- Por todos os deuses, viver e morrer e ainda ter nascido... - Yabu lutou para se dominar. - Peçe desculpas pelos meus maus modos, mas a sua... a sua incrível atitude... sim, peço desculpas. - Não havia nenhum propósito real a ser atingido com uma demonstração de emoção, que todos sabiam inconveniente e indigna. - Sim, é melhor que fique aqui, então, Senhor Toranaga.
- Creio que prefiro partir imediatamente.
- Aqui ou Yedo, qual é a diferença? A ordem dos regentes virá em seguida. Imagino que o senhor quererá cometer seppuku imediatamente. Com dignidade. Em paz. Eu ficaria honrado em atuar como seu assistente.
- Obrigado. Mas ainda não chegou nenhuma ordem legal, portanto a minha cabeça continuará onde está.
- Que importância tem um dia ou dois? É inevitável que a ordem chegue. Farei todos os preparativos, sim, e eles serão perfeitos. O senhor pode contar comigo.
- Obrigado. Sim, posso compreender por que você quereria a minha cabeça.
- A minha própria cabeça também está perdida. Se eu mandasse a sua para Ishido, ou a tirasse e lhe pedisse perdão, isso talvez o convencesse, mas duvido, neh?
- Se eu estivesse na sua posição, talvez pedisse a sua cabeça. Infelizmente a minha não o ajudará em absoluto.
- Sou inclinado a concordar. Mas vale a pena tentar. - Yabu cuspiu no chão. — Mereço morrer por ser tão estúpido e por me colocar em poder de um cabeça de bosta.
- Ishido nunca hesitará em lhe tomar a cabeça. Mas primeiro tomará Izu. Oh, sim, Izu está perdida com ele no poder.
- Não tente me iludir! Eu sei que isso vai acontecer!
- Não o estou iludindo, meu amigo - disse Toranaga, saboreando a perda de dignidade de Yabu. - Simplesmente disse que, com Ishido no poder, você estará perdido e Izu estará perdida, porque o parente dele, Ikawa Jikkyu, cobiça Izu, neh? Mas, Yabu-san, Ishido não tem o poder. Ainda. - E, de amigo para amigo, contou a Yabu por que renunciara.
- O conselho está paralisado! - Yabu não podia acreditar.
- Não existe conselho algum! Não existirá até que haja cinco membros de novo. - Toranaga sorriu. - Pense nisso, Yabu-san. Agora estou mais forte do que nunca, neh? Ishido está neutralizado, assim como Jikkyu. Agora você tem todo o tempo de que precisa para treinar os seus atiradores. Agora é dono de Suruga e Totomi. Agora tem a cabeça de Jikkyu. Dentro de poucos meses você lhe verá a cabeça num chuço, a cabeça de todos os parentes dele, e entrará com toda a pompa em seus novos domínios. - Abruptamente deu meia-volta e gritou: - Igurashi-san! - e quinhentos homens ouviram a voz de comando.
Igurashi veio correndo, mas antes que o samurai tivesse dado três passos, Toranaga berrou:
- Traga uma guarda de honra. Cinqüenta homens! Imediatamente! — Ele não ousou dar a Yabu um intervalo de um momento sequer para detectar a enorme falha no seu argumento: que se Ishido estava paralisado agora e não tinha poder, então a cabeça de Toranaga numa salva de madeira seria de enorme valor para Ishido, e assim para Yabu. Ou, melhor ainda, Toranaga amarrado como um marginal comum e entregue vivo aos portões do Castelo de Osaka daria a Yabu a imortalidade e as chaves do Kwanto.
Enquanto a guarda de honra se formava à sua frente, Toranaga disse alto:
- Em honra desta ocasião, Yabu-sama, talvez o senhor aceitasse isto como símbolo de amizade. - E puxou a longa espada, segurou-a deitada sobre as duas mãos, e ofereceu-a.
Yabu pegou a espada como se estivesse sonhando. Era inestimável. Era uma herança Minowara, famosa por todo o reino.
Toranaga possuía aquela espada há quinze anos. Fora-lhe presenteada por Nakamura diante da majestade reunida de todos os daimios importantes do império, exceto Beppu Genzaemon, como pagamento parcial por um acordo secreto.
