- O senhor manifestou interesse por aprender a nossa língua. E há trabalho para o senhor aqui.
- Que trabalho?
- Não sei, sinto muito. O Senhor Yabu lhe dirá. Meu amo deixou-me aqui para traduzir, por três dias.
Blackthorne estava cheio de pressentimentos. Tinha as pistolas na cintura, mas não tinha facas, nem pólvora nem munição. Ficara tudo na cabina a bordo da galera.
- Por que a senhora não me disse que íamos ficar aqui? - perguntou. - Só disse que vínhamos a terra.
- Eu não sabia que o senhor também ficaria aqui - retrucou ela. - O Senhor Toranaga me disse há apenas um momento, na praça.
- Por que não disse a mim, então? A mim mesmo?
- Não sei.
- Eu deveria estar indo para Yedo. É lá que se encontra a minha tripulação. É lá que está o meu navio. Como é que fica?
- Ele só disse que o senhor devia permanecer aqui.
- Por quanto tempo?
- Ele não me disse, Anjin-san. Talvez o Senhor Yabu saiba. Por favor, tenha paciência.
Blackthorne podia ver Toranaga em pé no tombadilho, olhando para a praia. - Acho que ele sabia o tempo todo que eu devia ficar aqui, não sabia?
Ela não respondeu. Como é infantil falar em voz alta o que se pensa, disse ela a si mesma. E como Toranaga foi extraordinariamente inteligente para escapar desta armadilha.
Fujiko e as duas criadas encontravam-se ao lado dela, esperando pacientemente à sombra, com a mãe e a esposa de Omi, a qual Mariko conhecera rapidamente. Mariko olhou para além delas, para a galera. Estava ganhando velocidade agora. Mas ainda se encontrava facilmente no raio de uma seta. A qualquer momento agora ela sabia que devia começar. Oh, minha Nossa Senhora, faça-me forte, orou, toda a sua atenção centrada em Yabu.
- É verdade? É verdade? - dizia Blackthorne.
- O quê? Oh, desculpe, eu não sei, Anjin-san. Só posso dizer-lhe que o Senhor Toranaga é muito sábio. O mais sábio dos homens. Quaisquer que tenham sido os seus motivos, foram bons. - Ela estudou os olhos azuis e o rosto duro, sabendo que Blackthorne não compreendera nada do que ocorrera ali. - Por favor, seja paciente, Anjin-san. Não há nada a temer. O senhor é o vassalo favorito dele e está sob...
- Não estou com medo, Mariko-san. Só estou cansado de ser atirado de um lado para outro como um fantoche. E não sou vassalo de ninguém.
- "Contratado" é melhor? Ou como o senhor descreveria um homem que trabalha para outro ou é contratado por outro para específico... - Nisso ela viu o sangue subir ao rosto de Yabu.
- As armas... as armas ainda estão na galera! - gritou ele.
Mariko sabia que chegara o momento. Apressou-se na direção dele quando ele se voltou para gritar ordens para Igurashi.
- Com o seu perdão, Senhor Yabu - disse ela, dominando-o -, não há por que se preocupar em relação às armas. O Senhor Toranaga disse que lhe pedisse perdão pela pressa, mas tem coisas urgentes a fazer pelos seus interesses conjuntos em Yedo. Disse que mandará a galera de volta imediatamente. Com as armas. E com pólvora extra. E também com os duzentos e cinqüenta homens que o senhor lhe solicitou. Estarão aqui dentro de cinco ou seis dias.
- O quê?
Paciente e polidamente Mariko explicou de novo, conforme Toranaga lhe dissera que fizesse. Depois, quando Yabu compreendeu, ela tirou o rolo de pergaminho da manga.
- Meu amo pedê-lhe que leia isto. Refere-se ao Anjin-san. - Formalmente ela lhe estendeu o rolo.
Mas Yabu não pegou. Seus olhos se dirigiram para a galera. Estava bem longe agora, indo muito depressa. Fora do alcance. Mas o que importa? pensou satisfeito, dominando agora a ansiedade. Logo terei as armas de volta e agora estou fora da armadilha de Ishido e tenho a mais famosa espada de Toranaga e logo todos os daimios da terra estarão informados da minha nova posição nos exércitos do leste - o primeiro depois de Toranaga! Yabu ainda podia ver Toranaga, acenou e foi correspondido. Depois Toranaga desapareceu do tombadilho.
