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- Eles são uns cabeças de bosta lá na corte, e todos fantoches - dissera Nakamura na sua áspera voz de camponês.

- Ouça, O-chan: Toranaga tem setenta mil samurais. Quando tivermos esmagado os Beppu ele terá o Kwanto e mais homens. Meu filho precisará de líderes como Yoshi Toranaga, assim como eu preciso deles. Sim, e um dia meu filho precisará de Yoshi Sudara. É melhor que Sudara seja tio do meu filho. Sua irmã está prometida a Sudara, mas ele viverá conosco alguns anos, neh?

- Naturalmente, senhor - concordara Toranaga de imediato, entregando seu filho e herdeiro como refém.

- Ótimo. Mas ouça, primeiro você e Sudara jurarão lealdade eterna ao meu filho.

E assim acontecera. Então, durante o décimo mês de cerco, o primeiro filho de Nakamura morrera, de febre, mau sangue ou kami malévolo.

- Que todos os deuses amaldiçoem Odawara e Toranaga - enfurecera-se Ochiba. - É por culpa de Toranaga que estamos aqui. Ele quer o Kwanto. Foi por culpa dele que o nosso filho morreu. É ele o seu verdadeiro inimigo. Quer que o senhor morra, e eu também! Condene-o à morte - ou ponha-o ao trabalho. Deixe-o comandar o ataque, deixe-o pagar com a vida pela vida do nosso filho! Exijo vingança...

Então Toranaga comandara o ataque. Tomara o Castelo de Odawara minando os muros e por ataque frontal. Depois o pesaroso Nakamura reduzira a cidade a pó. Com a sua queda e a caça a todos os Beppu, o império foi dominado e Nakamura se tornou primeiro kwampaku, depois taicum. Mas muitos morreram em Odawara.

Gente demais, pensou Toranaga, ali na praia de Anjiro. Olhou Yabu.

- É uma pena que o taicum tenha morrido, neh?

- Sim.

- Meu cunhado era um grande comandante. E um grande professor, também. Como ele, nunca me esqueço de um amigo. Ou de um inimigo.

- Logo o Senhor Yaemon atingirá a maioridade. O espírito dele é o espírito do taicum. Senhor Toran... - Mas antes que Yabu pudesse deter a inspeção, Toranaga já a havia reiniciado e havia pouca coisa que Yabu pudesse fazer além de acompanhá-lo.

Toranaga caminhou ao longo das fileiras, esvaindo-se em amabilidades, escolhendo um homem aqui, outro ali, reconhecendo alguns, os olhos sempre em movimento enquanto rebuscava na memória à procura de rostos e nomes. Ele tinha aquela qualidade muito rara dos generais especiais que inspecionam de um modo tal, que cada homem sente, pelo menos durante um instante, que o general olhou apenas para ele, talvez até tenha conversado só com ele, dentre todos os seus camaradas. Toranaga estava fazendo aquilo para o que nascera, e que fizera milhares de vezes: controlando homens com a força da vontade.

Quando o último samurai foi revisto, Yabu, Igurashi e Omi estavam exaustos. Mas Toranaga não, e novamente, antes que Yabu pudesse detê-lo, dirigiu-se rapidamente para um ponto mais elevado e parou lá, no alto e sozinho.

- Samurais de Izu, vassalos do meu amigo e aliado, Kasigi Yabu-sama! - começou ele naquela voz sonora e potente. - Estou honrado por me encontrar aqui. Estou honrado em ver parte da força de Izu, parte das forças do meu grande aliado. Ouçam, samurais, nuvens escuras estão se reunindo sobre o império e ameaçam a paz do taicum. Devemos preservar as dádivas do taicum contra a traição em altos postos! Que cada samurai esteja preparado! Que cada arma esteja afiada! Juntos defenderemos a vontade dele! E levaremos a melhor! Que os deuses do Japão, grandes e pequenos, prestem atenção! Que eles destruam sem piedade todos aqueles que se opuserem às ordens do taicum! - Levantou os braços, proferiu o grito de batalha deles, "Kasigi", e, inacreditavelmente, curvou-se para as legiões e manteve-se curvado.

Todos o fitavam de olhos arregalados. Então "Toranaga!" veio ribombando até ele dos regimentos, sempre e sempre. E os samurais retribuíram a reverência.

Até Yabu se curvou, dominado pela força do momento.

