- Quanto tempo vai levar para trazerem mais?
- Não muito. Talvez o senhor gostasse de tomar um banho agora. Providenciarei para que o saquê lhe seja enviado assim que chegar.
- Toranaga disse alguma coisa sobre o meu plano antes de partir? Sobre a marinha?
- Não. Sinto muito, ele não disse nada sobre isso. - Mariko estivera atenta aos sinais reveladores de embriaguez, mas para sua surpresa, nenhum aparecera, nem um leve rubor, ou palavras se enrolando. Com aquela quantidade de vinho, consumida tão depressa, qualquer japonês estaria bêbado. - O vinho não é do seu agrado, Anjin-san?
- Não, de fato. É fraco demais. Não me dá nada.
- Procura esquecimento?
- Não... uma solução.
- Qualquer coisa que possa ser feita para ajudá-lo será feita.
- Preciso de livros, papel e penas.
- Amanhã começarei a reuni-los para o senhor.
- Não, esta noite, Mariko-san. Preciso começar agora.
- O Senhor Toranaga disse que lhe mandaria um livro... como foi que o senhor chamou?... livros de gramática e livros de palavras dos santos padres.
- Quanto tempo isso vai levar?
- Não sei. Mas estou aqui por três dias. Talvez isso possa servir-lhe de auxílio. E Fujiko-san também está aqui para ajudar. - Ela sorriu, feliz por ele. - Estou honrada em lhe dizer que ela foi dada ao senhor como consorte e...
- O quê?
- O Senhor Toranaga perguntou a ela se seria sua consorte, ela disse que ficaria honrada e concordou. Ela...
- Mas eu não concordei.
- Por favor? Desculpe, não compreendo.
- Não a quero. Nem como consorte nem à minha volta. Acho-a feia.
Mariko olhou-o embasbacada.
- Mas o que isso tem a ver com consorte?
- Diga-lhe que vá embora.
- Mas, Anjin-san, não pode recusá-la! Isso seria um terrível insulto ao Senhor Toranaga, a ela, a todo mundo! Que mal ela lhe fez? Nenhum absolutamente! Usagi Fujiko é...
- Escute aqui! - As palavras de Blackthorne ricochetearam em torno da varanda e da casa. - Diga a ela que vá embora!
Mariko disse imediatamente:
- Sinto muito, Anjin-san. sim, o senhor tem razão de estar zangado. Mas...
- Não estou zangado - disse Blackthorne friamente. - Será que vocês... será que vocês não conseguem enfiar na cabeça que estou cansado de ser um fantoche? Não quero essa mulher por perto, quero o meu navio de volta, a minha tripulação, e isso é tudo! Não vou ficar aqui seis meses e detesto os seus costumes. É absolutamente terrível que um homem possa ameaçar arrasar uma aldeia inteira, só para que me ensinem japonês, e quanto a consortes, isso é pior do que escravidão, e é um maldito insulto arranjar isso sem me consultar antes!
Qual é o problema agora? estava se perguntando Mariko, desesperada. O que a feiúra tem a ver com consorte? E de qualquer modo Fujiko não é feia. Como é que ele pode ser tão incompreensivo? Então se lembrou da advertência de Toranaga:
- Mariko-san, você é pessoalmente responsável, primeiro por que Yabu-san não interfira na minha partida depois de eu lhe dar a minha espada, e, segundo, é totalmente responsável por que o Anjin-san se instale docilmente em Anjiro.
- Farei o melhor possível, senhor. Mas receio que o Anjin-san me desconcerte.
- Trate-o como a um gavião. É essa a chave. Eu amanso um gavião em dois dias. Você tem três.
Ela desviou os olhos de Blackthorne e pôs o cérebro a funcionar. Ele realmente parece um gavião quando está furioso, pensou ela. Tem o mesmo guincho, a mesma ferocidade irracional, e quando não está furioso, o mesmo olhar fixo, altivo, o mesmo egoísmo total, com uma malignidade explosiva nunca muito distante.