Yabu pegou o rolo de pergaminho e voltou a atenção para o presente. E para o Anjin-san.
Blackthorne observava a trinta passos de distância e sentiu os pêlos se arrepiarem sob o olhar perscrutador de Yabu. Ouviu Mariko falando na sua voz musical, mas isso não o tranqüilizou. Sua mão apertou dissimuladamente a coronha da pistola.
- Anjin-san! - chamou Mariko. - Venha até aqui, por favor!
Quando Blackthorne se aproximou, Yabu levantou os olhos do pergaminho e fez um gesto de cabeça amistoso. Ao terminar a leitura, Yabu devolveu o papel a Mariko e falou brevemente, parcialmente com ela, parcialmente com ele. Respeitosamente Mariko estendeu o papel para Blackthorne.
Ele o pegou e examinou os caracteres incompreensíveis.
- O Senhor Yabu diz que o senhor é bem-vindo nesta aldeia. Este documento está sob o selo do Senhor Toranaga, Anjin-san. Deve guardá-lo. Ele lhe concedeu uma honra rara. Fez do senhor um hatamoto. Essa é a posição de um assistente especial do estado-maior pessoal dele. O senhor tem a sua proteção absoluta. Mais tarde lhe explicarei os privilégios, mas o Senhor Toranaga também lhe deu um salário de vinte kokus por mês. Isso equivale a ...
Yabu interrompeu-a, gesticulando expansivamente para Blackthorne, depois para a aldeia, e falou longamente. Mariko traduziu:
- O Senhor Yabu repete que o senhor é bem-vindo aqui. Espera que o senhor fique satisfeito. Tudo será feito para tornar a sua estada confortável. Será providenciada uma casa para o senhor. E professores. O senhor, por favor, aprenderá japonês o mais rápido possível, diz ele. Esta noite ele lhe fará algumas perguntas e lhe falará sobre um trabalho especial.
- Por favor, pergunte a ele que trabalho.
- Permita-me aconselhar-lhe só um pouco mais de paciência, Anjin-san. Este não é o momento, sinceramente.
- Está bem.
- Wakarimasu ka, Anjin-san - disse Yabu. Compreendeu?
- Hai, Yabu-san. Domo.
Yabu deu ordens a Igurashi para dispensar o regimento, depois avançou em direção aos aldeões, que continuavam prostrados na areia.
Deteve-se diante deles, na excelente tarde quente de primavera, com a espada de Toranaga ainda na mão. Suas palavras atingiram-nos como um açoite. Yabu apontou a espada para Blackthorne, perorou alguns momentos, determinou abruptamente. Um tremor percorreu os aldeões. Mura curvou-se e disse "hai" várias vezes. Voltou-se, fez uma pergunta aos aldeões e todos os olhares se fixaram em Blackthorne.
- Wakarimasu ka? - perguntou Mura, e todos responderam: - Hai -, suas vozes misturando-se ao suspirar das ondas quebrando na praia.
- O que está acontecendo? - perguntou Blackthorne a Mariko, mas Mura gritou:
- Keirei! - e os aldeões se curvaram profundamente de novo, uma vez para Yabu, uma vez para Blackthorne. Yabu se afastou a passos largos, sem olhar para trás.
- O que está acontecendo, Mariko-san?
- Ele... o Senhor Yabu dissê-lhes que o senhor é hóspede de honra aqui. Que o senhor também é um vas ... assistente muito honrado do Senhor Toranaga. Que está aqui principalmente para aprender a nossa língua. Que ele dá à aldeia a honra e a responsabilidade de ensiná-lo. A aldeia é responsável, Anjin-san. Cada um aqui deve ajudá-lo. Disse que se o senhor não tiver aprendido satisfatoriamente dentro de seis meses, a aldeia será queimada, mas antes disso cada homem, mulher e criança serão crucificados.
CAPÍTULO 31
O dia estava morrendo agora, as sombras alongadas, o mar vermelho, e um vento suave soprando.
Blackthorne vinha subindo o caminho da aldeia, em direção à casa que Mariko lhe indicara e que dissera seria sua. Ela esperara escoltá-lo até lá, mas ele agradecera, recusara, e caminhara por entre os aldeões ajoelhados rumo ao promontório, para ficar sozinho e pensar.