Cidades podem desaparecer. Yedo foi parcialmente destruída há alguns anos por uma onda assim.
- É normal para vocês? Todos os anos?
- Oh, sim. Todos os anos, nesta Terra dos Deuses, temos abalos de terra. E incêndio, inundação, Grandes Ondas, e as tempestades monstruosas - os tai-funs. A natureza é muito severa conosco. - Lágrimas surgiram nos cantos dos olhos de Mariko.
- Talvez seja por isso que amemos tanto a vida, Anjin-san. O senhor vê, temos que amá-la. A morte faz parte do nosso ar, do nosso mar e da nossa terra. O senhor deve saber, Anjin-san, que nesta Terra dos Deuses a morte é o nosso legado.
LIVRO TRÊS
CAPÍTULO 30
- Tem certeza de que está tudo pronto, Mura?
- Sim, Omi-san, sim, acho que sim. Seguimos exatamente as suas ordens, e as de Igurashi-san.
- É melhor que nada saia errado ou haverá outro chefe de aldeia ao pôr-do-sol - disse-lhe Igurashi, primeiro lugar-tenente de Yabu, com grande acrimônia, seu único olho congestionado pela falta de sono, Chegara de Yedo na véspera, com o primeiro contingente de samurais e instruções específicas.
Mura não respondeu, apenas assentiu respeitosamente e manteve os olhos dirigidos para o chão.
Encontravam-se na praia, perto do molhe, diante das fileiras de aldeães ajoelhados, intimidados e igualmente exaustos - cada homem, mulher e criança da aldeia, com exceção dos acamados -, à espera da chegada da galera. Todos usavam as melhores roupas. Os rostos estavam esfregados, a aldeia inteira varrida e reluzente como se se tratasse da véspera do Ano Novo, quando, por um antigo costume, todo o império era limpo. Os barcos de pesca estavam meticulosamente dispostos em linha, cobertos, cordas enroladas. Até a praia ao longo da baía fora revolvida com ancinho.
- Nada sairá errado, Igurashi-san - disse Omi. Dormira muito pouco naquela semana, desde que as ordens de Yabu chegaram de Osaka através de um dos pombos-correio de Toranaga. Imediatamente ele mobilizara a aldeia e cada homem válido num raio de vinte ris a fim de preparar Anjiro para a chegada dos samurais e de Yabu. E agora que Igurashi sussurrara o segredo muito confidencial, apenas aos seus ouvidos, de que o grande Daimio Toranaga estava acompanhando o seu tio e que tivera êxito na sua tentativa de fuga da armadilha de Ishido, ele se sentia mais que satisfeito de haver gastado tanto dinheiro. – Não há por que se preocupar, Igurashi-san. Este é o meu feudo e a responsabilidade é minha.
- Concordo. Sim, é. - Igurashi dispensou Mura com um gesto desdenhoso. E acrescentou em voz baixa: - O senhor é responsável. Mas, sem a intenção de ofender, digo-lhe que o senhor nunca viu o nosso amo quando alguma coisa sai errada. Se tivermos esquecido alguma coisa, ou esses comedores de excremento não tiverem feito tudo o que deviam, nosso amo transformará o seu feudo inteiro e os que ficam ao norte e ao sul em montes de esterco antes que o sol se ponha amanhã. - Dirigiu-se a passos largos para a frente dos seus homens.
Naquela manhã as últimas companhias de samurais haviam chegado de Mishima, a capital de Yabu que ficava ao norte. Agora também se encontravam, com todos os outros, alinhados em formação militar na praia, na praça, e no flanco da colina, as bandeiras tremulando à leve brisa, lanças eretas cintilando ao sol. Três mil samurais, a elite do exército de Yabu. Quinhentos cavaleiros.
Omi não estava com medo. Fizera tudo o que fora possível, e examinara pessoalmente tudo o que pudera ser examinado. Se alguma coisa saísse errado, seria apenas karma. Mas nada vai sair errado, pensou ele, animado. Quinhentos kokus tinham sido gastos ou estavam destinados aos preparativos - mais do que toda a sua renda anual antes de Yabu ter-lhe aumentado o feudo. Ele ficara atordoado com a soma, mas Midori, sua esposa, dissera que deviam gastar prodigamente, que o custo era minúsculo comparado à honra que o Senhor Yabu lhe concedia.
