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- Acha que eu sou algum imbecil?

- Então entregue-as a Fujiko-san!

- O que ela pode fazer? Ele as tirará dela, qualquer um as tirará, depois estou indefeso.

A voz de Mariko se aguçou.

- Por que não ouve, Anjin-san? Fujiko-san é sua consorte. Se o senhor lhe ordenar, ela protegerá as armas com a própria vida. É dever dela. Não vou lhe repetir isto nunca mais, mas Toda-noh-Usagi Fujiko é samurai.

Mariko traduziu isso. Omi ouviu sem expressão, depois respondeu brevemente, olhando para o cano das armas firmemente apontadas.

- Ele disse: "Eu, Kasigi Omi, lhe pediria que entregasse as pistolas e lhe pediria que viesse comigo porque Kasigi Yabu-sama ordena que o senhor se apresente a ele. Mas Kasigi Yabu-sama ordena-me que lhe ordene que entregue as armas. Sinto muito, Anjin-san, pela última vez ordeno-lhe que as entregue".

Blackthorne sentia o peito oprimido. Sabia que seria atacado e estava furioso com a própria estupidez. Mas chega um momento em que não se agüenta mais, daí se saca uma pistola ou uma faca, e então corre sangue devido a um orgulho estúpido. Na maioria das vezes estúpido. Se tenho que morrer, Omi morrerá primeiro, por Deus!

Sentia-se muito forte, embora um tanto tolo. Então o que Mariko dissera começou a ressoar-lhe nos ouvidos: "Fujiko é samurai, é sua consorte!" E o cérebro começou a funcionar.

- Um instante! Mariko-san, por favor diga a Fujiko-san exatamente isto: "Vou lhe entregar as minhas pistolas. Você deve guardá-las. Ninguém além de mim deve tocá-las".

Mariko fez o que ele lhe pediu e, pelas costas, ele ouviu Fujiko dizer:

- Hai.

- Wakarimasu ka, Fujiko-san? — perguntou ele.

- Wakarimasu, Anjin-san - respondeu ela, numa voz fina e nervosa.

- Mariko-san, por favor, diga a Omi-san que irei com ele agora. Sinto muito que tenha havido um mal-entendido. Sim, sinto muito que tenha havido um mal-entendido.

Blackthorne recuou e voltou-se. Fujiko aceitou as armas, a testa úmida de suor. Ele encarou Omi e rezou para estar certo.

- Vamos agora?

Omi falou a Fujiko e estendeu a mão. Ela meneou a cabeça.

Ele deu uma ordem curta. Os dois samurais começaram a avançar. Imediatamente ela empurrou uma pistola para dentro do sash, segurou a outra com as duas mãos, esticou o braço e mirou Omi.

O gatilho recuou ligeiramente e a alavanca da agulha moveu-se.

- Ugoku na! - disse ela. - Dozo!

Os samurais obedeceram. Pararam.

Omi falou rápida e furiosamente, ela ouviu e quando respondeu sua voz soou suave e polida, mas a pistola continuou mirando-lhe o rosto, parcialmente engatilhada agora, e concluiu:

- Iyé, gomen nasai, Omi-san! Não, sinto muito, Omi-san.

Blackthorne esperava.

Um samurai moveu-se uma fração. O gatilho recuou perigosamente, quase até a extremidade do arco. O braço permanecia firme.

- Ugoku na! - ordenou ela.

Ninguém duvidava de que ela puxaria o gatilho. Nem Blackthorne. Omi disse bruscamente alguma coisa a ela e aos seus homens. Eles recuaram. Ela baixou a pistola, mas conservou-a preparada.

- O que ele disse? - perguntou Blackthorne.

- Apenas que relataria o incidente a Yabu-san.

- Ótimo. Diga-lhe que farei o mesmo. - Blackthorne voltou-se para ela. - Domo, Fujiko-san. - Depois, lembrando-se do modo como Toranaga e Yabu conversavam com mulheres, grunhiu imperiosamente para Mariko. - Vamos, Mariko-san... ikamasho! - Começou a se dirigir para o portão.

- Anjin-san! - chamou Fujiko.

- Hai? - Blackthorne parou. Fujiko curvou-se e falou rapidamente com Mariko.

Os olhos de Mariko arregalaram-se, depois ela assentiu e respondeu, e falou com Omi, que assentiu também, visivelmente furioso, mas contendo-se.

- O que está acontecendo?

- Por favor, tenha paciência, Anjin-san.

Fujiko chamou e houve uma resposta do interior da casa. Uma criada surgiu na varanda. Nas mãos trazia duas espadas. Espadas de samurai.

