- Cuidarei deles muito em breve - dissera o guerreiro camponês. - Aqueles cadáveres zombadores recusaram meu convite para vir aqui amanhã. Mandaram o meu pergaminho de volta coberto de merda de passarinho. Você quer a terra deles? O Kwanto todo?
- Não quero nada deles nem de ninguém.
- Mentiroso — disse Nakamura cordialmente. - Ouça-me, Tora-san, tenho quase cinqüenta anos. Nenhuma das minhas mulheres jamais concebeu. Tenho sumo em abundância, sempre tive, e em toda a minha vida devo ter me deitado com uma centena de mulheres, duas centenas, de todos os tipos, de todas as idades, de todos os jeitos, mas nenhuma jamais concebeu uma criança, sequer natimorta. Tenho tudo, mas não tenho filhos e nunca terei. É o meu karma. Você tem quatro filhos vivos e sabe-se lá quantas filhas. Tem quarenta e três anos, portanto pode fazer mais uma dúzia, e isso com tanta facilidade como os cavalos cagam, e esse é o seu karma. Além disso é Minowara e isso é karma. Que diz de eu adotar um dos seus filhos e torná-lo meu herdeiro?
- Agora?
- Em breve. Digamos dentro de três anos. Nunca foi importante ter um herdeiro antes, mas agora as coisas são diferentes. Nosso falecido amo Goroda teve a estupidez de se deixar assassinar. Agora a terra é minha... poderia ser minha. Bem?
- O senhor tornará os acordos formais, publicamente formais, dentro de dois anos?
- Sim. Dentro de dois anos. Pode confiar em mim. Nossos interesses são os mesmos. Ouça: dentro de dois anos, em público e combinamos, você e eu, que filho será. Desse modo partilhamos tudo, hein? Nossa dinastia conjunta fica assentada para o futuro, portanto não há problemas nisso e é bom para mim. Os lucros serão imensos. Primeiro o Kwanto. Hein?
- Talvez Beppu Genzaemon se submeta... seu eu me submeter.
- Não posso permitir que eles façam isso, Tora-san. Você cobiça a terra deles.
- Não cobiço nada.
A risada de Nakamura fora jovial.
- Sim. Mas devia. O Kwanto é digno de você. É seguro por trás de paredes de montanhas, fácil de defender. Com o delta você controlará os campos de arroz mais ricos do império. Terá as costas para o mar e uma renda de dois milhões de kokus. Mas não faça de Kamakura a sua capital. Nem de Odawara.
- Kamakura sempre foi a capital do Kwanto.
- Por que você não cobiçaria Kamakura, Tora-san? Não faz seiscentos anos que ela encerra o santuário sagrado do kami guardião da sua família? Hachiman, o kami da guerra, não é a divindade Minowara? Seu ancestral foi sábio em escolher o kami da guerra para venerar.
- Não cobiço nada, não venero nada. Um santuário é apenas um santuário, e nunca constou que o kami da guerra ficasse em qualquer santuário.
- Fico contente por você não cobiçar nada, Tora-san, pois assim nada o desapontará. Nisso você é como eu. Mas Kamakura não é capital para você. Há sete passagens levando até ela, coisa demais para defender. E não dá para o mar. Não, eu não aconselharia Kamakura. Ouça, seria melhor e mais seguro que você avançasse para além das montanhas. Você precisa de um porto marítimo. Há um que vi uma vez, Yedo, atualmente uma aldeia de pescadores, mas você a transformará numa grande cidade. Fácil de defender, perfeita para o comércio. Você é a favor do comércio. Eu também. Ótimo. Portanto você precisa ter um porto marítimo. Quanto a Odawara, vamos arrasá-la, como lição para todos os outros.
- Isso será muito difícil.
- Sim. Mas seria uma boa lição para todos os outros daimios, neh?
- Tomar essa cidade de assalto seria dispendioso.
Novamente a risada sarcástica.