- E com o Senhor Toranaga aqui, quem pode dizer que oportunidades você não terá? - sussurrara ela.
Ela tem toda a razão, pensou Omi orgulhosamente.
Examinou novamente a aldeia e a praça. Tudo parecia perfeito. Midori e sua mãe esperavam sob o toldo que fora preparado para receber Yabu e seu hóspede Toranaga. Omi notou que a língua da mãe estava em movimento, e desejou que Midori pudesse ser poupadá do seu ataque constante. Alisou uma dobra no seu quimono já impecável, ajustou as espadas e olhou na direção do mar.
- Ouça, Mura-san - sussurrou cautelosamente Uo, o pescador. Era um dos cinco anciãos da aldeia, todos ajoelhados com Mura. - Sabe, estou tão atemorizado. Se eu urinasse, urinaria pó.
- Então não urine, amigo velho. - Mura conteve o sorriso.
Uo era um homem de ombros largos, uma rocha de mãos enormes e nariz quebrado, e exibia uma expressão atormentada.
- Não vou urinar. Mas acho que vou peidar. - Uo era famoso pelo seu humor e coragem, e pela quantidade dos seus gases. No ano anterior, quando houvera a competição de flatulência com a aldeia do norte, ele fora campeão dos campeões e trouxera a grande honra para Anjiro.
- Iiiiih, talvez fosse melhor não fazer isso - casquinou Haru, um pescador baixinho e mirrado. - Um dos cabeças de merda poderia ficar com ciúmes.
- Vocês receberam ordens de não tratar os samurais assim enquanto houver ao menos um perto da aldeia - sibilou Mura. Oh ko, estava ele pensando, espero que não nos tenhamos esquecido de nada. Deu uma olhada no flanco da montanha, na paliçada de bambu que circundava a fortaleza provisória que haviam construido com muita pressa e suor. Trezentos homens, escavando, construindo e carregando. A outra casa nova fora mais fácil. Ficava no outeiro, logo abaixo da casa de Omi, e ele podia vê-la, menor do que a de Omi, mas com um teto de telhas, um jardim provisório, e uma pequena casa de banho. Suponho que Omi se mude para lá e ceda a sua ao Senhor Yabu, pensou Mura.
Olhou para trás, para o promontório onde a galera apareceria a qualquer momento agora. Logo Yabu desceria a terra firme e então estariam todos nas mãos dos deuses, dos kamis, de Deus Pai, seu Filho abençoado, e a Virgem abençoada, oh ko!
Virgem abençoada, proteja-nos! Seria demais pedir-lhe que olhasse por esta aldeia especial de Anjiro? Só nos próximos dias? Precisamos de favor especial para nos proteger do nosso amo e senhor, oh, sim! Acenderei cinqüenta velas e meus filhos serão definitivamente trazidos para a verdadeira fé, prometeu Mura.
Naquele dia Mura se sentia muito contente por ser cristão: podia interceder junto ao Deus único e isso era uma proteção a mais para a sua aldeia. Tornara-se cristão na juventude porque seu suserano se convertera e ordenara imediatamente que todos os seus seguidores o imitassem. E quando, vinte anos atrás, esse senhor fora morto lutando por Toranaga contra o taicum, Mura continuara cristão para honrar-lhe a memória. Um bom soldado não tem mais que um amo, pensou. Um amo verdadeiro.
Ninjin, um homem de rosto redondo e dentes muito salientes, estava especialmente agitado com a presença de tantos samurais.
- Mura-san, desculpe, mas o que o senhor fez foi perigoso, terrível, neh? O pequeno terremoto desta manhã foi um sinal dos deuses, um presságio. O senhor cometeu um terrível engano, Mura-san.
- O que está feito está feito, Ninjin. Esqueça isso.