- Se ela o ofender, sim.
- O que aconteceria a ela?
- Normalmente retornaria à casa dos pais em desgraça, os quais poderiam ou não aceitá-la de volta. Alguém como a Senhora Fujiko preferiria matar-se a suportar essa vergonha. Mas ela... o senhor deve saber que os verdadeiros samurais não têm autorização para se matar sem a permissão do seu senhor. Alguns o fazem, claro, mas falham no seu dever e não são dignos de ser considerados samurais. Eu não me mataria, fosse qual fosse a vergonha, não sem a permissão do Senhor Toranaga, ou do meu marido. O Senhor Toranaga proibiu-a de pôr fim à vida. Se o senhor a mandar embora, ela se tornará uma pária.
- Por quê? Por que a família não a aceitaria de volta?
Mariko suspirou.
- Desculpe, Anjin-san, mas se o senhor a mandar embora, sua desgraça será tamanha, que ninguém a aceitará.
- Por estar contaminada? Por ter estado perto de um bárbaro?
- Oh, não, Anjin-san, só porque ela terá falhado no seu dever para com o senhor - disse Mariko imediatamente. - Ela é sua consorte agora... o Senhor Toranaga ordenou e ela concordou. O senhor é o amo da casa agora.
- Sou?
- Oh, sim, acredite-me, Anjin-san, o senhor tem privilégios. E na condição de hatamoto está abençoado. E bem de vida. O senhor Toranaga concedeu-lhe um salário de vinte kokus por mês. Por essa quantia, um samurai normalmente teria que se pôr à disposição do seu senhor, e fornecer-lhe mais dois samurais, armados, alimentados e montados o ano todo, e naturalmente pagar pela família deles também. Mas o senhor não tem que fazer isso. Rogo-lhe, considere Fujiko como uma pessoa, Anjin-san. Imploro-lhe que tenha caridade cristã. Ela é uma boa mulher. Perdoe-lhe a feiúra. Ela será uma consorte digna.
- Ela não tem lar?
- Sim. Este é o seu lar. - Mariko se conteve. – Imploro-lhe que a aceite formalmente. Ela pode ajudá-lo enormemente, ensinar-lhe; se o senhor precisar aprender. Se preferir, pense nela como em nada - como nesta coluna de madeira, ou a tela shoji, ou como numa pedra do seu jardim - o que quiser, mas permita-lhe que fique. Se não a quiser como consorte, seja piedoso. Aceite-a e depois, como cabeça da casa, de acordo com a nossa lei, mate-a.
- É a única resposta que a senhora tem, não? Matar!
- Não, Anjin-san. Mas a vida e a morte são a mesma coisa. Quem sabe, talvez o senhor preste à Senhora Fujiko um serviço muito maior tirando-lhe a vida. É um direito seu, agora, diante de todas as leis. Um direito seu. Se preferir torná-la uma pária, isso também é direito seu.
- Portanto estou novamente em uma armadilha – disse Blackthorne. - De um modo ou de outro ela morre. Se eu não aprender a sua língua, uma aldeia inteira será massacrada. Para qualquer coisa que vocês desejem que eu faça, um inocente é sempre morto. Não há como escapar disso.
- Há uma solução muito fácil, Anjin-san. Morra. O senhor não tem que suportar o insuportável.
- Suicídio é loucura ... e pecado mortal. Pensei que a senhora fosse cristã.
- Eu disse que sou. Mas para o senhor, Anjin-san, há muitos meios de morrer honrosamente sem se suicidar. Zombou do meu marido por não querer morrer lutando, neh? Não é um costume nosso, mas aparentemente é um costume seu. Então, por que não faz isso? O senhor tem uma pistola. Mate o Senhor Yabu. O senhor o considera um monstro, neh? Tente pelo menos matá-lo o ainda hoje estará no paraíso ou no inferno.
Ele a olhou, detestando os seus modos serenos, vendo-lhe a amabilidade através do seu ódio.
- É sinal de fraqueza morrer assim, por nenhuma razão. Estupidez é uma palavra melhor.
- O senhor diz que é cristão. Portanto acredita no Jesus menino - em Deus - e no paraíso. A morte não deveria assustá-lo. E quanto a "nenhuma razão", depende do senhor julgar o valor ou o não-valor. O senhor pode ter motivos suficientes para morrer.
- Estou em seu poder. A senhora sabe disso. E eu também.