Isso acontecera pouco depois da batalha de Nagakudé, muito antes da Senhora Ochiba. Toranaga acabara de derrotar o General Nakamura, o futuro taicum, quando Nakamura ainda era apenas um arrivista, sem mandato nem poder ou título formal, e a sua ânsia pelo poder absoluto ainda encontrava obstáculo. Ao invés de reunir um exército esmagador e arrasar Toranaga, o que era a sua política habitual, Nakamura resolveu ser conciliador. Oferecera a Toranaga um tratado de amizade e uma aliança de compromisso, e, para cimentá-los, sua meia irmã como esposa. O fato de a mulher já ser casada e de meia-ldade não incomodou nem a Nakamura nem a Toranaga em absoluto. Toranaga concordou com o pacto. Imediatamente o marido da mulher, um dos vassalos de Nakamura - agradecendo aos deuses que o convite ao divórcio não tivesse vindo acompanhado de um convite a cometer seppuku - mandara-a, agradecido, de volta ao meio irmão. Imediatamente Toranaga se casou com ela com toda a pompa e cerimônia ao seu alcance, e no mesmo dia concluiu um pacto secreto de amizade com o imensamente poderoso clã Beppu, os inimigos declarados de Nakamura, que, naquela época, ainda se encastelavam desdenhosamente no Kwanto, na porta dos fundos, muito desprotegida, de Toranaga.
Então Toranaga ficara caçando com seus falcões e à espera do inevitável ataque de Nakamura. Mas nada acontecera. Em vez de atacar, surpreendentemente, Nakamura mandara sua venerada e amada mãe para o acampamento de Toranaga como refém, ostensivamente para visitar a enteada, a nova esposa de Toranaga, mas sempre um refém, e em troca convidara Toranaga para a reunião de todos os daimios que ele organizara em Osaka. Toranaga pensara muito e longamente. Depois aceitara o convite, sugerindo ao seu aliado Beppu Genzaemon que seria imprudência irem ambos. Depois, secretamente, pusera sessenta mil samurais em movimento para Osaka, contra a esperada traição de Nakamura, e deixara seu filho mais velho, Noboru, encarregado da sua nova esposa e da sogra. Noboru imediatamente empilhara gravetos secos e facilmente inflamáveis nos beirais do telhado da residência delas e dissera-lhes asperamente que atearia fogo se qualquer coisa acontecesse ao pai.
Toranaga sorriu, lembrando-se. Na noite que precedera a sua chegada a Osaka, Nakamura, sem cerimônia como sempre, fizeralhe uma visita secreta, sozinho e desarmado.
- Salve, Tora-san.
- Salve, Senhor Nakamura.
- Ouça: combatemos juntos em muitas batalhas, conhecemos muitos segredos, cagamos muitas vezes no mesmo pote para querer mijar em nossos próprios pés ou um nos pés do outro.
- Concordo - dissera Toranaga precavidamente.
- Ouça, então. Estou a um passo de dominar o reino. Para conseguir o poder total, necessito do respeito dos clãs antigos, os senhores dos feudos hereditários, os herdeiros atuais dos Fujimoto, Takashima e Minowara. Assim que eu tiver o poder, qualquer daimio ou três juntos podem mijar sangue que não me faz a mínima diferença.
- O senhor tem o meu respeito ... sempre teve.O homenzinho com cara de macaco rira fartamente. - Você venceu justamente em Nagakudé. É o melhor general que jamais conheci, o maior daimio do reino. Mas agora vamos parar de jogar, você e eu. Ouça. Amanhã quero que você se curve para mim, diante de todos os daimios, como meu vassalo. Quero você, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, como um vassalo aquiescente. Publicamente. Não para me lamber o rabo, mas polido, humilde e respeitoso. Com você como meu vassalo, o resto vai até peidar de tanta urgência em pôr a cabeça no pó e o rabo ao ar. E os poucos que não fizerem isso... bem, que se cuidem.
- Isso o fará senhor de todo o Japão. Neh?
- Sim. O primeiro da história. E você me terá dado isso. Admito que não posso fazê-lo sem você. Mas, ouça, se fizer isso por mim, terá o primeiro lugar depois de mim. Todas as honras que desejar. Qualquer coisa. Há bastante para nós dois.
- Há?
- Sim. Primeiro tomo o Japão. Depois a Coréia. Em seguida a China. Eu disse a Goroda que queria isso e é o que terei. Então você poderá ficar com o Japão - uma província da minha China!
- Mas agora, Senhor Nakamura? Agora tenho que me submeter, neh? Estou em seu poder, neh? O senhor está com uma força esmagadora à minha frente, e os Beppu me ameaçam os fundos.