Antes que Yabu pudesse se endireitar, Toranaga já descera a colina, mais uma vez a passo acelerado.

- Vá com ele, Omi-san - ordenou Yabu. Teria sido inadequado que ele próprio corresse atrás de Toranaga.

- Sim, senhor.

Quando Omi se afastou, Yabu perguntou a Igurashi:

- Quais são as notícias de Yedo?

- A Senhora Yuriko, sua esposa, mandou lhe dizer primeiro que está acontecendo uma tremenda mobilização pelo Kwanto inteiro. Nada na superfície, mas por baixo está tudo fervendo. Ela acredita que Toranaga está se preparando para a guerra - um ataque repentino, talvez até contra Osaka.

- E Ishido?

- Nada até o momento em que partimos. Isso foi há cinco dias. Nada, também, sobre a fuga de Toranaga. Só fiquei a par disso ontem, quando a sua senhora mandou um pombo-correio de Yedo.

- Ah, Zukimoto já criou aquele serviço de pombos-correio?

- Sim, senhor.

- Ótimo.

- A mensagem dela foi esta: "Toranaga escapou com êxito de Osaka, com o nosso amo numa galera. Façam os preparativos para recebê-los em Anjiro". Pensei que seria melhor manter isso em segredo, exceto de Omi-san, mas estamos todos preparados.

- Como?

- Ordenei um "exercício" de guerra, senhor, por toda Izu. Dentro de três dias cada estrada e passagem para Izu estará bloqueada, se for isso o que o senhor quiser. Há uma frota pirata simulada ao norte, que poderia arrasar qualquer navio sem escolta, de dia ou de noite, se for isso o que o senhor quiser. E há acomodações aqui para o senhor e um hóspede, por mais importante que seja, se for isso o que o senhor quiser.

- Ótimo. Mais alguma coisa? Outras notícias?

Igurashi relutava em transmitir notícias cujas implicações ele não compreendia.

- Estamos preparados para qualquer coisa aqui. Mas esta manhã chegou uma mensagem de Osaka: "Toranaga renunciou ao conselho de regentes".

- Impossível! Por que ele faria isso?

- Não sei. Não consigo formar uma opinião. Mas deve ser verdade. Nunca recebemos informação errada dessa fonte antes.

- A Senhora Sazuko? - perguntou Yabu cautelosamente, citando o nome da consorte mais jovem de Toranaga, cuja criada era uma espiã a seu serviço.

Igurashi assentiu.

- Sim. Mas não compreendi em absoluto. Agora os regentes o impedirão, não? Ordenarão a morte dele. Foi loucura renunciar, neh?

- Ishido deve tê-lo forçado a fazer isso. Mas como? Não houve nem um sopro de rumor. Toranaga nunca renunciaria espontaneamente! Você tem razão, seria o ato de um louco. Ele está perdido se tiver renunciado. Deve ser falso.

Transtornado, Yabu desceu a colina e viu Toranaga cruzar a praça na direção de Mariko e do bárbaro, com Fujiko ao lado. Depois Mariko andando ao lado de Toranaga, os outros esperando na praça. Toranaga falava rápida e urgentemente. Então Yabu viu-o dar a ela um pequeno rolo de pergaminho e perguntou a si mesmo o que conteria e o que estava sendo dito. Que nova traição estará Toranaga planejando? perguntou-se, desejando ter a esposa Yuriko ali para ajudá-lo com seus sábios conselhos.

Ao atingir o embarcadouro, Toranaga parou. Não se dirigiu para o navio e a proteção dos seus homens. Sabia que seria na praia que se tomaria a última decisão. Ele não podia escapar. Nada estava resolvido ainda. Observou Yabu e Igurashi se aproximando. A aparente impassibilidade de Yabu dissê-lhe muito.

- Então, Yabu-san?

- O senhor ficará alguns dias, Senhor Toranaga?

- Seria melhor que eu partisse imediatamente.

Yabu ordenou que todos se afastassem. Num instante os dois homens ficaram sozinhos na praia.

- Recebi notícias inquietantes de Osaka. O senhor renunciou ao conselho de regentes?

- Sim. Renunciei.

- Então o senhor matou a si mesmo, destruiu a sua causa, todos os seus vassalos, todos os seus aliados, todos os seus amigos! Enterrou Izu e me assassinou!

- Certamente o conselho de regentes pode tirar-lhe o feudo, e a vida se quiser. Sim.