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- Como? Foi no meu celeiro e...

- Parte da coisa está no seu celeiro. Eu tenho grande quantidade no meu - disse Uo, já sem sorrir.

- Nada está em parte alguma. Nada, velhos amigos - disse Mura, cautelosamente. - Não existe nada. - Por ordens suas, trinta kokus de arroz tinham sido roubados nos últimos dias do depósito dos samurais e se encontravam agora escondidos pela aldeia, junto com outras provisões e equipamento - e armas.

- Armas não - protestara Uo. - Arroz sim, mas armas não!

- A guerra se aproxima.

- E contra a lei ter armas - lamuriara-se Ninjin.

- Essa é uma lei nova, com quase doze anos de idade - bufou Mura. - Antes podíamos ter quaisquer armas que quiséssemos e não éramos confinados à aldeia. Podíamos ir aonde quiséssemos, ser o que quiséssemos. Podíamos ser camponeses-soldados, pescadores, mercadores, até samurais - alguns podiam, vocês sabem que é verdade.

- Sim, mas agora é diferente, Mura-san, diferente. O táicum ordenou que fosse diferente!

- Logo as coisas serão como eram antes. Estaremos combatendo novamente.

- Então vamos esperar - suplicara Ninjin. - Por favor. Agora é contra a lei. Se a lei mudar, será karma. O taicum fez a lei: nada de armas. Nenhuma. Sob pena de morte instantânea.

- Abram os olhos, todos vocês! O taicum morreu! E eu lhes digo que logo Omi-san necessitará de homens treinados e a maioria de nós já guerreou, neh? Pescamos e combatemos, tudo em sua época. Não é verdade?

- Sim, Mura-san - concordara Uo, por entre o seu medo.

- Antes do taicum não estávamos confinados.

- Eles nos pegarão, terão que nos pegar - choramingara Ninjin. - Não terão piedade. Vão nos cozinhar como fizeram com o bárbaro.

- Não fale sobre o bárbaro!

- Ouçam, amigos - dissera Mura. - Nunca teremos uma chance como esta de novo. Foi enviada por Deus. Ou pelos deuses. Precisamos pegar cada faca, seta, lança, espada, mosquete, escudo, arco que pudermos. Os samurais pensarão que outros samurais os roubaram - os cabeças de merda não vieram de toda Izu? E que samurai realmente confia no outro? Precisamos reaver nosso direito de guerrear, neh? Meu pai foi morto em combate - assim como o pai dele e o pai do pai dele! Ninjin, em quantas batalhas você esteve? Dúzias delas, neh? Uo, e você? Vinte? Trinta?

- Mais. Eu não servi com o taicum, maldita seja sua memória? Ah, antes de se tornar taicum ele era um homem. Essa é a verdade! Depois alguma coisa o transformou, neh? Ninjin, não se esqueça de que Mura-san é o chefe da aldeia! E não devemos nos esquecer de que o pai dele também foi chefe! Se o chefe fala em armas, então serão armas.

Agora, ajoelhado ao sol, Mura estava convencido de ter agido corretamente, de que essa nova guerra duraria para sempre, e que o mundo deles seria novamente como sempre fora. A aldeia continuaria ali, e os barcos e alguns aldeões. Porque todos os homens - camponeses, daimios, samurais, até os etas - tinham que comer e o peixe esperava no mar. Então os soldados-aldeães deixariam a guerra de vez em quando, como sempre, e largariam com seus botes ...

- Olhem! - disse Uo, e apontou involuntariamente em meio ao silêncio repentino.

A galera estava contornando o promontório.

Fujiko estava abjetamente ajoelhada diante de Toranaga na cabina principal que ele usara durante a viagem. Estavam os dois a sós.

- Imploro-lhe, senhor - suplicava ela. - Tire essa sentença de sobre a minha cabeça.

- Não é uma sentença, é uma ordem.

- Obedecerei, naturalmente, mas não posso fazer...

- Não pode? - enfureceu-se Toranaga. - Como se atreve a discutir? Digo-lhe que vai ser a consorte do piloto e você tem a impertinência de discutir?

- Peço desculpas, senhor, de todo o coração - disse rapidamente Fujiko, as palavras se derramando. - Não tive a intenção de contradizê-lo. Só quis dizer que não posso fazer isso do modo como o senhor gostaria. Imploro que compreenda. Perdoe-me, senhor, mas não é possível ser feliz - ou fingir ser feliz. - Ela inclinou a cabeça até o futon. - Humildemente lhe suplico que me permita cometer seppuku.

