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Achara o esforço de pensar grande demais. Nada parecia se encaixar. Molhara a cabeça com água salgada para tentar aclarar as idéias, mas não ajudara. Finalmente desistira e retornara à toa pela praia, passara ao lado do molhe, cruzara a praça e atravessara a aldeia, até a casa onde devia viver agora e onde, lembrou-se ele, não havia uma residência antes. Lá em cima, dominando a ladeira oposta, havia outra moradia, maior, parte de sapé, parte de telhas, por trás de uma alta paliçada, com muitos guardas junto ao portão fortificado.

Samurais pavoneavam-se pela aldeia ou paravam em grupos, conversando. A maior parte já marchara atrás dos respectivos oficiais, seguindo em grupos disciplinados pelas veredas e por sobre a colina, rumo ao acampamento. Os samurais que Blackthorne encontrou, saudou-os distraidamente e foi correspondido. Não viu aldeões. Blackthorne parou do lado de fora do portão encaixado na cerca. Havia mais daqueles caracteres peculiares pintados no batente, e a porta era escavada em desenhos habilidosos, planejados para esconder e ao mesmo tempo revelar o jardim lá atrás.

Antes que pudesse abrir a porta, ela girou para dentro e um velho atemorizado curvou-se para ele.

- Konbanwa, Anjin-san. - A voz dele tremulava de modo

deplorável.

- Konbanwa. Ouça, meu velho, er... o namae ka?

- Namae watashi wa, Anjin-san? Ah, watashi Ueki-ya... Ueki-ya. - O velho estava quase cantando de alívio.

Blackthorne disse o nome várias vezes para ajudar a lembrar, e acrescentou "san". O velho sacudiu a cabeça violentamente:

- Iyé, gomen nasai! Iyé "san", Anjin-sama. Ueki-ya! Ueki-ya!

- Está bem, Ueki-ya. - Mas, pensou Blackthorne, por que não "san", como todos os demais?

Blackthorne dispensou-o com um gesto. O velho afastou-se coxeando, rápido.

- Terei que ser mais cuidadoso. Tenho que ajudá-los - disse em voz alta.

Uma criada apreensiva apareceu na varanda, atravessando uma shoji, e curvou-se profundamente.

- Konbanwa, Anjin-san.

- Konbanwa - respondeu ele, reconhecendo-a vagamente do navio. Também a afastou com um gesto.

Um roçar de seda. Fujiko surgiu de dentro da casa. Mariko veio com ela.

- Seu passeio foi agradável, Anjin-san?

- Sim, agradável, Mariko-san. - Mal a notou, assim como a Fujiko, a casa ou o jardim.

- Gostaria de tomar um pouco de chá? Ou saquê, talvez? Ou talvez um banho? A água está quente. - Mariko riu nervosa, perturbada pela expressão dos olhos dele. - A casa de banho não está completamente acabada, mas esperamos que seja adequada.

- Saquê, por favor. Sim, saquê primeiro, Mariko-san.

Mariko falou com Fujiko, que desapareceu mais uma vez dentro da casa. Uma criada trouxe silenciosamente três almofadas e se afastou. Mariko sentou-se graciosamente sobre uma delas.

- Sente-se, Anjin-san, deve estar cansado.

- Obrigado.

Sentou-se nos degraus da varanda e não tirou as sandálias.

Fujiko trouxe dois frascos de saquê e uma xícara de chá, conforme Mariko lhe dissera, e não os minúsculos cálices de porcelana que deviam ser usados.

- É melhor lhe dar muito saquê rapidamente - dissera Mariko. - O melhor seria deixá-lo logo bêbado, mas o Senhor Yabu precisa dele esta noite. Um banho e saquê talvez o reconfortem.

Blackthorne bebeu a xícara de vinho aquecido que lhe foi oferecida sem saboreá-lo. Depois uma segunda. E uma terceira. As duas haviam-no observado a subir a colina, através da fenda de shojis ligeiramente entreabertas.

- O que há com ele? - perguntara Fujiko, alarmada.

- Está angustiado com o que o Senhor Yabu disse, o compromisso da aldeia.

- Por que isso deveria incomodá-lo? Ele não está ameaçado. Não foi a vida dele que foi ameaçada.

- Os bárbaros são diferentes de nós, Fujiko-san. Por exemplo, o Anjin-san acredita que os aldeões são pessoas como outras pessoas, como samurais, alguns até melhores do que samurais.