- Concordo. O senhor tem toda a razão. Agiram de modo terrível com o senhor, fazendo-lhe uma imposição, e tem toda a razão de estar zangado - disse ela, apaziguadora. - Sim, e certamente o Senhor Toranaga deveria ter-lhe perguntado, ainda que não compreenda os seus costumes. Mas nunca ocorreu a ele que o senhor faria objeções. Só tentou honrá-lo como faria com seu samurai favorito. Ele o fez hatamoto, o que é quase como um parente, Anjin-san. Há apenas cerca de mil hatamotos em todo o Kwanto. E quanto à Senhora Fujiko, ele só estava tentando aju¬dá-lo. A Senhora Usagi Fujiko seria considerada... entre nós, Anjin-san, isso seria considerado uma grande honra.
- Por quê?
- Porque a linhagem dela é antiga e ela é muito educada. Seu pai e seu avô são daimios. Claro que é uma samurai, e claro - acrescentou Mariko delicadamente - que o senhor a honraria aceitando-a. E ela precisa de fato de um lar e de uma nova vida.
- Por quê?
- Enviuvou recentemente. Tem apenas dezenove anos, Anjin-san, pobre garota, mas perdeu o marido e o filho, e está cheia de remorso. Ser sua consorte formal daria a ela uma nova vida.
- O que aconteceu ao marido e ao filho?
Mariko hesitou, importunada pela descortês objetividade de Blackthorne. Mas já conhecia o bastante sobre ele para compreender que isso era costume dele e não significava falta de educação.
- Foram condenados à morte, Anjin-san. Enquanto o senhor estiver aqui, necessitará de alguém que cuide da sua casa. A Senhora Fujiko será...
- Por que os condenaram à morte?
- O marido dela quase causou a morte do Senhor Toranaga. Por favor...
- Toranaga ordenou a morte deles?
- Sim. Mas agiu corretamente. Pergunte a ela, ela concordará, Anjin-san.
- Que idade tinha a criança?
- Alguns meses, Anjin-san.
- Toranaga condenou um recém-nascido à morte, por alguma coisa que o pai fez?
- Sim. É o nosso costume. Por favor, tenha paciência conosco. Em algumas coisas não somos livres. Nossos costumes são diferentes dos seus. Veja, por lei pertencemos ao nosso suserano. Por lei um pai é senhor da vida dos filhos, da esposa, das consortes e dos criados. Por lei a vida dele pertence ao seu suserano. É o nosso costume.
- Então um pai pode matar qualquer um na sua casa?
- Sim.
- Então vocês são uma nação de assassinos.
- Não.
- Mas o seu costume desculpa o assassínio. Pensei que a senhora fosse cristã.
- Eu sou, Anjin-san.
- E os dez mandamentos?
- Não consigo explicar, realmente. Mas sou cristã, samurai e japonesa, e não são coisas contrárias umas às outras. Para mim não são. Por favor, seja paciente comigo e conosco. Por favor.
- A senhora mataria seus filhos se Toranaga ordenasse?
- Sim. Tenho apenas um filho, mas sim, creio que o faria. Certamente seria meu dever fazer isso. Essa é a lei... se o meu marido concordasse.
- Espero que Deus possa perdoar-lhe. A todos vocês.
- Deus compreende, Anjin-san. Oh, ele compreenderá. Talvez ele lhe abra a mente, de modo que o senhor possa compreender. Sinto muito, não sei explicar muito bem, neh? Peço desculpas pela minha falha. - Ela o observou em meio ao silêncio, confusa.
- Também não o compreendo, Anjin-san. O senhor me desconcerta. Seus costumes me desconcertam. Talvez se fôssemos ambos pacientes, poderíamos ambos aprender. A Senhora Fujiko, por exemplo. Como consorte, cuidará da sua casa e dos seus criados. E das suas necessidades - qualquer uma das suas necessidades. O senhor precisa ter alguém que faça isso. Ela providenciará o andamento da casa, tudo. O senhor não precisa "travesseirar" com ela, se isso o preocupa... se não a considerar atraente. Não precisa nem ser polido com ela, embora ela mereça polidez. Ela o servirá, como o senhor quiser, do modo que quiser.
- Posso tratá-la do modo que quiser?
- Sim.
- Posso "travesseirar" com ela ou não?
- Naturalmente. Ela encontrará alguém que o agrade, para satisfazer as suas necessidades físicas, se o senhor quiser, ou não interferirá.
- Posso tratá-la como a uma criada? Uma escrava?
- Sim. Mas ela merece coisa melhor do que isso.
- Posso mandá-la embora? Ordenar-lhe que se vá?