Mariko inclinou-se e tocou-o, compadecida.
- Anjin-san, esqueça a aldeia. Um milhão de coisas podem acontecer antes que os seis meses se passem. Um macaréu, um terremoto, ou o senhor recuperar o seu navio e partir, ou a morte de Yabu, ou a morte de todos nós, ou quem sabe? Deixe os problemas de Deus a Deus, o karma ao karma. Hoje o senhor está aqui e nada que faça mudará isso. Hoje está vivo, aqui, honrado, e abençoado pela boa fortuna. Olhe esse pôr-do-sol, é lindo, neh? Esse pôr-do-sol existe. O amanhã não existe. Só existe o agora. Por favor, olhe. É tão lindo e nunca mais vai acontecer de novo, nunca, não este pôrdo-sol, nunca, em toda a infinidade. Perca-se nele, faça-se um com a natureza e não se preocupe com karma, o seu, o meu, ou o da aldeia.
Ele se percebeu seduzido pela serenidade dela, e pelas palavras. Olhou para oeste. Grandes manchas de vermelho-púrpura e preto se espalhavam pelo céu. Apreciou o sol até que desaparecesse.
- Gostaria que a senhora pudesse ser consorte - disse ele.
- Pertenço ao Senhor Buntaro e até que ele morra não posso pensar nem dizer o que poderia ser pensado ou dito.
Karma, pensou Blackthorne.
Você aceita o karma? O meu? O dela? O deles?
A noite está linda.
Ela também, e pertence a outro.
Sim, ela é linda. E muito sábia. Deixe os problemas de Deus a Deus e karma ao karma. Você veio até aqui sem ser convidado. Está aqui. Está em poder deles.
Mas qual é a resposta?
A resposta virá, disse-se ele. Porque existe um Deus no paraíso, um Deus em algum lugar.
Ouviu o ruído de passos. Alguns archotes aproximavam-se colina acima. Vinte samurais, Omi à frente deles.
- Desculpe, Anjin-san, mas Omi-san ordena que o senhor lhe entregue as pistolas.
- Diga-lhe que vá para o inferno!
- Não posso, Anjin-san. Não me atrevo.
Blackthorne mantinha uma mão frouxamente sobre a coronha da pistola, de olhos em Omi. Deliberadamente permanecera nos degraus da varanda. Havia dez samurais no jardim, atrás de Omi, e os demais perto do palanquim à espera. Logo que Omi entrara sem ser convidado, Fujiko saíra do interior da casa e agora se erguia ali na varanda, pálida, atrás de Blackthorne.
- O Senhor Toranaga nunca se opôs e estive armado durante dias, perto dele e de Yabu-san.
- Sim, Anjin-san - disse Mariko, nervosamente -, mas por favor compreenda, o que Omi-san diz é verdade. É costume nosso não se ir à presença de um daimio com armas. Não há nada que te... nada com que se preocupar. Yabu-san é seu amigo. O senhor é hóspede dele aqui.
- Diga a Omi-san que não lhe darei as minhas armas. - Depois, permanecendo ela em silêncio, Blackthorne perdeu a calma e balançou a cabeça. - Iyé, Omi-san! Wakarimasu ka? Iyé!
O rosto de Omi se contraiu. Rispidamente, deu uma ordem.
Dois samurais avançaram. Blackthorne sacou as armas. Os samurais pararam. As duas pistolas apontavam diretamente para o rosto de Omi.
- Iyé! - disse Blackthorne. Depois, a Mariko: - Diga-lhe que os mande recuar ou eu aperto os gatilhos.
Ela fez isso. Ninguém se moveu. Lentamente Blackthorne se levantou, as pistolas sempre apontadas para o alvo. Omi estava absolutamente calmo, sem medo, os olhos seguindo os movimentos felinos de Blackthorne.
- Por favor, Anjin-san. Isso é muito perigoso. O senhor tem que ver o Senhor Yabu. Não pode ir com as pistolas. É um hatamoto, está protegido e também é um hóspede do Senhor Yabu.
- Diga a Omi-san que se ele ou qualquer um dos seus homens vier até dez passos de mim, estouro-lhe a cabeça.
- Omi-san disse polidamente: "Pela última vez, ordeno-lhe que entregue as armas. Agora".
- Iyé.
- Por que não deixá-las aqui, Anjin-san? Não há nada que temer. Ninguém tocará...