Fujiko pegou-as reverentemente, ofereceu-as a Blackthorne com uma curvatura, falando suavemente.

- Sua consorte assinala - disse Mariko - que um hatamoto, naturalmente, é obrigado a usar as duas espadas dos samurais. Mais que isso, é seu dever fazer isso. Ela acredita que não seria correto que o senhor comparecesse à presença do Senhor Yabu sem espadas - que isso seria impolido. Pela nossa lei, é um dever portar as espadas. Ela pergunta se o senhor levaria em conta a possibilidade de usar estas, embora sejam indignas, até comprar as suas.

Blackthorne olhou para ela, depois para Fujiko, e novamente para Mariko.

- Isso significa que sou samurai? Que o Senhor Toranaga me fez samurai?

- Não sei, Anjin-san. Mas nunca houve um hatamoto que não fosse samurai. Nunca. - Mariko voltou-se e interrogou Omi.

Impaciente, este meneou a cabeça e respondeu.

- Omi-san também não sabe. Mas com certeza é privilégio especial de um hatamoto usar espadas o tempo todo, mesmo na presença do Senhor Toranaga. É dever dele porque é um guarda-costas absolutamente digno de confiança. Além disso, um hatamoto também tem o direito de audiência imediata com um senhor.

Blackthorne pegou a espada curta é enfiou-a no cinto, depois a outra, a comprida, a espada mortífera, exatamente conforme Omi a estava usando. Armado, sentiu-se melhor.

- Arigato goziemashita, Fujiko-san - disse calmamente.

Ela baixou os olhos e respondeu com suavidade. Mariko traduziu.

- Fujiko-san diz, com a sua permissão, já que o senhor deve aprender a nossa língua correta e rapidamente, ela humildemente chama a sua atenção para o fato de que, para um homem, "domo" é mais que suficiente. "Arigato", com ou sem "goziemashita", é uma polidez desnecessária, uma expressão que apenas as mulheres usam.

- Hai. Domo. Wakarimasu, Fujiko-san. – Blackthorne olhou para ela diretamente pela primeira vez. Viu-lhe a transpiração na testa e o brilho nas mãos. Os olhos estreitos, o rosto quadrado e os dentes pontudos. - Por favor, diga à minha consorte que neste caso não considero "arigato goziemashita" uma polidez desnecessária.

Yabu relanceou os olhos para as espadas novamente. Blackthorne estava sentado de pernas cruzadas sobre uma almofada à sua frente, no lugar de honra, com Mariko ao lado dele e Igurashi ao seu.

Encontravam-se na sala principal da fortaleza.

Omi acabou de falar. Yabu deu de ombros.

- Você lidou pessimamente com a situação, sobrinho. Claro que é dever da consorte proteger o Anjin-san e a propriedade dele. Claro que ele tem o direito de usar espadas agora. Sim, você agiu muito mal. Deixei claro que o Anjin-san é meu hóspede honrado aqui. Peça-lhe desculpas.

Imediatamente Omi se levantou, ajoelhou-se diante de Blackthorne e curvou-se.

- Peço desculpas pelo meu erro, Anjin-san. - Ouviu Mariko dizer que o bárbaro aceitava as desculpas. Curvou-se de novo, calmamente dirigiu-se para o seu lugar e sentou-se. Mas por dentro não estava calmo. Sentia-se agora totalmente consumido por uma idéia: matar Yabu.

Resolvera fazer o impensáveclass="underline" matar seu suserano e cabeça do seu clã.

Mas não porque fora obrigado a pedir desculpas publicamente ao bárbaro. Nisso Yabu tivera razão. Omi sabia que fora desnecessariamente inepto, pois embora Yabu tivesse estupidamente lhe ordenado que tomasse as pistolas naquela noite, sabia que devia ter dado um jeito de deixá-las na casa, para serem roubadas ou quebradas mais tarde.

E o Anjin-san agira com toda a correção ao dar as pistolas à consorte, disse ele a si mesmo, assim como ela fora correta ao fazer o que fizera. E ela com certeza teria puxado o gatilho. Não era segredo que Usagi Fujiko buscava a morte, nem por que a buscava. Omi sabia, também, que se não fosse pela decisão que tomara aquela manhã, de matar Yabu, teria avançado para a morte e depois seus homens teriam arrancado as pistolas a ela. Ele teria morrido nobremente, assim como ela, e homens e mulheres relatariam o trágico episódio durante gerações. Canções, poemas, e até uma peça no, todas muito inspiradas, trágicas, magníficas, sobre eles três: a fiel consorte e o fiel samurai que morreram pelo dever, por causa do inacreditável bárbaro que viera do mar oriental.