- Eu já disse que não aprovo mortes sem sentido. Tenho uma finalidade para você.

- Por favor, senhor, quero morrer. Humildemente lhe rogo. Quero me unir ao meu marido e ao meu filho.

A voz de Toranaga açoitou-a, abafando os sons da galera:

- Já lhe recusei essa honra. Você não a merece, ainda. E é só por causa do seu avô, porque o Senhor Hiromatsu é o meu mais velho amigo, que ouvi pacientemente os seus resmungos mal-educados até agora. Basta desse absurdo, mulher. Pare de se comportar como uma camponesa imbecil!

- Humildemente lhe peço permissão para cortar o cabelo e me tornar monja. Buda.. .

- Não. Dei-lhe uma ordem. Obedeça!

- Obedecer? - disse ela, sem levantar os olhos, o rosto rígido. Depois, meio para si mesma: - Pensei que tivesse recebido ordem de ir para Yedo.

- Você recebeu ordem de vir para este navio! Você esqueceu a sua posição, a sua herança, esqueceu o seu dever. Você esqueceu o seu dever! Estou enojado com você. Vá e prepare-se!

- Quero morrer, por favor. deixe-me juntar-me a ele, senhor.

- Seu marido nasceu samurai por engano. Era de conformação defeituosa, portanto sua prole seria igualmente malformada. Aquele imbecil quase me arruinou! Juntar-se a eles? Que absurdo! Você está proibida de cometer seppuku! Agora, saia daqui!

Mas ela não se moveu.

- Talvez fosse melhor que eu a mandasse para os etas. Para uma das casas deles. Talvez isso a fizesse se lembrar da sua educação e do seu dever.

Um estremecimento fustigou-a, mas ela sibilou, desafiadora:

- Pelo menos seriam japoneses!

- Sou o seu suserano. Você-fará-o-que-eu-mandar!

Fujiko hesitou. Depois deu de ombros.

- Sim, senhor. Peço desculpas pelos meus modos. - Estendeu as mãos no chão e curvou profundamente a cabeça, a voz arrependida. Mas no íntimo não estava convencida, e tanto ele quanto ela sabiam o que ela planejava fazer. - Senhor, sinceramente peço desculpas por perturbá-lo, por destruir a sua wa, a sua harmonia, e pelos meus maus modos. O senhor tem razão. Eu estava errada. – Levantou-se e dirigiu-se calmamente para a porta da cabina.

- Se eu lhe conceder o que deseja - disse Toranaga -, você em troca fará o que eu quero, com toda a dedicação?

Lentamente ela se voltou.

- Por quanto tempo, senhor? Peço licença para lhe perguntar por quanto tempo devo ser consorte do bárbaro.

- Um ano.

Ela lhe deu as costas e estendeu a mão para a maçaneta da porta.

- Meio ano - disse Toranaga.

A mão de Fujiko parou. Tremendo, ela apoiou a cabeça contra a porta.

- Sim. Obrigada, senhor. Obrigada.

Toranaga se pôs de pé e foi até a porta. Ela a abriu para ele, curvou-se enquanto ele a cruzava, e fechou-a atrás dele. Depois as lágrimas vieram silenciosamente.

Ela era samurai.

Toranaga subiu ao convés sentindo-se muito contente consigo mesmo. Alcançara o que queria com um mínimo de dificuldade. Se a garota tivesse sido pressionada demais, teria desobedecido e tirado a própria vida sem permissão. Mas agora se esforçaria por agradar e era importante que se tornasse consorte do piloto alegremente, pelo menos na aparência, e seis meses seria tempo mais que suficiente. Mulheres são muito mais fáceis de lidar do que homens, pensou ele satisfeito. Muito mais fáceis, em certas coisas.

Então viu os samurais de Yabu concentrados em torno da baía e sua sensação de bem-estar desvaneceu-se.

- Bem-vindo a Izu. Senhor Toranaga - disse Yabu. - Ordenei que alguns homens viessem lhe servir de escolta.

- Ótimo.

A galera ainda estava a duzentas jardas do atracadouro, aproximando-se habilmente. e eles podiam ver Omi, Igurashi. os futons e o toldo.