Fujiko rira nervosamente.

- Que absurdo, neh? Como é que camponeses podem ser iguais a samurais?

Mariko não respondera. Simplesmente continuara a observar o Anjin-san.

- Coitado.

- Coitada da aldeia! - O curto lábio superior de Fujiko se contraiu desdenhosamente. - Um estúpido desperdício de camponeses e pescadores! Kasigi Yabu é um imbecil! Como é que um bárbaro pode aprender a nossa língua em meio ano? Quanto tempo levou o bárbaro Tsukku-san? Mais de vinte anos, neh? E ele não é o único bárbaro que jamais foi capaz de falar japonês, mesmo passavelmente?

- Não, não o único, embora seja o melhor que eu já conheci. Sim, é difícil para eles. Mas o Anjin-san é um homem inteligente e o Senhor Toranaga disse que, em meio ano, isolado dos bárbaros, comendo a nossa comida, vivendo como nós, tomando chá, tomando banho todos os dias, o Anjin-san logo será como um de nós.

O rosto de Fujiko enrijecera.

- Olhe para ele, Marikosan... tão feio. Tão monstruoso e estranho. Curioso pensar que apesar do muito que detesto os bárbaros, assim que ele atravessar o portão estou comprometida e ele se torna meu senhor e amo.

- Ele é corajoso, muito corajoso, Fujiko. Salvou a vida do Senhor Toranaga e é muito valioso para ele.

- Sim, eu sei, e isso deveria fazer com que eu desgostasse menos dele, mas sinto muito, não faz. Ainda assim, tentarei com todas as minhas forças transformá-lo num de nós. Rezo para que Buda me ajude.

Mariko quisera perguntar à sobrinha o motivo da súbita mudança. Por que estava tão preparada para servir o Anjin-san e obedecer ao Senhor Toranaga tão absolutamente, quando naquela manhã mesma se recusou a obedecer-lhe, jurou matar-se sem permissão ou matar o bárbaro no momento em que ele adormecesse? O que foi que o Senhor Toranaga disse para mudála, Fujiko?

Mas Mariko sabia que não devia perguntar, Toranaga não lhe confidenciara o motivo. Fujiko não lhe contaria. A garota fora bem educada pela mãe, irmã de Buntaro, que fora educada pelo pai, Hiromatsu.

Pergunto a mim mesma se o Senhor Hiromatsu escapará do Castelo de Osaka, pensou Mariko, que gostava muito do velho general, seu sogro. E Kiri-san e a Senhora Sazuko? Onde estará Buntaro, meu marido? Onde terá sido capturado? Ou será que teve tempo para morrer?

Mariko observou Fujiko servir a última dose de saquê. Essa xícara também foi consumida como as outras, sem expressão.

- Dozo. Saquê - disse Blackthorne. Mais saquê foi trazido. E terminado. - Dozo, saquê.

- Mariko-san - disse Fujiko -, o amo não devia beber mais, neh? Vai ficar bêbado. Por favor, perguntê-lhe se gostaria de tomar banho agora. Mandarei buscar Suwo.

Mariko perguntou.

- Desculpe, ele disse que tomará banho mais tarde.

Pacientemente Fujiko mandou servir mais saquê e Mariko acrescentou, dirigindo-se à criada:

- Traga um pouco de peixe grelhado.

O novo frasco foi esvaziado com a mesma determinação silenciosa. A comida não o tentou, mas ele pegou um pedaço, ante a graciosa persuasão de Mariko. Não comeu. Trouxeram mais vinho, e mais dois frascos foram consumidos.

- Por favor, peça desculpas ao Anjin-san - disse Fujiko.

- Sinto muito, mas não há mais saquê na casa dele. Diga-lhe que peço desculpas por essa falta. Mandei a criada buscar mais na aldeia.

- Ótimo. Ele já bebeu mais que o suficiente, embora não pareça ter sido afetado em absoluto. Por que não nos deixa agora, Fujiko? Seria um bom momento para fazer o oferecimento formal em seu nome.

Fujiko curvou-se para Blackthorne e saiu, contente com o costume que decretava que os assuntos importantes deviam sempre ser tratados por uma terceira pessoa, em particular. Assim a dignidade podia sempre ser preservada, por ambas as partes.

Mariko explicou a Blackthorne sobre o vinho.