente. E com uma frota anglo-japonesa limpando estes mares, nós, ingleses, dominaremos o comércio de seda entre o Japão e a China. Então serão milhões todos os anos!
Se eu conseguir isso, mudarei o rumo da história. Terei riquezas e honrarias para além dos meus sonhos. Tornar-me-ei um ancestral. E tornar-se um ancestral é praticamente a melhor coisa que um homem pode tentar fazer, ainda que falhe na tentativa.
- Meu amo diz que é uma pena que o senhor não fale a nossa língua.
- Sim, mas tenho certeza de que a senhora está traduzindo perfeitamente.
- Ele não disse isso como crítica a mim, Anjin-san, mas como observação. É verdade. Seria muito melhor para o meu senhor conversar diretamente, assim como eu converso.
- Há dicionários aqui, Mariko-san? E gramáticas, gramáticas de português-japonês ou latim-japonês? Se o Senhor Toranaga pudesse me ajudar com livros e professores, eu tentaria aprender a sua língua.
- Não temos livros assim.
- Mas os jesuítas têm. A senhora mesma disse isso.
- Ah! - Ela falou com Toranaga e Blackthorne viu os olhos dos dois, de Toranaga e de Yabu, iluminar-se, e sorrisos alargar-lhes o rosto.
- Meu amo diz que o senhor será ajudado, Anjin-san.
Por ordem de Toranaga, Fujiko serviu mais saquê a Blackthorne e a Yabu. Toranaga bebia apenas chá, assim como Mariko.
Incapaz de se conter, Blackthorne disse:
- O que ele diz da minha sugestão? Qual é a resposta?
- Anjin-san, seria melhor ter paciência. Ele responderá no momento devido.
- Por favor, perguntê-lhe agora.
Relutantemente Mariko voltou-se para Toranaga.
- Por favor, desculpe-me, senhor, mas o Anjin-san pergunta com grande deferência o que o senhor pensa do plano dele. Com toda a humildade e polidez ele solicita uma resposta.
- Ele terá a minha resposta oportunamente.
Mariko disse a Blackthorne:
- Meu amo diz que vai considerar o seu plano e pensar cuidadosamente no que o senhor disse. Pedê-lhe que seja paciente.
- Domo, Toranaga-sama.
- Vou me deitar agora. Partiremos ao amanhecer. - Toranaga levantou-se. Todos o seguiram lá para baixo, menos Blackthorne. Blackthorne foi deixado com a noite.
À primeira promessa de amanhecer, Toranaga soltou quatro dos pombos-correio que tinham sido mandados para o navio com a bagagem principal, quando o navio fora preparado. Os pássaros descreveram dois círculos no ar, depois partiram, dois retornando ao lar em Osaka, dois para Yedo. A mensagem cifrada para Kiritsubo era uma ordem a ser passada para Hiromatsu: deviam todos tentar partir pacificamente de imediato. Se fossem impedidos, deviam se trancar. No momento em que a porta fosse forçada deveriam atear fogo àquela parte do castelo e cometer seppuku.
A mensagem a seu filho Sudara, em Yedo, dizia que ele escapara, estava em segurança, e ordenava-lhe que desse seguimento aos preparativos secretos para a guerra.
- Ponha-se ao mar, capitão.
- Sim, senhor.
Pelo meio-dia haviam cruzado a angra entre Totomi e Izu, e estavam ao largo do cabo Ito, o ponto extremo-meridional da península de Izu. O vento estava excelente, e a vela mestra, sozinha, ajudava o impulso dos remos.
Então, bem junto à praia, num profundo canal entre a terra firme e algumas ilhotas rochosas, quando haviam virado para norte, houve um ronco agourento.
Todos os remos pararam.
- O que, em nome de Cristo... - Os olhos de Blackthorne estavam arregalados na direção da praia.
Repentinamente uma fenda imensa serpeou penhascos acima e um milhão de toneladas de rochas despencaram no mar em avalanche. As águas pareceram ferver por um momento. Uma pequena onda veio em direção à galera, e passou de lado. A avalanche cessou. O ronco se repetiu, mais profundo agora, mas remoto. Rochas rolaram dos penhascos. Todos escutaram atentamente e esperaram, olhando a face do penhasco. Sons de gaivotas, de arrebentação e de vento. Então Toranaga fez sinal ao mestre do tambor, que reiniciou a batida.
Os remos começaram. A vida no navio voltou à normalidade.
- O que foi isso? - perguntou Blackthorne.
- Apenas um terremoto. - Mariko estava perplexa. - O senhor não tem terremotos no seu país?
- Não. Nunca. Eu nunca tinha visto um.
- Oh, temo-los com freqüência, Anjin-san. Esse não foi nada, só um terremoto pequeno. O principal centro de choque deve ter sido em algum outro lugar, talvez até em alto-mar. Ou talvez tenha sido apenas um terremoto pequeno, só aqui. O senhor tem muita sorte de testemunhar apenas um terremoto pequeno.
- Foi como se a terra toda estivesse tremendo. Eu teria jurado que vi ... Ouvi falar de tremores. Na Terra Santa e na terra dos otomanos, acontecem às vezes. Jesus! - Ele desabafou, o coração ainda batendo violentamente. - Eu poderia jurar que vi aquele penhasco inteiro sacudir.
- Oh, mas sacudiu, Anjin-san. Quando se está em terra, é a sensação mais terrível do mundo. Não há aviso, Anjin-san. Os tremores vêm em ondas, às vezes de lado, às vezes de cima para baixo, às vezes três ou quatro abalos rápidos, às vezes um pequeno, seguido de um maior no dia seguinte. Não há padrão. O pior que já vivi foi há seis anos, perto de Osaka, no terceiro dia do mês das Folhas Mortas. Nossa casa desabou em cima de nós, Anjin-san. Não ficamos feridos, meu filho e eu. Arrastamo-nos para fora por entre os escombros. Os abalos continuaram por uma semana ou mais, alguns intensos, outros muito intensos. O grande castelo novo do taicum em Fujimi foi totalmente destruído. Centenas de milhares de pessoas se perderam naquele terremoto e nos incêndios que se seguiram. Esse é o maior perigo, Anjin-san, os incêndios que sempre se seguem. Nossas cidades e aldeias morrem com muita facilidade. Algumas vezes ocorre um terremoto violento em alto-mar e a lenda diz que é isso que causa o nascimento das Grandes Ondas. Têm dez ou vinte pés de altura. Não há nunca como antecipá-las e elas não têm época. Uma Grande Onda simplesmente avança do mar sobre as nossas praias e varre o interior.