- Poderia ser, para você, se não se juntasse a mim. Tenho que atravessar as suas terras atuais para chegar lá. Você sabia que é a linha de frente dos Beppu? A garantia dos Beppu? Juntos, você e eles poderiam me manter a distância um ano ou dois, até três. Mas eu chegaria lá afinal. Oh, sim. lh, por que desperdiçar mais tempo com eles? Estão todos mortos, com exceção do seu genro, se você quiser, ah, eu sei que você tem uma aliança com eles, mas isso não vale uma tigela de bosta de cavalo. Então, qual é a sua resposta? Os lucros vão ser imensos. Primeiro o Kwanto - isso é seu -, depois terei o Japão todo. Depois a Coréia, fácil. Em seguida a China - difícil, mas não impossível. Sei que um camponês não pode se tornar shogun, mas o "nosso" filho será shogun, e também poderia se aboletar no Trono do Dragão da China, ou o filho dele. Agora chega de conversa. Qual é a sua resposta, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, vassalo ou não? Nada mais tem valor para mim.
- Vamos urinar sobre o acordo - dissera Toranaga, tendo ganhado tudo o que desejara e por que planejara. E no dia seguinte, ante a desnorteada majestade dos daimios truculentos, ele humildemente oferecera sua espada e suas terras, sua honra e sua herança ao camponês arrivista senhor da guerra. Implorara pela permissão de servir a Nakamura e à sua casa para sempre. E ele, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, abjetamente encostara a cabeça no pó. O futuro taicum, então, fora magnânimo: tomara-lhe as terras e imediatamente lhe presenteara o Kwanto como feudo assim que fosse conquistado, ordenando guerra total contra os Beppu pelos seus insultos ao imperador. E também dera a Toranaga a espada que adquirira recentemente de uma das tesourarias imperiais. A espada fora feita pelo mestre espadeiro Miyoshi-Go séculos atrás, e pertencera um dia ao guerreiro mais famoso da história, Minowara Yoshitomo, o primeiro shogun Minowara. Toranaga lembrou-se daquele dia. E de outros quando, poucos anos depois, a Senhora Ochiba dera à luz um menino e outro quando, inacreditavelmente, depois de o primeiro filho do taicum ter convenientemente morrido, nascera Yaemon, o segundo filho.
O que arruinara o plano todo. Karma.
Ele viu Yabu segurando a espada do seu ancestral com reverência.
- É tão afiada quanto dizem? - perguntou Yabu.
- Sim.
- O senhor me concede uma grande honra. Guardarei o seu presente como um tesouro. - Yabu curvou-se, cônscio de que, devido ao presente, seria o primeiro na terra, depois de Toranaga.
Toranaga retribuiu a mesura e depois, desarmado, encaminhou-se para a escada de embarque. Precisou de toda a sua força de vontade para disfarçar a raiva e não deixar os pés vacilarem, e rezou para que a avidez de Yabu o mantivesse hipnotizado só por mais uns momentos.
- Zarpar! - ordenou, subindo ao convés, e voltou-se para a praia e acenou alegremente.
Alguém rompeu o silêncio e gritou o seu nome, depois outros se uniram ao grito. Houve um troar geral de aprovação pela honra feita ao senhor deles. Mãos prestimosas empurraram o navio para o largo. Os remadores puxaram com rapidez. A galera avançou.
- Capitão, para Yedo, rapidamente!
- Sim, senhor.
Toranaga olhou para trás, seus olhos explorando a praia, esperando perigo a qualquer momento. Yabu erguia-se junto ao molhe, ainda inebriado pela espada, Mariko e Fujiko esperavam ao lado do toldo com as outras mulheres. O Anjin-san estava na extremidade da praça, onde lhe disseram que esperasse - rígido, sobranceiro, e inconfundivelmente furioso. Seus olhos se encontraram. Toranaga sorriu e acenou.
O aceno foi correspondido, mas friamente, e isso divertiu muitíssimo Toranaga.
Blackthorne subiu desconsoladamente até o molhe.
- Quando é que ele volta, Mariko-san?
- Não sei, Anjin-san.
- Como é que iremos para Yedo?
- Vamos ficar aqui. Eu, pelo menos, fico três dias. Depois devo seguir para lá.
- Por mar?
- Por terra.
- E eu?
- O senhor deve ficar aqui.
- Por quê?